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Maria da Guia Asseiceiro teve uma coluna no jornal “O Entroncamento” de seu nome “Janela sobre a cidade”, cujos textos voltamos a publicar.

“CON…TRADIÇÕES”

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O comboio inter-regional Lisboa-Porto fez a sua paragem habitual na estação de Santarém. Entraram no compartimento onde eu seguia quatro jovens estudantes do 12º ano do liceu daquela cidade.

Exuberantes nas palavras, desinibidos nos gestos. Falaram. Contaram aventuras e desventuras dos colegas, pais e professores. Eles falavam, eu divagava; eles riam, eu ajuizava. Eles disseram:

– O Entroncamento é uma terra cinzenta e sem história.

Fiquei perplexa. Eles continuaram:

– A vida noturna é boa!

Eu arrisquei:

– Talvez por isso vocês a achem cinzenta!…Poderia até ser negra…

Obtive como resposta uma gargalhada.

Cidade dormitório para uns, terra puramente comercial para outros… Da sua terra os mais novos apenas conhecem as Escolas, as Discotecas e os Bares… muitos bares. A zona dos bares, tornou-se famosa.

Tradições, história, raízes culturais… não tem. Não sabem. Para eles o Entroncamento pode até ser um “fenómeno de geração espontânea”!

Segundo La Fontaine, até a formiguinha e a alegre cigarra têm história. A minha cidade não é exceção!

História recente, tradições que ainda se podem recolher nas “Fontes” e recebê-las claras e límpidas como água cristalina.

Em frente da antiga Sociedade Cooperativa de Crédito e Consumo dos Ferroviários e Aderentes, hoje Café S.C.A.F, existia um amplo espaço rural no qual se realizou pela primeira vez em 1928/29 o Mercado Mensal de gado. Foi este o embrião daquela que, anos mais tarde, viria a ser a famosa Feira Anual de Abril. Movimentava as populações vizinhas, servia os seus habitantes e dignificava a localidade.

A Feira de Abril foi um Pólo de atração a todos os níveis. Exercia, em suma, o fim para que fora criada: desenvolver o comércio e servir os cidadãos.

É esta tradição que gostaríamos de manter.

Tudo mudou, porque se teima arrastar uma caricatura daquela que foi uma das melhores e mais belas feiras da região?

Feira de Abril, sim; mas com características de modernidade e atração!

Um certame que dê novo impulso à cidade, outra dinâmica ao comércio e estimule as populações.

Só desta forma daremos rosto à História e dignidade à tradição.

Maria da Guia Asseiceiro

(1994)

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