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Maria da Guia Asseiceiro teve uma coluna no jornal “O Entroncamento” de seu nome “Janela sobre a cidade”, cujos textos voltamos a publicar.

“Caça… Um desporto com tradições”

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Com a abertura da caça todas as segundas-feiras, de manhã muito cedo lá iam…

Vestia o camuflado de caça, calçava as botas grossas, punha a espingarda de dois canos ao ombro e, em redor da cinta, a cartucheira.

O “Kiss” de orelhas arrebitadas, rabo a dar a dar, gania em redor do dono. Era um bonito cão cor de mel!

O caçador tentava acalmar a ansiedade do animal, mas a sua não era menor. Tossia, assoava-se a um enorme lenço vermelho, ajeitava a arma ao corpo, espreitava a rua, recolhia-se e pouco depois espreitava de novo… O cão corria de um lado para o outro e agitava a cauda sem cessar. Apoiado nas patas dianteiras estancava de repente, apurava o faro e o ouvido. Ladrava depois com a alegria de quem chama.

Uma carrinha tão cinzenta como a madrugada, recolhia o cão e o caçador… Para ambos a liberdade e a aventura. Em tempo de caça este ritual era, semanalmente, repetido.

De noite, quando o Sol já dormia, eis que regressavam com a cartucheira vazia, e, pendente desta, coelhos bravos, lebres, perdizes… com que a pródiga natureza os havia bafejado. Traziam ainda muitas histórias e cansaços que mais se assemelhavam a lendas e descansos. Passaram mais de 50 anos sobre esta descrição, os caçadores já não são os mesmos, mas as características mantêm-se.

Os incêndios e o desenvolvimento urbanístico e tecnológico têm contribuído para a desertificação do solo e consequente extinção das espécies. As muitas reservas de caça limitam o prazer de caçar.

O contacto com a vida ao ar livre é saudável e a caça é uma atividade que se exerce desde a pré-história.

Os caçadores dignos desse nome regem-se por éticas desportivas que deveriam cativar a juventude. A pouca divulgação deste desporto milenário e as limitações a ele inerentes, não o têm favorecido!

O Entroncamento teve muitos e bons caçadores. Homens que se privavam muitas vezes do essencial durante o ano, para poderem em tempo de caça treinar os cães, puxar o gatilho, largar uns chumbos e colocar em redor da cinta o resultado da caça.

Existem por aqui múltiplas associações que não querem deixar os créditos da sua atividade desportiva por mãos alheias: angariam sócios, fazem convívios, dão que falar…

Porque será que não se houve falar da caça e dos caçadores?

 

Maria da Guia Asseiceiro

(1994)

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