Reza a lenda que Dona Canô, mãe do músico brasileiro Caetano Veloso, a certa altura chamou o filho para ver Gilberto Gil que cantava na tv, usando a expressão “Venha ver aquele preto que você gosta”. Esse momento foi eternizado em canção por Neguinho do Samba e cantado por artistas como Daniela Mercury.
Em Portugal a palavra “Preto” está proibida. É considerada ofensiva pelos visados. Por esse motivo utilizarei a palavra “Negro” ao longo desta crónica, que é ainda mais escura, mas que evita discussões. Passam muitos negros na minha rua, e inclusive num dos apartamentos do meu prédio, vivem famílias de negros. Não os conheço. A princípio cumprimentava todos no hall do prédio. Mas são muitos e sempre diferentes. Passou a ser um cansaço dar um bom dia honesto, a quem nunca iremos conhecer verdadeiramente, quando descobrimos que estão apenas de passagem. A situação faz-me lembrar Lisboa, onde morei por cerca de 15 anos. Ninguém se cumprimentava em Lisboa. Apesar de o tentar fazer, esbarrava sempre na indiferença. A minha educação resistiu algum tempo, mas enfim cedeu. Tornei-me também uma daquelas pessoas que não dá os bons dias a estranhos, ou mesmo aos vizinhos. Quando regressei ao Entroncamento, em 2012, as pessoas queixavam-se à minha mãe da minha falta de educação, não sabendo (como poderiam saber?) que tinha sido assimilado pela cultura urbana de Lisboa. Mas com certo e determinado esforço, voltei aos hábitos tradicionais, e hoje o meu dia é mais feliz, sabendo de antemão e consciência, que vou trocar cumprimentos. Toda esta gente negra parece vir deste tipo de cultura urbana onde se cultiva a indiferença. Não por serem negros, castanhos, ou mestiços, mas por serem da cidade. É a cidade que invade, para além dos títulos, a outrora comunitária e pacata vila do Entroncamento, que passou a cidade em 1991. Mas uma cidade só é cidade quando as pessoas se desconhecem.

Desconheço quem seja o negro que passa na minha rua. É a cidade que chega. Tento dizer “Olá “, forma mais singela de cumprimento. Mas de que vale a ternura e o carinho do espírito tradicional, contra os demónios da cidade? Porque são demónios que nos calam, essa ideia malthusiana que somos demais.
Será que os negros pensam da mesma forma? Haverá na forja e no caldeirão das culturas, essa vila que eu trago comigo, disseminada noutros corações, que agora atravessam as ruas e anenidas frias do Entroncamento? Haverá negros, bejes, ou vermelhos, que me desejam dar os bons dias? Não sei. Vou transmitindo no espaço-tempo o meu “S.O.S.”, as palavras “Bom Dia”, aguardando que me respondam. A vila que foi o Entroncamento não resistirá ao imenso número, à imensa indiferença, da cidade. Alguns, poucos, lucrarão com isso. Negócios florescerão num novo milagre económico, na flor dos números. O município cobrará mais taxas. Vender-se-à mais cerveja, mais casas, mais comodidades. Cairá a graça dos sorrisos, os passinhos tímidos, os olhares perder-se-ão na multidão. Negra. Disforme. Transacta. Sei, porque vi, senti – e fui admoestado, reprimido e enfim assimilado.
Mas há também uma pequena vila que resiste dentro de mim, onde mora o sr. Eduardo O.P. Brito, a D.Elvira do Quiosque da Zona Verde, a D. Manuela do 3° Andar da Zona Verde, o Tulicreme (que era mulato), o Paulo Belo, o Careca, o Cajé, e tantos tantos outros que me davam os bons dias. É uma utopia, mas continuo a querer fazer amigos aos 50 anos. Ainda desejo descer as escadas à pressa, cair e levantar-me. Que esse amigo seja negro, ou preto, não me interessa. É o preto que eu gosto. A amizade não tem cor. Mas a cidade, essa, é cinzenta.
Foto: Lucas Gouvêa



















