Pouco olhei a serra d’aire em criança, enquanto cresci no Entroncamento. Mas vejo-a da minha janela. Vivi sempre ocupado com os muitos deveres e responsabilidades de criança. A escola, o hóquei em patins, a catequese, jogar à bola na zona verde, ler muitos livros de banda desenhada, e por aí fora. Nunca verdadeiramente levantei a cabeça para ver esse colosso geológico, que tem até um mar – o mar de Minde – que por vezes se forma em condições de especial pluviosidade. Fui assim amputado dos seus mistérios e das suas lendas; do seu bafo animal que nos recorda que também nós somos natureza, também nós somos bichos. Mas a serra sempre esteve lá, assim como as estrelas que a cercam. Respirando silêncio, fazendo chão onde se formam as nuvens.
Diz-se que, em noites muito escuras, sobretudo no Inverno, aparecem pequenas luzes a pairar entre as pedras e os caminhos da serra. As luzes movem-se como se tivessem vontade própria. Há quem diga que são almas penadas, perdidas entre o mundo dos vivos e dos mortos. Outros acreditam que são antigos pastores ou viajantes que morreram na serra e continuam ali, a tentar encontrar o caminho de volta.Os antigos avisavam: Se vires uma dessas luzes e a seguires, perdes-te para não mais voltar.
Tambêm se conta em algumas aldeias da Seŕra d’Aire a história do “Pastor que entrou na Terra”. Diz-se que, há muitos anos, um pastor levava o rebanho perto das encostas onde hoje ficam as Grutas de Mira de Aire. Um dia, uma das ovelhas desapareceu, ao pôr do sol. Ele foi à procura dela e encontrou uma abertura na rocha, que não se lembrava de lá estar. Chamou pela ovelha e nada. E lembrou-se de entrar no buraco. Diz-se que ele caminhou durante horas, ou minutos. Não se sabe. O que ele disse depois é que ouvia algo ao longe, um eco ou um murmúrio. O som persistia enquanto caminhava, caminhava. Até que deixou de ouvir o som.E encontrou a ovelha. Quieta. A olhar para ele. Quando saiu da gruta, o sol ainda se punha. Para ele, tinham passado pouco mais que uns minutos. Mas quando voltou à aldeia, estava mudado. Transfigurado. A barba estava longa. A roupa, gasta como se tivesse passado semanas fora. E o pior: Diziam que ele falava devagar, como se estivesse a ter pensamentos do Além. Às vezes parava a meio das frases, como se estivesse a ouvir outra coisa. Ele insistia:
“Só estive lá dentro um bocadinho.”
Mas os outros juravam que ele tinha desaparecido durante dias. Depois disso, nunca mais foi o mesmo. Evitava a serra ao cair da noite. E, segundo contam, às vezes olhava para o chão como se estivesse a falar com os mortos. Há quem diga que entrou numa gruta qualquer. Outros dizem que entrou noutro tempo.
A Serra guarda este e outros segredos. Mas a cidade não olha para lá. Os Mistérios perderam-se na distância, no tempo e no espaço. Nas casas e apartamentos da cidade, as pessoas vêem netflix e jogam playstation, objetivando a imaginação. O perigo, o temor e o desconhecido são assim aprisionados no ritmo da cidade. A magia perde-se, e as histórias acabam.
O Entroncamento teve muitas histórias em comum, desde os fenómenos, o parafuso, os onze unidos. Teve o zequinha que era padeiro, que não gostava que lhe chamassem zequinha, e atirava pedras às crianças que assim o ofendiam. O Armandinho que ia sempre esperar o pai à estação, apesar dele ter falecido havia muitos anos. O Tó Garinho que rangia os dentes quando se sentia ameaçado. O Barbosa que batia em quem lhe tirasse a bola nas peladinhas da zona verde. Estas eram as nossas serras. Pessoas com histórias maiores que si mesmas, recortando os horizontes da nossa imaginação. Hoje temos desconhecidos, sombras e vultos a pairar na cidade. Pessoas cujas histórias não se contam, não se dizem, não se falam. É o preto. O monhé. O presidente. O dono da loja. Parcas qualificações para quem se esconde e se evita. Pessoas que perseguem os seus próprios interesses, desenraizadas, desumanizadas. As relações cristalizaram como as cerejas no bolo rei – demasiado doces, demasiado hipócritas. Dados viciados em jogos combinados pelos vencedores de sempre.
A Serra d’Aire, assim como as estrelas, lá continuam, incólumes, à espera que olhemos para lá, e as histórias voltem a ser livres, num tempo fora deste tempo.
Foto de Tyler Lastovich




















