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Em 31 de dezembro de 1863, há precisamente 162 anos era inaugurado o Chafariz da Barquinha.

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Em meados do Séc. XIX a Câmara Municipal sentiu a necessidade de construir um fontanário junto de uma abundante nascente perto da Praça de Touros, lado norte da vila, nascente de água já referenciada nas posturas municipais de 1837.

A obra orçamentada em 815 mil réis, veio à luz do mundo tendo ficado para a história com o topónimo “Fonte da Moita” e uma pedra epigráfica de 1857, colocada na fachada da fonte, com duas bicas, dá-lhe um tempo em que as mãos dos nossos antecedentes a cobriram com transpiração, seixo, argamassa e cal.

Sendo a água abundante importava levá-la para o centro da vila face à ausência de fontes de água no seu núcleo central. Assim, em 1863, com os fundamentos insertos na ata da sessão do dia 9 de Agosto de 1863, sendo presidente António Gonçalves Rato, reconheceu a Câmara o “…agravo e utilidade que resulta aos habitantes desta Vila Nova da Barquinha da ereção de um chafariz dentro da mesma vila, alimentado pela abundante Fonte pública denominada – da Moita, distante do centro desta povoação um quilómetro, e ainda mais da ponte que fica ao nascente desse centro; cujos habitantes pela distância em que aquela fonte lhes fica recorrem aos poços dos particulares porque outras águas não tem para uso doméstico…” decidiu construir um chafariz no largo do Rebelo (cuja toponímia é proveniente do nome de família, proprietários da Quinta da Lameira), no centro da vila. Ali era o local em que se bifurcam as ruas de macadame que se comunicam às estradas que vêm de Tomar (via Atalaia ou estrada de neveiros) e Torres Novas (via Baginhas).

Verificamos que naquele tempo, compulsando as atas e as posturas municipais, não existiam fontes ou chafarizes para abastecer as habitações e que estas tinham péssimas condições higiénicas e até as calçadas das ruas eram muitas vezes estrumeiras onde se despejavam todo o tipo de imundices.

Em tempos de instabilidade política e de parcos recursos do cofre real coube à câmara, do seu próprio orçamento anual, fazer a requalificação da Fonte da Moita e realizar a obra de construção do Chafariz, obras de grande envergadura ou “de regime” para a época.

Para tal decidiu recorrer a vários expedientes, entre eles, a aceitação de donativos privados e o aproveitamento de outros materiais pétreos de algumas edificações, presentes no concelho.

Recordo que este último expediente já era recorrente em séculos anteriores pois sabemos da reutilização das pedras das muralhas do castelo do Zêzere (Paio de Pele) e da torre Templária da Atalaia, para a edificação de fogos nas localidades confinantes a estes monumentos templários.

Foto de 1862: Pont sur le Tage. Fonte: Bibliothèque nationale de France

Do pelourinho de Tancos, tendo por base o relato de Garcez Teixeira3 podemos presumir que vieram materiais para o Chafariz, alguma peça do fuste que poderão ser as bases (?) das bicas. Ir mais além numa análise visual é certamente ir por caminhos ínvios pois, como sabemos, não existe nenhum inventário dos materiais utilizados na obra do arquiteto Haiseler que possam confirmar esta tese.

Sabemos que o Chafariz foi inaugurado com pompa e circunstância a 31 de dezembro de 1863, data em que a água chegou ao coração da Barquinha e que tal facto se deveu ao denodo da população e de quem, à data, governava a Câmara.

A bica norte ficou a lançar 6 canadas (12 litros) de água em 45 segundos e a bica sul 6 canadas (12 litros) em 40 segundos.

Um outro Chafariz, o do Mercado, chegaria ao Entroncamento (em frente ao CTT) em 15 de novembro de 1931. Deste já não resta, ao que sei, algum vestígio.

Os chafarizes e as fontes chegaram antes do conforto da rede pública e foram palco de muitos desacatos. A posse da fonte da Moita, por exemplo, provocou alguns. Sabemos que pelo silêncio da noite, ora os fregueses da Moita, ora os da Barquinha mudavam os marcos que assinalavam a estrema entre as duas freguesias para comprovarem a quem a fonte pertencia! Tal era a peso da fonte para a vida social e local!

