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Maria da Guia Asseiceiro teve uma coluna no jornal “O Entroncamento” de seu nome “Janela sobre a cidade”, cujos textos voltamos a publicar.

“Competição! As grandes cidades do séc. XXI”

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Dantes, os regatos, no seu murmúrio alegre e fresco, iam engrossando os ribeiros, estes corriam para os rios e os rios desaguavam no mar. Era a ordem natural, ecologicamente falando.

O homem, rei da criação e senhor das coisas, construiu albufeiras, desviou o curso das águas, abateu ou incendiou as matas e florestas para construir as suas cidades com prédios de muitos andares… Quanto mais altos melhor! O astro rei que vá aquecer e iluminar para outro lado. Ruas e caminhos não parecem merecer grande atenção… Estradas, muitas estradas… IP1, IP2, IP3… Aqui junto de nós a desejada IP6.

Para travar os excessos de velocidade junto das escolas sinaliza-se tudo muito bem; semáforos, passadeiras, e há cerca de dois anos os serviços camarários decidiram, para proteger os jovens estudantes, construir três brutais lombas que mais se pareciam com “montanhas” de alcatrão.

Perante tal exagero, os carros eram forçados a reduzir drasticamente a velocidade e nesse aspecto a população estudantil estava protegida. Só que, após a inauguração da IP6 transformaram-se os critérios de protecção: tiraram na totalidade as tão badaladas “bandas sonoras”, os carros deslocam-se livremente, agora, em alta velocidade numa artéria de tão grande movimento.

A minha avó nesta dupla decisão teria comentado: “Tudo ou Nada, mulher do diabo”.

O Entroncamento tem tudo como as grandes cidades, muito transito, muita gente, muito lixo e também falta de segurança de pessoas e bens. A pouco e pouco vão-se perdendo as características que a fizeram cidade: O movimento humano ferroviário, o bairrismo interpessoal e o empenho camarário.

Segundo um especialista em Geografia Económica, Vila Nova da Barquinha, Entroncamento, Torres Novas e Alcanena estão destinadas a ser uma grande cidade no século XXI. Se assim for, quem engole quem?

O Presidente da Câmara da Barquinha já tem os seus projectos de desenvolvimento: pretende reunir o triângulo populacional da Barquinha, Moita e Atalaia… E aí fixar a população flutuante. Conjugar os benefícios do IP6 com o Rio Tejo e o grande polígono de Tancos. Quer recuperar os sectores tradicionais da cultura e apoiar os desportos a todos os níveis.

Há quarenta anos o Entroncamento conseguiu, graças a um dinamismo colectivo invulgar, conquistar a sua independência em relação à Câmara da V. N. da Barquinha e lançar-se no desenvolvimento que todos nós conhecemos. Radiante e acomodada com o que foi feito esta cidade toma a posição do “Buda” a contemplar o umbigo!

A competição neste campo é salutar e desejável, porque assim podemos, na prática, aplicar o provérbio:

“Quem tem unhas é que toca viola”

Maria da Guia Asseiceiro

(1995)

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