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Da minha janela vejo o mundo. Na verdade vejo o Entroncamento, que passe a redundância, é parte do mundo. Tenho uma vista privilegiada. Defronte o pavilhão desportivo municipal, de esguelha os campos de ténis. À noite ouve-se o chiar dos pneus, e às vezes, cante cigano.

Não me chego ao pé dessas celebrações. Ouço-as e vejo-as da minha varanda. Sinto nisso um certo orgulho em ser humano. Em partilhar à distância esse grito primitivo, em que despontam as vozes mais rasgadas. Em que se escuta as vozes dos antepassados, a inebriar os sentidos, da cerveja que rega o chão, cujos frutos são para depois de amanhã. Às vezes há vidro que quebra, para depois se reintegrar na claridade dos olhos vivos daquela gente, guetificada.

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Sei que os vizinhos os queriam calados. Mas para mim, que sou solteiro e sem filhos, e tenho muitas vezes as paredes planas por companhia, estas ocasiões são canções de embalar aos meus ouvidos.

De tempos em que se chorava em conjunto, os remédios inúteis da sobrevivência. Certo dia, em que a noite era morna e a escuta aguçada, pus-me a tentar acompanhar o canto dos ciganos. Nesse dia desejei ser cigano.

Não um cigano mau, dos que roubam ou batem. Um cigano bom, que canta, conta histórias e viaja de terra em terra. Um cigano com uma cigana linda, e filhos ciganos bravos e corajosos, defensores dos fracos. Quem me dera atravessar a noite, livre como os ciganos. Beijar a lua, e rir-me do sol como quem nunca ha-de secar.

Mas vejo-os apenas, da minha janela, onde o medo toma conta de nós, e queremos apenas sossego. Queremos apenas dormir.

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