Tinha voltado a encontrar o Eleutério Ferraz Pereira, num daqueles colóquios sobre o estado do ensino em Portgal e, portanto, por razões estritamente profissionais, há umas boas três boas dezenas de anos, seguramente ainda na última década do século passado, governava então o país, se não erro, o primeiro-ministro António Guterres, hoje o notável secretário-geral da ONU, a Organização das Nações Unidas. O Eleutério, então ainda bastante jovem e voluntarioso, pensava já como um filósofo, o seu raciocínio sobre a educação, a sociedade e as novas correntes pedagógicas (que então se multiplicavam como coelhos numa ilha tropical) acolhia bastante bem as nuances apresentadas por outros participantes, aceitava as críticas (mesmo as mais mordazes às suas ideias), enfim, a complexidade entrara no seu pensamento, longe de o considerar perfeito e definitivo, nada que o perturbasse demasiado. De resto já pensava assim nos nobres tempos de Coimbra, pensava já muito antes do seu tempo, mas sem vaidade, sem sobranceria, sem afetações. Voltei a encontrá-lo há poucas semanas numa reunião, o reencontro foi assaz frio, a roçar o formal, já não era o Lélito Pereira, como o conhecera, mas um personagem que só não era de ficção porque estava ali há minha frente, mas comigo a pensar que se em vez de carne e osso o seu hardware não estaria já bastante fornecido e impregnado de cabos, sensores, um processador e, naturalmente, uma placa gráfica. Pelo sim e pelo não, preferi ficar na dúvida, tanto mais que, pouco depois, as ideias pedagógicas e sociais que revelava já se tinham radicalizado a um grau muito difícil de digerir.
É claro que tenho consciência de que não foi só o velho Eleutério que mudou porque, se assim não fosse, ninguém sobreviveria ao sismo tecnológico das últimas décadas, mas, mesmo assim, a sua mudança conseguiu perturbar-me. Tornou-se uma pessoa absolutamente neutral, dotado de uma lógica rígida e sem desordem criativa, claro, rápido, indiferente e impessoal. Tudo cheio de certezas incontestáveis, tudo seco e sem ambiguidades, tudo a condizer com ele, com o seu fato de azul apagado, a camisa beje e gravata cinzenta, tudo incapaz de revelar o seu estado de espírito, se é que falar em estado de espírito, no seu caso, ainda fosse uma coisa dotada de algum sentido. Percebi naturalmente pelo que disse e sobretudo pelo que ficou por dizer que as suas últimas décadas tinham sido consagradas ao planeta abrupto das novas tecnologias [Inteligência Artificial (IA), robótica, big data, realidade virtual, computação em nuvem, etc.] e recordei o que a voz autorizada do professor e neurocientista português António Damásio disse ainda recentemente, notando que “a tecnologia moderna menospreza a capacidade de sentir”. É claro que estava ali um caso patente, e eu sei há muito que todas as comparações são um pouco odiosas, e portanto a evitar, mas não pude deixar de notar, se é que iato faz algum sentido, que se o seu caminho se aproximara das certezas irrevogáveis, os meus muito mais humildes trilhos me levaram para cada vez ser mais destituído desse tipo de convicções e sentimentos.
Esta reflexão de ocasião sobre este recente reencontro (digamos assim) pode parecer um caso no singular, mas devo advertir o meu caro leitor que não, pode parecer ser assim, mas a verdade é que está bem longe de o ser, e até, para ser mais honesto, situações como estas, têm já alguns anos e barbas, e replicam-se um pouco por diversas áreas. Gradualmente, mas com segurança garantida, esta invasão capciosa do verme tecnológico nos comportamentos e nas atitudes humanas é um pouco comparável (lá estamos nós…) à invasão das zonas costeiras pelo mar e devida ao aquecimento global…
Certa vez, um familiar meu, já com alguma idade, sentindo-se mal, dores no peito e um cansaço que o impedia de subir um simples lanço de escadas sem descansar ao meio, foi a um médico hospitalar, e no tempo em que permaneceu (de pé) na consulta nem uma única vez, segundo creio, o doutor se dignou retirar os olhos do monitor com uns gráficos e números na secretária e olhar para a pessoa que tinha à sua frente e que estava, segundo creio também, a avaliar e diagnosticar.
Noutro caso, bastante distinto, uma jovem nos seus 14 ou 15 anos à pala de tanto usar os conteúdos regurgitados pela Internet e, mais recentemente, pela IA, evoluiu para uma espécie de autismo social já incapaz de estabelecer algum diálogo, para não falar do pensamento crítico, a rondar o nível zero da respetiva escala. É claro que a aluna, que já se guia mais pala IA do que pelas opiniõe próprias, não tem culpa. Pertence a uma geração à qual deram telemóveis em vez de educação. Ao contrário do copioso acne no rosto, o léxico desta jovem é de uma pobreza confrangedora, e se é verdade que pensamos por palavras, é de lastimar que ela esteja a perder capacidades por não ter palavras com as quais possa pensar. A verdade é que, pela teimosia de seguirmos pelos caminhos mais fáceis, temos falhado, e muito, com os nossos mais jovens.
Por fim, percebi que algures, numa destas famosas sociedades em que o desenvolvimento tecnológico irrompeu e deixou para trás os limites mais decentes, já se chegaram a aplicar sentenças a pessoas com base não nos factos reais e comprováveis mas pela simples aplicação de um sinistro algoritmo enviesado de um sistema informático que, admitindo como certo o que era apenas uma probabilidade, condena cegamente, não podendo ninguém garantir que está ao abrigo destes excessos (que normalmente também penalizam as pessoas e os grupos já mais fustigados pela sociedade).
A verdade é que nos dois pratos da equação que temos de saber gerir e equilibrar temos, por um lado, os recursos alucinantes das novas tecnologias, capazes das mais rápidas, impressionantes e expeditas soluções, e por outro a natureza humana, muito mais lenta (os milhões de anos de evolução) com as suas complexidades, o seu egoísmo, os seus territórios, a sua ética, as suas emoções. E, é claro ainda, se colocarmos trincheiras neste universo, julgo que já deixou de ser pertinente estabelecer um confronto do tipo “seres humanos versus novas tecnologias”, associando as virtudes aos primeiros e todos os predicados mais nefastos às segundas. Já deixei há algum tempo de ir atrás dessa simplificação, se é humano é bom, se a tecnologia anda silenciosamente por lá, não vale a pena. A realidade tornou-se bastante mais amalgamada e não deixa de surpreender. Por um lado, as possibilidades oferecidas pelas novas tecnologias não páram de abrir mundos e caminhos para lá chegar, e por outro, os seres humanos, com as suas vulnerabilidades (a exposição à evolução teve algumas facetas que hoje parecem bizarras – mas que na altura foram necessárias), também não deixam de desencantar e de desiludir. Para ser franco, já não é possível garantir de que lado das tricheiras poderá estar o bem ideal e virtuoso e onde mora o mal abominável e a evitar – se é que ainda faz algum sentido perspetivar as coisas pelos cânones da moral e da beleza. No fundo, quem poderá ter mesmo a razão é o velho Eleutério, já há muito rendido à exaltação tecnológica, que caminha sem desvios, não se distrai com rostos nem se emociona a ouvir Johann Sebastian Bach ou os Lewsberg (não, o leitor não tem de agradecer), das palavras usa só as que são precisas, e nos diálogos pretende apenas colher dados. Ele é que sabe e vai já à frente. É ele a criatura do futuro, e desejo-lhe, sem cinismos, que acerte na sua lógica nem sempre inteligível nem generosa.
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