Há pessoas que não precisam de palco para marcar um território. O Sr. Roldão, que nos deixou na semana passada, era uma delas.
Não era homem de aparecer — era homem de estar. Estava na pastelaria do Alto da Fonte, estava nos caminhos da Barquinha, estava nos livros que escrevia e que me oferecia com a generosidade de quem sabe que a cultura é uma forma de presença. Estava sempre lá, como se fizesse parte da própria geografia.
Um dia, nessa mesma pastelaria em Vila Nova da Barquinha, era eu diretor do Jornal Novo Almourol, disse-lhe que ia subir o percurso desde o sopé até ao monte, para ver com os meus olhos o que a suinicultura tinha deixado espalhado. O ar rarefeito, as roupas a secar ficavam imundas.
Um cheiro nauseabundo havia tomado a vila refém. Ele, com mais de setenta anos, não hesitou. Perguntou apenas: “Posso ir contigo?”
E fomos. Passo a passo, até a terra deixar de ser terra e passar a ser lama. Até a lama deixar de ser lama e passar a ser merda de porco. Até percebermos, os dois, que aquilo não era apenas um problema ambiental — era um problema de fronteiras. De limites. De quem ocupa o que não devia ocupar.
A suinicultura, no alto da vila, tinha lagoas de tratamento. Tinha regras. Tinha obrigações. Mas deixou de ter uma coisa essencial: cuidado. E quando alguém deixa de cuidar, o território sofre. E quando o território sofre, as pessoas sofrem com ele.
Eu investiguei porque era jornalista. Criei uma petição porque era cidadão. Mas caminhei com o Sr. Roldão porque ele era o tipo de homem que não deixava ninguém ir sozinho quando a terra precisava de testemunhas.
Ele conhecia os montes da Barquinha como quem conhece a palma da mão. Sabia que por baixo deles correm ribeiras e lençóis de água que sustentam tudo o que somos. Sabia que quando se deixa um porco crescer sem limites, ele não fica apenas grande — ele ocupa. E quando ocupa, contamina. E quando contamina, transforma tudo à sua volta num lugar onde o ar deixa de ser ar e passa a ser aviso.
E é aqui que a metáfora se impõe, mesmo quando não a queremos.
Porque os porcos nunca são apenas porcos. Às vezes são práticas. Às vezes são discursos. Às vezes são ideias que prometem limpeza mas deixam rasto de lama por onde passam. Ideias que se espalham rápido, que se infiltram no espaço público, que tentam transformar o que é de todos num curral onde só alguns mandam.
O encerramento da suinicultura foi uma vitória do território. Mas também foi um alerta.
Porque, tal como naquela exploração, há quem ache que pode ocupar sem pedir licença, poluir sem consequência, crescer sem limites. Há quem se apresente como solução, mas traga consigo o mesmo cheiro a descuido, a agressividade, a simplificação perigosa. Há quem queira transformar a vida coletiva num terreno onde a lama é normalizada.
E é por isso que escrevo isto: não podemos deixar que os porcos poluam o nosso espaço. Nem o ar que respiramos, nem a água que corre por baixo dos montes, nem a democracia que nos sustenta.
O Sr. Roldão sabia isto sem precisar de o dizer. Sabia porque caminhava. Sabia porque via. Sabia porque, mesmo com merda até à canela, nunca deixou de acreditar que o território merecia melhor.
Hoje, quando penso nele, percebo que a sua maior lição não veio apenas dos livros que me ofereceu, mas daquela caminhada ao meu lado: há momentos em que é preciso descer ao terreno para perceber até onde a lama chegou — e até onde estamos dispostos a deixá-la subir.
Porque se não estivermos atentos, um dia acordamos e percebemos que os porcos já não estão no curral. Estão no monte. Estão no discurso. Estão no poder.
E aí, já não basta caminhar. É preciso impedir que a lama se torne paisagem.



















