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Maria da Guia Asseiceiro teve uma coluna no jornal “O Entroncamento” de seu nome “Janela sobre a cidade”, cujos textos voltamos a publicar.

“(Des)concerto laboral”

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O Desemprego é hoje um dos maiores flagelos da última década do Século. Nem os Centros de Emprego com toda a sua boa vontade, nem as empresas com

toda a sua ânsia de desenvolvimento conseguem travar esta onda de inatividade que se espalha por toda a Europa.

No Entroncamento, a CP, com o pretexto da rentabilidade da Empresa, utilizou estratégias, dividiu e cedeu sectores de trabalho, colocou operários qualificados com dezenas de anos de casa na situação de contratados a prazo!…

Criou a instabilidade de emprego e sujeitou, por força das circunstâncias, uma grande parte dos seus empregados à situação de pré-reforma. Tudo isto dentro da mais perfeita legalidade… Se no aspeto jurídico a situação é correta, o mesmo não sucede no aspeto humano. Senão vejamos:

São pessoas cuja faixa etária se situa entre 55 a 60 anos; não são tão velhos para que a inatividade se aceite facilmente, nem tão novos que as entidades empregadoras os desejem. Porque possuíam um emprego supostamente estável assumiram compromissos: compraram carro, desejaram para os filhos um curso superior, possuíam uma qualidade de vida e de atividade que se cortou como do dia para a noite. Não é difícil calcular as marcas psicológicas que uma situação destas acarreta. Se o aspeto financeiro se torna difícil, o ficar sem perspetiva de vida na meia idade atinge uma gravidade ainda maior.

Fala-se de “(des)concerto laboral”, discutem-se aspetos salariais e pontos percentuais, mas julgo poder afirmar, sem grande margem de erro, que quem se reúne para discutir o assunto está empregado e bem!

As reformas dos idosos são do conhecimento público, a situação de pré-reforma é a que acabo de descrever e a situação dos jovens são contratos a prazo certo. Ao fim do 3° contrato são despedidos para que não entrem no quadro das empresas. Depois com um bocadinho de sorte e uma “cunha” voltam a encontrar um novo emprego nas mesmas condições do primeiro, mas quase sempre com uma atividade bem diferente. Há que agarrá-lo!

Em suma: Desta forma um jovem com formação média quando atingir os 50 anos de idade terá no seu curriculum uma dúzia de empregos eventualmente diferentes, sem ter tido oportunidade de se especializar em nenhum deles. Isto passa-se em todos os sectores de atividade: nas empresas particulares, nas escolas e nas autarquias. Onde pensam as pessoas encontrar operários especializados para os seus quadros? Caiem da Lua?

Como pode o funcionalismo público ser nestas condições eficiente?

Portugal, um país que se quer Europeu, que não respeita a geração que lhe deu vida, que deixa inativos os mais experientes e não promove a segurança do emprego dos jovens, dificilmente sairá do buraco cada vez maior que hora a hora está a cavar.

 

Maria da Guia Asseiceiro

(1994)

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