Maria da Guia Asseiceiro teve uma coluna no jornal “O Entroncamento” de seu nome “Janela sobre a cidade”, cujos textos voltamos a publicar.
“As grandes esquecidas na toponímia local”
Antes de abordar este assunto refleti duas vezes, uma para não provocar a “guerra dos sexos”, outra para não estar aqui a “puxar a brasa à minha sardinha”. Não é tema de utilidade pública nem é política de “meia-tigela”. É apenas uma questão de repor justiça numa situação que parece injusta.
Todas as ruas, pracetas e praças, jardins e locais públicos têm nomes de homens que pela sua forma de ser e de estar se tornaram notados, contribuindo de algum modo para o desenvolvimento vertiginoso desta terra. É uma forma singela de gratidão que a história vai guardando. Esta homenagem é, e muito bem, indiferenciadamente feita a Presidentes de Câmara, a Farmacêuticos, a Industriais, a Doutores, a Padres, a Professores, a filhos naturais e a filhos adotivos do Entroncamento.
Tudo estaria bem se não existisse uma situação curiosa… Parece que ninguém conseguiu encontrar nenhuma mulher que pelas mesmas razões contribuísse para o desenvolvimento local!?
Vou procurar avivar a memória dos distraídos:
No Comércio, a partir de 1929 tivemos a exercer a profissão de Caixa, na Sociedade Cooperativa dos Ferroviários e Aderentes, durante cerca de 40 anos, de atividade exemplar, a D. Estrela, felizmente viva e com uma lucidez de espírito de fazer inveja a muita gente nova. (Hoje, já não existe.)
Na Secretaria da Câmara, a D. Maria Clementina Lobo Novais, pelo seu porte digno e profissional de fino trato, deu uma imagem perfeita do funcionalismo público. Do mesmo modo, na Estação dos Correios encontrávamos solicita e atenta a D. Maria Luísa sempre disponível para informar. Possuía a eficiência e a compostura que o seu cargo de Chefe exigia.
Na vida ativa estava a Parteira-Enfermeira D. Maria “Serrana”, nome que o povo lhe deu. Foi a mulher que mais contribuiu para que muitos de nós viéssemos ao mundo com saúde, graças à sua experiência e técnica de partos, à qual juntou o seu dom natural. Num tempo em que a mortalidade infantil era um flagelo, esta Mulher ficou famosa, pela sua competência.
Nos Bordados Tradicionais e Pintura, com “mãos de ouro” e particularmente pelo sentido estético da cor, esteve durante ano após ano ensinando, como só ela sabia fazer, muitas gerações de jovens, desde os 10 anos até à idade casadoira. A D. Emília Santos tinha a arte nos seus dedos, a cor no seu olhar e um carisma específico para o ensino. Aproveitando as facilidades do transporte vinham raparigas de longe, diariamente, receber os ensinamentos de tão célebre artista. Decerto que haveria muitas mais mulheres cujo nome ficaria bem em qualquer uma das nossas ruas, mas seria fastidioso enumerá-las. Não quero, porém, deixar de referir as muitas mulheres anónimas que a qualquer hora do dia ou da noite, de baú na mão, iam “levar o comer à máquina”, quer isto dizer, levar aos respetivos maridos mantimentos para dois ou três dias de viagem.
De facto, existe uma exceção à regra: A Rua Condessa de Murça, que por sinal nunca lá viveu e duvido que algum dia a tenha pisado. Salvo, porém, o respeito que á Senhora Condessa e à sua ilustre família lhe é devido.
Tantas professoras que com dedicação quase materna, ensinaram as primeiras letras a muitos dos que hoje as ignoram.
Não é feminismo, é repor a justiça e dar voz a um direito consignado na lei.
Maria da Guia Asseiceiro
(1994)




















