Isto é coisa rara. Escrever duas crónicas no espaço de dias. Deve ser o efeito da morte do Lobo Antunes. Se calhar despertou no meu subconsciente alguma vontade de imitação, talvez ridícula. Talvez porque gosto de escrever como quem conversa no café. Hoje vou lavrar sobre o Entroncamento, mal-amado por muitos mas que faz parte da minha história. É um pedaço de terra cosmopolita isolado, que nem um oásis, no meio do Ribatejo rural e provinciano. Quando abro este ficheiro mental vêm-me logo aquelas memórias das aulas no liceu. As faltas programadas para os campeonatos de snooker. As matinées nas discotecas Holiday e Swing. O largo dos bares, a zona mais cool da região nos anos 80. E tantas lojas. No Entroncamento havia milhentos clubes de vídeo com as últimas novidades em VHS. Recordo as saudosas viagens matinais no autocarro da Rodoviária desde a Barquinha. Era como que se invadíssemos diariamente o território inimigo. Mas afinal já fazíamos parte dele. E depois o percurso a pé do Armazém de Víveres, agora Museu Ferroviário, até à escola. Lá ia com os cadernos e os discos de vinil debaixo do braço para passar umas músicas no intervalo grande das 11h20. “Clube dos Poetas Vivos” era o nome do programa. E as tribos agora extintas nos corredores da “Aldeia dos Macacos” (cognome do pavilhão do liceu, tal era o barulho ensurdecedor à hora do intervalo) – os betinhos, os metaleiros, os skaters, os góticos.

Todos tínhamos um rótulo. Talvez vagueasse entre o primeiro e o último. Os dias terminavam na carrinha do CADE, a “Gioconda” que nos transportava para os treinos de futebol no velhinho campo municipal. Não sou do Entroncamento, mas tenho o Entroncamento dentro de mim.
Há dias, aceitei o convite de um amigo do Entroncamento, para ir ao cinema ver o “Entroncamento”.
O filme é um retrato cru da nova cidade, obra do realizador Pedro Cabeleireira, alguém que conhece o terreno. Mostra-nos um submundo desconhecido, mas provavelmente imaginado pelos habitantes da região.
De uma frescura estética muito bem conseguida, com uma fotografia de grande nível, apresenta também um som e um ambiente sonoro fantástico.
O argumento é realista e com linguagem a condizer. Laura, a personagem interpretada por Ana Vilaça com distinção, retrata a vinda de uma jovem para a cidade em busca de uma vida honesta, mas que acaba enrolada no mundo do crime. O filme aborda o tema do tráfico de droga e explora a relação entre várias etnias expondo também algumas das suas fragilidades. Uma estória que podia bem versar sobre qualquer subúrbio dos grandes centros urbanos. Sobre aqueles que também acabam por ser vítimas da sociedade. É como se o Entroncamento fosse um pedaço da metrópole largado no campo.
A linguagem visual centrada na noite acaba por me fazer revisitar mentalmente alguns locais como o mítico “largo dos bares”, agora um espaço tranquilo e silencioso, entregue aos moradores como zona residencial que é.
O comboio ilustra a facilidade de chegar ao Entroncamento, com todas as vantagens e desvantagens que isso acarreta para a cidade.
O Entroncamento mudou muito nas últimas décadas e este filme talvez possa dar algumas luzes sobre a nova realidade. Se é do Entroncamento ou tem o Entroncamento dentro de si, sem dúvida um filme a não perder. Fica a dúvida se a película é fruto de ficção exagerada ou retrato da triste realidade. Esperemos que seja a primeira.



















