No início do atual ano letivo, no conjunto global das escolas básicas e da secundária, mais o agregado de jardins-de-infância existentes, estavam matriculados no Agrupamento de Escolas Cidade do Entroncamento (AECE) 2854 alunos, dos quais 474 eram estrangeiros, e correspondentes a 23 nacionalidades distintas. A informação foi-nos prestada por Amélia Vitorino, a diretora do agrupamento, sublinhando que, comparando com o ano letivo de 2019/2020, que registou a matrícula de 192 alunos estrangeiros, o acréscimo destes estudantes foi de cerca de 150 por cento. Entre as nacionalidades mais presentes no novo perfil da população escolar do Entroncamento, e para além, naturalmente, da portuguesa, contam-se a brasileira, a mais representativa, seguindo-se a angolana e a ucraniana, e depois, em menor número, os jovens do Nepal, Moldova, Cabo Verde, Guiné-Bissau e mais de dezena e meia de outras origens. Cada turma das escolas públicas da cidade, tal como o agrupamento, tal como a própria cidade ferroviária do Entroncamento, converteram-se de uma forma abrupta nos últimos anos numa Sociedade das Nações. Poder-se-á considerar que é a globalização em marcha e a todo o vapor, um sinal dos tempos e do mundo, mas nas escolas, e para além dos poblemas mais comuns e quotidianos, isso traz, enormes e inéditas dificuldades acrescidas e nem sempre de resolução fácil para os professores e os próprios alunos.
Assim, não é difícil imaginar, em abstrato, que numa turma de 25 jovens da cidade, haja cerca de 15 portugueses, incluindo duas ou três crianças de alguma etnia e alguma necessidade específica, três brasileiros oriundos do Rio de Janeiro, do Nordeste ou da Amazónia, dois ucranianos, dois angolanos, e mais um ou outro menino ou menina da Índia, da China e do Nepal. Claro que há problemas de língua, de comunicação, de raças, mas também de usos e costumes, mentalidades, e eventualmente de se irem acentuar as desigualdades naturais e de variada ordem. Uma das bandeiras da Escola em Portugal (e há de ser para consumo interno e também para as comunidades imigrantes, que provavelmente serão parte do nosso futuro como país, mas isso é outro assunto e outra conversa) é a de desejar e até dar prioridade à integração, à inclusão, à inserção e ao melhor acolhimento dos seus alunos. Todos. Mas é indiscutível que dos ideais e da teoria à realidade da sala de aula vai por vezes uma diferença que mata as ilusões, e essa diferença manifesta-se logo à primeira oportunidade. Há que registar ainda que nestas diferenças no AECE se devem incluir as 233 crianças e alunos com necessidades educativas especiais e jovens com problemas de visão mais ou menos graves, e mais outros abrangidos no espetro do autismo, sendo de salientar que o AECE se preparou já devidamente para ambos os casos, constituindo-se como escola de referência no âmbito da visão, e como unidade de apoio ao autismo, com professores de educação especial preparados para ajudar os alunos autistas e de baixa visão. E, por outro lado, a multiculturalidade está bem patente também no próprio Plano Anual do Atividades do agrupamento.
“Estamos preparados para a nova situação e para as dificuldades que vai criar. Há professores de Português Língua Não Materna nas escolas, e estão previstos apoios; e há o desdobramento de turmas e a coadjuvação de professores, entre outras medidas em implementação”, refere Amélia Vitorino, notando que o problema das línguas é mais marcante em relação aos jovens provenientes da Ucrânia, 24 alunos que frequentam desde o ensino pré-escolar ao secundário. Amélia Vitorino nota que há um conjunto de medidas, planos e estratégias capazes de dar resposta, na medida do que é possível, às necessidades particulares dos alunos estrangeiros. “Temos previsto o reforço das das aprendizagens, equipas multidisciplinares, um número de professores alargado para as necessidades educativas, uma psicóloga clínica para problemas socioemocionais, uma animadora sociocultural e capaz de ajudar ao sucesso dos alunos e a reduzir o abandono escolar”, afirma Amélia Vitorino, notando ainda as diligências já efetuadas pela direção, no âmbito da multiculturalidade, para o agrupamento ser apoiado pelo Alto Comissariado para as Migrações, referindo-se aqui o caso de Francisco Oliveira Neves, atual diretor do Departamento de Apoio à Integração e Valorização da Diversidade, ter sido também durante alguns anos o diretor do AECE e conhecedor da realidade escolar do Entroncamento.
“A direção e eu, enquanto diretora, continuaremos a contar com todos para o sucesso educativo e para a promoção da educação. É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança, e isso é cada vez mais verdade”, salienta a diretora, que sublinha ainda os apoios que o AECE tem recebido da Câmara do Entroncamento (com uma equipa multidisciplinar para a integração de etnias e apois diversos, como o transporte de alunos), as juntas de freguesia de Nossa Senhora de Fátima e de São João Batista e o próprio Centro de Ensino e Recuperação do Entroncamento.
O agrupamento debate-se ainda com as dificuldades causadas pela impossibilidade de, por motivos da falta de segurança da estrutura do edifício, não poder usar o Jardim de Infância Sophia de Mello Breyner, fazendo concentrar as crianças do pré-escolar nas escolas António Gedeão, da Zona Verde e do Bonito. Amélia Vitorino frisa ainda o papel positivo desenvolvido pelas cinco associações de pais do AECE, onde, na Escola EB 2/3 Dr. Ruy d’Andrade, começa já a ser notória a pressão do número de utilizadores no refeitório, onde num dia de maior afluência da última semana foram servidas 315 refeições, número bastante superior ao da média diária do ano letivo anterior.
O impacto escolar devido ao grande e súbito aumento do número de alunos estrangeiros no AECE é, adiante-se, um natural reflexo do próprio aumento da população proveniente de outros países e que, entre o princípio deste ano e o final de agosto, era determinado por 826 novas pessoas imigrantes. É claro que a multiculturalidade que chegou à cidade do Entroncamento, e a tornou quase instantaneamente num burgo mais cosmopolita, é em si um fenómeno positivo, favorável e bem-vindo, é sempre um fator de enriquecimento cultural e pessoal de todos, e ainda mais os jovens em idade escolar e mais permeáveis e plásticos a novas e diferentes formas de ver o mundo, sobretudo o do futuro. Mas causa mais apreensão a forma tão súbita e em grande escala a que tudo está a suceder, não havendo lugar a uma lenta e gradual assimilação cultural e até étnica de todas as partes. De quem estava e de quem chega. É um grande desafio que os cidadãos do Entroncamento, incluindo naturalmente os nossos novos concidadãos.
E é também um grande desafio para as escolas, para os professores e professoras (que hão de criar decerto novas formas de ensinar e que a realidade concreta os ajudará a descobrir), para as próprias autarquias, e outras instituições com responsabilidades culturais para desenvolver o cimento capaz de garantir uma coesão social em moldes diferentes dos mais convencionais. Os dados estão lançados.
Manuel Fernandes Vicente




















