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Da minha janela vejo o Padre Borga. Não o vejo fisicamente, ele está em Salvaterra de Magos na sua atual paróquia. Mas vejo-o no azul do céu. Eu explico. Disse-me ele um dia que para falar com Deus bastava olhar para o céu e pensar Nele. Aquilo fez-me pensar um pouco. Haverá hoje ainda quem olhe o céu e pense em Deus, e por conseguinte, reze (mesmo sem o saber)? Da minha janela eu olho, com esses olhos emprestados pelo Padre Borga. Olho muitas vezes o céu e pergunto a Deus, poderia ter sido diferente? Poderá ser diferente, agora? O céu não responde. Mas promete sempre um amanhã, ou pelo menos, um agora: o que já não é mau.

O Padre Borga ensinou-me da única forma que eu consigo aprender: com palavras e conceitos simples. Ensinou-me o caminho para o céu. Basta levantar a cabeça (talvez o fundamental) e olhar para lá. Deus está lá, à nossa espera, num azul nem sempre pacífico. Que nos ensina o céu, na generalidade? Que às vezes faz bom tempo. Outras vezes chove. Mas que o céu se equilibra no seu dever para com a mãe Terra, e para com a atmosfera. Assim nos deveríamos aceitar e equilibrar, naturalmente. Se os antigos escolheram o céu como morada de Deus, teriam as suas razões. Pergunto-me, também, se os guerreiros da antiguidade, desejariam a paz do céu nos seus últimos momentos de luta, erguendo a cabeça uma última vez. Ou se os condenados ao cadafalso o fariam também, antes da verdade. E prometo a Deus que vou lutar, pelo meu lugar no céu. Da única forma que sei: com muitas dúvidas e incertezas, e pedindo muito a Deus que conserve o meu carácter, tão disputado pelas tentações, fúrias, invejas, disfarces e quejandos. O meu carácter, pelo qual serei – seremos todos – julgados lá em cima. E não tanto pelos nossos pensamentos ou acções; mas pela forma como defendemos as nossas convicções nos limites das nossas capacidades. Quanto ao julgamento dos Homens, respeito; mas aprendi a não confiar nesses juízes tão cheios de certezas. E eu, pelo contrário, tão cheio de dúvidas, me sinto mais humano. Pois só Deus possui todas as certezas.

Um pouco como Audrey Tautou no filme “Amelie Poulain”, pergunto-me quantas pessoas olharão o céu neste momento e pensam em Deus, como sempre se fez na longa caminhada da espécie humana. Não consta que mais nenhuma espécie o faça. Nem que olhe tão longe, ou tão alto, em busca de ajuda, alento ou conselho.

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Não sou o único a olhar o céu, como diriam os Xutos e Pontapés, a ver os sonhos partirem e à espera que algo aconteça. Não sou o único a levantar a cabeça. Olhar o céu ensina-nos que Deus não nos quer submissos. Levantar a cabeça para ver o céu, significa que Deus nos quer altivos, preparados, conscientes do momento, mas também da eventualidade dos dias, do ontem e do amanhã. Também nos quer simples, orgulhosos até da nossa percepção, consciência e entendimento que nos permitem apreciar a Beleza. Críticos mais do nosso carácter, do que dos outros. Pois o caminho para o céu, tal como os nossos olhos, são como um bilhete de identidade: pessoal e intransmissível. Apesar de às vezes haverem falsificações. Os caminhos de Deus são misteriosos. Porém, os guias que se façam à estrada. Está na hora da grande caminhada. Está na hora de levantar a cabeça.

PS: Dedico este artigo obviamente ao Pde. José Luís Borga, antigo pároco do Entroncamento, que muita falta faz por cá. Um abraço meu amigo.

Foto: Kumiko Shimuzi

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