PUB

No Dia da Poesia morreu um poeta. A data não podia ser mais simbólica. António Luís Roldão nasceu a 19 de novembro de 1934, na Rua da Barca, em Vila Nova da Barquinha, e partiu a 21 de março, como quem fecha um livro na página certa. Imagino-o a sorrir com a coincidência, ele que gostava das palavras como quem gosta de um ofício secreto, de as virar ao contrário, de as experimentar na boca antes de as deixar cair no papel – em verso ou em prosa, tanto fazia, porque o mundo cabia-lhe todo na inquietação. Escrevia com acutilância sobre os temas mundanos, mas também sobre os assuntos da ordem do dia da sociedade local.

No jornalismo, fundou, nos anos 60, a “Folha Paroquial”, que depois cresceu e mudou de nome para “Novo Almourol”, e ali ficou meio século a escrever, a investigar, a recolher pedaços de tempo que os outros deixavam cair. Chegou a desempenhar o cargo de subdiretor. Era aqui que publicava o fruto da sua investigação, um trabalho único, feito sem internet, sem motores de busca, sem inteligência artificial, sem aquela facilidade de fazer copy paste. Sem carta e condução nem veículo próprio, fez quilómetros e quilómetros para pesquisar nos arquivos distritais, na Torre do Tombo, entre outros locais. Dedicou milhares e milhares de horas à leitura de documentos antigos, alguns quase que indecifráveis, em busca de informação.

PUB

Por ocasião de um trabalho académico de design do livro, em 2012, peguei num punhado de textos seus e dei forma a um livro a que chamei de “Barquinha, Crónicas Históricas”. Ilustrei-o com as minhas fotografias. Escolhi fotos antigas. Passei horas a selecionar o tipo de letra mais adequado para a capa. Passei noites e dias a dar forma às páginas. Estudei várias capas. Fotos a cores. Fotos a preto e branco. Dei voltas e voltas. Um tema que não podia ser mais motivante. Um livro que o concelho de Vila Nova da Barquinha devia a si próprio há muitos anos. Uma obra para ler, reler e guardar. Um autor cuja excelência e rigor da obra merece ser guardada no tempo, num objeto com uma estética dignificante do seu conteúdo. Lembro-me da aprovação dele, da naturalidade com que aceitou que as palavras ganhassem outro corpo. A Câmara Municipal publicou o primeiro volume em 2014, sem hesitar. Esteve à venda no Posto de Turismo de Vila Nova da Barquinha. Esgotou.

Mais tarde veio o segundo, em 2020, com a mão de outros – o traço de mestre do ilustrador Maike Bispo e o design inconfundível do Paulo Passos, também sob a chancela da autarquia. Saiu do prelo em 2020, lançado no dia do 184.º aniversário do concelho, 6 de novembro. Nestes dois volumes de crónicas em que não coube toda a sua investigação, os factos foram relatados de forma graciosa, num estilo de escrita irrepreensível.

Na poesia, publicou quatro livros de sua autoria, o último dos quais em 2022, “Ritornelo”. António Roldão era mestre no manuseio das palavras, não só na forma escrita, mas também na oralidade. No quotidiano, nos cumprimentos, nas pequenas conversas, havia sempre um cuidado, uma beleza discreta, uma cortesia que já não se ensina.

Foi músico durante 50 anos na Banda dos Bombeiros. Participou ativamente nas cerimónias religiosas da paróquia, quer como instrumentista, quer como cantor. Teve uma participação transversal na sociedade, não só no campo da cultura. O seu espírito crítico levou-o à política, em cargos diversos nas autarquias locais, no início da era democrática. Multifacetado, participou ativamente na vida associativa. Em 2009, o Município reconheceu-lhe toda esta dedicação e excelência em prol do concelho que o viu nascer, com a atribuição da Medalha Municipal de Mérito Cultural-Grau Ouro. Em 2021, a Câmara Municipal atribuiu o seu nome ao Arquivo Municipal.

Foi sem dúvida uma das personalidades mais notáveis do concelho de Vila Nova da Barquinha no último século. Pensador distinto, investigador atento e figura ímpar. O seu legado é imenso. Deixa muito à Barquinha.

Fico com as conversas, com os conselhos ditos sem pressa, com essa partilha silenciosa de quem também gosta das letras e da Barquinha.

Obrigado Sr. Roldão.

Pérsio Basso

Chefe de Equipa Multidisciplinar do Núcleo de Promoção e Desenvolvimento Gabinete de Informação e Relações Públicas
Município de Vila Nova da Barquinha

PUB