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Maria da Guia Asseiceiro teve uma coluna no jornal “O Entroncamento” de seu nome “Janela sobre a cidade”, cujos textos voltamos a publicar.

“Idosos – Os mal amados da minha Cidade”

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              Há comentários que nos fazem refletir… Apesar de polémico, vou reproduzi-lo:

              – “Este país está a ser sustentado pelas míseras reformas de pensionistas e reformados”. Isto dizia um “Velhote” carregado com dois sacos ao subir com dificuldade os degraus do comboio que se dirigia para Lisboa. Num dos sacos espreitavam verdes e ainda viçosas couves, no outro pela forma e pelo peso deveriam estar as batatas!…

              Não querendo utilizar a frase como ” cavalo de batalha”, mas naquela hora lembrei-me dos idosos dos nossos dois lares de Terceira Idade, então existentes.

              Quem alguma vez se dispôs a fazer uma visita à população idosa, insisto população idosa (e não ao edifício, às instalações ou ao seu funcionamento) encontrava-se perante uma forte experiência Humana difícil de esquecer.

              Com um modo de viver específico, o idoso é extremamente sensível. Diminuído fisicamente, tinha razões para lamentar o presente.

              – Nunca pensei chegar a isto, ser velho é muito triste!… Reflexão duma senhora de 82 anos.

              A solidão individual, o afastamento e o desinteresse familiar, torna-o ávido de carinho.

              – Mirro com desgosto profundo. Tenho duas filhas, estou aqui há tantos anos e elas nunca me vieram visitar. Nem uma cartinha! Nunca, nunca… Nem pelo Natal, veja lá!…

              Há muito sofrimento físico, mas o sofrimento moral é ainda maior. Vivem num misto de incerteza e de angústia.

              – Assusta-me a ideia de um dia ficar preso à cama… Morrer é o menos, sofrer assim, tenho medo, dizia um utente do Lar.

              Lágrimas teimosas que se queriam esconder, escorrem pelo rosto duro daquele homem.

              Uma responsável pelo bom funcionamento do Lar, fez esta afirmação:

              – Os” Velhotes” aqui não precisam de nada! O Lar dá-lhes tudo que eles necessitam, disse convicta.

              De facto, o Lar tem tudo! Salas de visitas e de repouso; oficina e sala de trabalho; horta e capoeiras, tem sala de ginástica, uma capela, cadeirões e até televisão a cores. Dir-se-ia que tudo está perfeito, mas o Homem é um ser complexo e o idoso com razões acrescidas não foge à regra.

              Quando alguém deixa a sua casa, os seus hábitos de muitos anos, a alegria dos filhos e dos netos e entra num Lar de Terceira Idade, para completar aí os anos que lhe restam de vida, parecer-lhe-á que regressa às figuras da História da Bela Adormecida. O idoso vai conviver, não com quem o anime, mas com pessoas com problemas muito semelhantes aos seus.

              – Fiquei admirada quando aqui cheguei, à minha volta só vi velhos!… Tudo tão triste…

              Este foi o comentário inocente duma recém-chegada ao Lar.

              É curioso! “O Lar dá -lhes tudo quanto eles necessitam”… Será?

              Retidos numa cadeira de rodas ou sentados, ainda que em esplêndidas cadeiras, de muita coisa hão-de sentir necessidade. Cada idoso, condicionado pelas suas limitações e pelo seu temperamento natural, aceita ou rejeita esta fase etária da sua vida. É um tempo de transformação tão difícil como foi na adolescência. Nenhum Lar por mais bem equipado que esteja tem capacidade para dar o estímulo, o carinho e a disponibilidade que só os respectivos familiares com a sua componente afectiva podem dar. Ninguém neste aspecto os pode substituir. Cabe à família primeiro e à comunidade local depois, ajudar o idoso a fazer a sua adaptação integral ao meio em que de uma hora para a outra se vê envolvido.

              Não está na nossa mão fazer parar a marcha do tempo, tal como à radiosa Primavera sucede o Verão e logo após o Outono, agreste de folhas caídas, assim é a vida de todo o ser humano.

O Idoso, já foi rapazinho
Travesso e adolescente!
Agora já é velhinho,
Mas igual a toda gente.

              Relembrando o comentário que deu origem a este texto, tenho que dizer: Muito mal irá a sociedade contemporânea, se só se olhar o idoso, como fonte de receita ou fonte de despesa.

              A sabedoria e a experiência acumuladas pelos anos de vida, têm um valor incontável que deve servir aos mais novos como pontos de referência. Ai de nós, quando estes pontos de referência acabarem!…

Maria da Guia Asseiceiro

(1995)

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