Maria da Guia Asseiceiro teve uma coluna no jornal “O Entroncamento” de seu nome “Janela sobre a cidade”, cujos textos voltamos a publicar.
As cidades, como as pessoas, sofrem transformações, acompanham os ritmos e as modas.
Ir vender os produtos da terra ao mercado com um burrinho e umas cangalhas era normal nos anos 20 / 30 / 40. Depois foram substituídos pela eficiência da carroça e da galera.
Aos poucos foram entrando na circulação os taxistas que de noite e de dia esperavam os comboios e os eventuais clientes. Ter automóvel para uso privado era um luxo e uma característica dos grandes industriais. Timidamente, a compra de um carrito para uso particular era uma notícia de sensação. As bicicletas excediam em número todo o movimento rodoviário. Pavonear-se em cima de uma bicicleta com motor era um desporto com requinte!…
Quem se lembra do estroina e boémio Courinha? Exibia com orgulho e vaidade a sua “concioolo” e dava com ela a volta a Portugal em bicicleta (com motor). Ele foi o percursor de todos os que gastam gasolina por prazer. A pouco e pouco as ruas começaram a ficar atravancadas com automóveis e a circulação atingiu a “grandeza” de um hiper-movimento.
Dos pequenos espaços de comércio como lojas de bairro e atendimento personalizado, e dos artesãos, predominavam os alfaiates, os barbeiros e os sapateiros.
Para que a história tradicional não morra, mantém-se de pé firme (sabe-se lá até quando) a residência dos donos da Casa Comercial de Solas e Cabedais, que outrora fora do Sr. Santos. Homem “tripeiro” de gema, trouxe do Porto dinheiro, profissionalismo e formou a maior sapataria da vila. Dava emprego a duas dúzias de oficiais de manufatura de cabedais. Era um fervilhar de gente e de vozes, às quais se juntava o bater seco e cadenciado na sola, numa casa cheia de homens com grandes aventais de pele na sua frente e trabalhavam!… Cortavam o cabedal com facas só afiadas na ponta e deforma singular. Pregavam com pregos muito pequeninos, dobravam e enfiavam nas formas de madeira.
Aquela casa tinha um cheiro muito característico: sola e cola; prega, bate e dobra. Tudo muito rápido, tudo como se tivessem de ir apanhar o comboio…
-Hein’pá! Lá vem o patrão!… Todos com mais pressa ainda se mexiam, se concentravam e ouviam, trabalhando, os ralhos na linguagem “tripeira” do Sr. Santos. Ele poderia simbolizar o princípio dos grandes espaços com a Racionalização do Trabalho!
Acompanhando os ritmos e as modas:
Faço um único voto para 1995 e seguintes:
Entroncamento: Hiper-Cidade do Bom-Senso!
Maria da Guia Asseiceiro
(1995)




















