Cresci no Entroncamento, numa família de operários e de migrantes.
Por crescer no seio de uma família ferroviária, cedo compreendi que os ferroviários, nos anos 70 e 80, ocupavam a base da hierarquia social daquela terra.
Na estrutura social local, existiam outros grupos sociais: os comerciantes, os funcionários públicos e os militares.
Todos reconhecíamos tacitamente as fronteiras dessa diferenciação social.
Nos anos 1980, quando a sociedade portuguesa se orientou gradualmente para sonhar ser uma sociedade de consumo, também todos os entroncamentenses (adultos e adolescentes) se tornaram, por direito, consumidores no comércio local.
O Sr. Álvaro, era um desses comerciantes.
Ele próprio, tinha sido ferroviário antes de se lançar num negócio próprio.
Era um homem cordial, de extrema amabilidade e boa educação. E um homem que parecia sorrir com o coração.
Os electrodomésticos da casa dos meus pais, foram todos comprados na sua loja.
Em 2014, quando o meu pai adoeceu, pediu à minha mãe para ir lá às compras.
Dessa vez, não era de electrodomésticos que tínhamos falta. Era tempo de comprar um novo colchão (para dar mais conforto a quem estava de cama).
Nos dois anos seguintes, não voltámos à loja.
Reencontrei o Sr. Álvaro, na noite do velório do meu pai.
Por um imperativo ético, ou por empatia, o Sr. Álvaro e o filho, Telmo, foram visitar-nos, deixar-nos palavras de conforto.
Foi a última vez que conversei com o Sr. Álvaro.
Por um imperativo ético, ou por empatia, escrevo este texto em sua memória.
Ema Pires, filha de Júlio Dias Pires. Antropóloga. Universidade de Évora
12 de maio de 2020.



















