Maria da Guia Asseiceiro teve uma coluna no jornal “O Entroncamento” de seu nome “Janela sobre a cidade”, cujos textos voltamos a publicar.
“Homens e Máquinas”
A passagem de nível estava a escassos metros da minha casa. Em frente, um muro não muito alto; depois dele um entroncamento de linhas largo e longo. Para lá do muro passavam as máquinas, do lado de cá passavam os homens. A rua era a Latino Coelho.
No princípio, toda a minha atenção e deslumbramento se virava para as máquinas grandes… pretas com tiras de metal reluzente. Rodas de ferro puxadas pelas articulações das bielas.
Na cabine pequena, desprotegida do vento e da chuva, ia o maquinista, na maior parte das vezes, debruçado para fora. Na altura, não sabia porquê!
De vez em quando, depois de acionado o ferro pendente do teto, um som estridente e diversificado ecoava longe… muito longe!
Atrelado à máquina seguia o tender cheio de carvão; em cima dele, o fogueiro com uma enorme pá ia deitando o combustível na fornalha ardente.
As fagulhas caíam pretas na roupa branca estendida no arame do quintal.
– Já está! Olhem pra isto!…- dizia a minha mãe. Com paciência de santo, apanhava a mais suja. De madrugada, de verão ou de inverno, lá ia com a tripeça debaixo do braço, alguidar à cabeça para a ribeira da Ponte da Pedra. Não havia água canalizada.
As possantes máquinas a vapor indiferentes a tudo isto, continuavam no vaivém das manobras para depois em segurança cumprirem a sua marcha. Partiam lentamente para de seguida, mais perto e mais rápido, deixarem por muito tempo a martelar nos meus ouvidos o som seco do rodado sobre os carris: “pouca terra, pouca terra, pouca terra”…
Se de início a curiosidade estava nas máquinas, com o tempo centrou-se nas pessoas que punham em movimento tudo o que se passava na minha frente. A toda a hora se cruzavam naquela rua discutindo, horários e serviços, homens vestidos de ganga azul (calça e casaco) e boina ou boné preto na cabeça.
Maquinistas uns, fogueiros outros. Os guarda-freios, os fatores e revisores. Todos tinham o seu trabalho nos comboios que eu tanto admirava.
O chefe da estação e os seus homens; o pessoal da via e a sua enorme responsabilidade. Os escritórios e as oficinas… Não era fácil a vida destes homens! Era um fervilhar de vida! Símbolos, sinais… Instrumentos de trabalho: Lanternas de quatro luzes, as panelas a vapor, o característico e indispensável baú (companheiro fiel dos homens do movimento, da via e das oficinas).
Julgo poder afirmar que o Entroncamento não seria cidade se a situação que acabo de descrever (e não há nela exagero! Se peco, é por defeito e nunca por excesso) não tivesse existido.
Uma nova Era começou com a eletrificação da via. Os avanços da ciência e da técnica foram minando as estruturas arcaicas: com uma explosão, destruiu-se o bem concebido depósito de máquinas, que uma a uma foram dando lugar à Diesel e às Elétricas.
Em nome do progresso cortam-se linhas férreas no interior do país; para rentabilizar a empresa acena-se com o fantasma do desemprego e cria-se o terror psicológico.
No Entroncamento colocam-se as “velhas máquinas” em pedestais, já não para simbolizar a vitalidade e a força dos Caminhos-de-Ferro, mas em solidariedade com os homens que generosa e abnegadamente as serviram, dizerem a quem passa: ‘Estamos na reforma’.
O desenvolvimento tecnológico é uma manifestação impressionante da capacidade humana, há que saber utilizá-lo.
Prometo voltar ao assunto…
Maria da Guia Asseiceiro
(1994)

















