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Maria da Guia Asseiceiro teve uma coluna no jornal “O Entroncamento” de seu nome “Janela sobre a cidade”, cujos textos voltamos a publicar.

“Rivalidades – Um olhar sobre as nossas Festas”

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Recorri ao dicionário para verificar se o tema correspondia exatamente ao que pretendia dizer: As festas de verão.

Romeu e Julieta sofreram e morreram de amores por uma questão de rivalidades. O Livro dos livros também nos conta que Caím tinha um rival, o seu irmão Abel. Um pretendia as vantagens do outro.

O épico e lírico Camões não teve rivais… Apenas imitadores. Então, ficou-me a dúvida:

Será que as nossas festas tiveram alguma vez a ver com estas rivalidades? Por amor à verdade, tenho de dizer: Não…

Nas décadas de 50-60 o Entroncamento vivia em pleno a sua “adolescência”, irrequieto, alegre dinâmico. Tudo servia para o tornar notado. Nesse aspeto tiveram um papel predominante os grupos recreativos: O “Ferroviário” com o futebol e as suas verbenas ao fim-de-semana. Atiravam para o ar, alto e em bom som discos e reclames em voga na época.

O Parafuso” e os inesquecíveis teatros; os “11 unidos” e os seus bailes; o “União” e a patinagem… e toda a força criativa de cada uma das diferentes Direções. Contudo, era nas festas de verão que o Entroncamento procurava rivalizar (esta é a palavra certa) igualando ou de preferência, excedendo tudo o que se fazia nos concelhos vizinhos e a tarefa não era fácil! A Barquinha, Tancos e Chamusca tinham a experiência de muitos anos das suas festas tradicionais. Beneficiavam do envolvimento paisagístico, tinham a seus pés o magnífico Rio Tejo, na altura largo e profundo. Tal como um espelho, refletia águas límpidas.

O Entroncamento tinha a seu favor os transportes, a sua “juventude” e um punhado de gente que tinha a “magia” de saber cativar a população a aderir a todas as iniciativas. Estes “Mágicos” não conheciam a modéstia e criaram as Festas dos Santos Populares em Junho, a favor do Hospital, com o apoio da Câmara e as Festas de Setembro, que o povo chamava “Festas do Padre”, com o apoio da Igreja.

Hoje esse esforço está visivelmente materializado na zona norte com a nova Igreja de Nª Sª de Fátima.

Não havia rivalidades entre estes dois festejos populares, as pessoas que ajudavam nas festas de Junho eram as mesmas que ajudavam em Setembro, por isso, elas foram grandes!

É curioso! Cada comissão de Festas procurava competir, exceder em valores artísticos a festa anterior. Assim, passaram pelo Entroncamento os artistas mais famosos das décadas atrás referidas. Não me atrevo a enumerá-los mas não resisto à tentação de descrever, ainda que resumidamente, o que foi a Festa de Setembro com a grande Amália no meio de nós. Ela estava no auge de popularidade, tanto no país como no estrangeiro. Era uma época em que os artistas traziam consigo uma carga emocional e Amália era um ídolo!

Cantou, e fez cantar, durante duas horas e trinta minutos como só ela o sabia fazer.

Vi a alegria duma multidão que o seu nome arrastou ao Entroncamento; vi as lágrimas de emoção que a sua voz de fadista inspirava.

Poderia, se quisesse, dizer mais e melhor… Não é esse o objetivo. Não é por saudosismo que me refiro ao passado, mas aproveitando os valores de unidade, de cooperação e de entusiasmo se quebrem rivalidades e se procure rivalizar, igualar ou exceder em competência e desenvolvimento uma terra que já não é adolescente.

Maria da Guia Asseiceiro

(1994)

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