Sabemos pela Postura de 1837 que “ … atendendo às desordens, rixas, e absolutas, que por várias vezes se tem suscitado relativamente às aguas da… Fonte da Moita, e tendo em atenção à antiga postura feita em Câmara de 28 de maio de 1808 …continuará a água da Fonte da Moita a ser distribuída na conformidade da sobredita Postura, da maneira seguinte: Terão princípio as regras em 15 de abril de cada ano, acabando em 15 de outubro relativo, ou aquelas pessoas e prédios já estabelecidos por costume, sendo

Aproveitamento de materiais. Visíveis as marcas do padrão da ponte de Tancos e presunção de parte do fuste do pelourinho

levada pelas mesmas veredas do costume, sem oposição alguma, com a multa de seis mil réis, contra toda a pessoa, que contravier, aplicada para as despesas deste concelho, além do prejuízo que causar a qualquer particular, ficando no resto do tempo, pertencendo a mesma água para trabalhar o engenho d’azeite, chamado o Lagarito.”4

No chafariz por vezes os conflitos vinham das filas para abastecimento e da discórdia de utilização com o gado bovino que recorria aos bebedouros.

Lembro que em 1866 os produtos que atracavam e embarcavam no cais da Barquinha, segundo uma reconstituição feita sobre as cartas topográficas de 1866 e depois de 1871, vinham em carros de tração animal percorrendo caminhos deploráveis pois os poderes públicos não tinham capacidade financeira para a sua reparação e manutenção e só em 1868 está em construção a estrada distrital entre a Barquinha, Entroncamento e Torres Novas.

Por exemplo, em 1879, a revista dos engenheiros portugueses, num artigo referente às estradas reais e distritais, faz referência à estrada distrital n.º 75, da Barquinha até à Ponte Asseca, e à estação do Entroncamento e à estrada distrital n.º 51, da Barquinha a Coimbra.

A importância do uso da água era tão relevante em termos sociais que a Postura de 1879 vem regulamentar a matéria nos art.ºs 4.º a 8.º. Desta regulamentação destaco: “todo aquele que nas fontes e tanques dos chafarizes e outros reservatórios ou depósitos do uso publico, em qualquer das freguesias d’este Concelho, em que se costuma tirar água para uso do povo, ou onde costumam beber os animais, e bem assim nos seus respetivos nascentes, lançar pedras e quaisquer outros objetos, ou fizer ensaboados e lavagem de roupas, tripas, hortaliças, e outros objetos, ou praticar qualquer ação que torne a água impura ou enxovalhada, será punido com a multa de 1$000 a 4$000 réis. Todo aquele que nas fontes e chafarizes e outros reservatórios do uso publico meter cântaros, caneca, bilha ou qualquer outra vasilha em ocasião e lugar que lhe não pertença pela ordem dos concorrentes ali chegados, sem licença dos mesmos, será punido com a multa de 500 réis. É igualmente proibida sob a pena cominada no artigo antecedente, a conservação de qualquer pessoa na base do chafariz d’esta Vila, por mais tempo do que aquele que for necessário para encher qualquer vasilha, beber água, ou dá-la aos animais.”

A água canalizada em casas particulares será regalo só alcançável nos princípios do Séc. XX e, como de uso nestas coisas, só alcançável aos ricos do concelho tendo o povo que continuar a recorrer aos poços particulares, à fonte a nascente da vila, à fonte da Moita ou ao Chafariz do Largo do Rebelo, cumprindo, escrupulosamente, as devidas regras administrativas sob pena de sanção.

Fernando Freire, Ex-Presidente da CMVN Barquinha, advogado e historiador

BIBLIOGRAFIA

1 ROLDÃO, António Luís, Crónicas Históricas, Vila Nova da Barquinha, Câmara Municipal, 2014

2 Gazeta de Lisboa, n.º 78, de 04/04/1825

3 Revista Serões, n.º 41, 1908. Artigo de Garcez Teixeira sobre o título “Escola Prática de Engenharia”.

4 Postura de 1837 da Câmara da Barquinha

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