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Toda a gente, ou quase toda, aparenta bem. Mesmo quem aparenta mal, esforça-se por aparentar bem para o seu grupo.
Há quem use chinelos, há quem use sapatos de camurça, ambos, à sua maneira, igualmente descabidos e insofismáveis.

Outrora julguei que seria bom que todos se afastassem das Aparências, em direcção à substância dessa verdade universal que nos une. Seria bonito viver em união espiritual. Só não há Deus que nos aguente a todos.

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Vivemos numa terra que é uma espécie de união. Num país e num continente que se anunciam como exemplo de solidariedade.
Mas depois percebe-se: por trás das Aparências, todos desejamos, com egoísmo, a nossa própria felicidade, tantas vezes invejando a dos outros.
Decidi, por isso, arrepiar caminho das interioridades e rumar ao mundo das Aparências.

É sobre as Aparências que Deus derrama a sua luz. A luz verdadeira — a do Sol — que ilumina e aquece. Não a luz artificial das reflexões e meditações (como esta, aliás).
É no mundo das Aparências que tudo parece em paz.

Aquela mulher que passa lá em baixo vai feliz com o seu filhote. Pelo menos, assim parece.
Quem sabe o que se passa dentro de casa?
Passa também o carteiro, à hora certa, e ficamos com a impressão de uma sociedade organizada. Depois perguntamos: em função de quê?

Mas isso já é errar na filosofia.
Acreditar nas Aparências é ser feliz.
É ser feliz à superfície, onde se respira, longe dos abismos onde se sufoca.
Por dentro quebramos.
À superfície vemos a luz.
Mas, para viver nas Aparências, seria necessário olharmo-nos ao espelho.
Pormo-nos mais vezes bonitos e elegantes, apenas por amor à beleza superficial das coisas.
Seria necessário acreditar na vacuidade das palavras.
E professar o baptismo de acreditar em nada, acreditando em tudo.
Eu vou ser mais eu, vestindo camisa e calças de marca.
O mundo pode não ficar melhor. Mas fica mais bonito.

 

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