“Tudo é breve, falível, passageiro,
Mas sei que desmentindo esse preceito
Há gente que se vende por dinheiro,
Pelo prazer da fama e do proveito.
Depois de entronizados como artistas
Suspensos nos trapézios do poder
Loucos, inspiram medos, dão nas vistas
Como se fossem Deuses de temer.
Dos cimos do Olimpo, radicais,
Testam impunidades pessoais
Protegidos por luzes, por fachadas.
Pagadores de promessas adiadas
Barões de nova ordem, são o rosto
Do mundo no pior do seu sol-posto.”1
António Luís Roldão nasceu na vila alba da Barquinha, na Rua da Barca nº 72, em 19 de novembro de 1934, ali bem pertinho daquele rio que, parafraseando Fernando Pessoa, “ é mais livre e maior, pois pertence a menos gente e, também, por ele se vai para o mundo e … até à América.”
De infância sofrida, como muitos outros garotos do seu tempo, no seu verbo “foi moeda de troca do trabalho infantil, norma ancestral nesse tempo”.2
Cresceu, foi ajudante de sapateiro, empregado de serração e escriturário, músico e cidadão

do mundo, por todos conhecido pela sua capacidade de semear cultura e associativismo sempre em prol das instituições barquinhenses. Uns dias foi dirigente, noutros cantor, noutros músico, mil e um artifícios para um homem onde a arte, a cultura e a amizade ao próximo se confundiram com o conselheiro ou o “intruso desta noite claridade, que anda por estas ruas de ninguém”. 3
Desde há muitos anos que os barquinhenses reconheceram nele um homem humanista, escritor, poeta e investigador. O seu denodo, entrega e dedicação ao concelho veio a ser reconhecido pelo Município como a medalha de ouro municipal – Cultura e com a atribuição do seu nome ao Arquivo Municipal, António Luís Roldão.
Sobre a Barquinha investigou aspetos relevantes que aqui aconteceram como o de recuperar hábitos, ritos, tradições, pensamentos, reconhecer património e até vestuário, num estilo sensorial e fotográfico, acontecido num determinado tempo e no sítio onde circularam aquelas personagens dos tempos idos que só a alguns interessa. No seu verbo não existiu temor em referir o bom e o mau, pois, tudo para ele enobrecia.
Para ele, o triunfo e o sofrimento tinham o melhor e o pior e, obviamente, faziam parte da história das nossas gentes. Importava não fazer juízos de condenação ou de absolvição, mas, intelectualmente, nortear o porvir ou saber onde estávamos, como é que chegámos e para onde íamos … pois só sabendo intimamente o nosso passado podemos abarcar o nosso presente e planear o futuro.
Perderam-se no nevoeiro do tempo os indícios da permanência de homens eminentes ou a deslocação de gente singela – correntes migratórias de origens diferenciadas – para estas terras. António Roldão conseguiu repristinar alguns. Parafraseando o autor “Os seus barões foram sempre, mais do que letrados ou homens de ciência, gente do negócio, do deve e do haver; numa ambição desmedida e dilatado querer, estendendo os seus circuitos comerciais até onde o interesse os levasse e lucro houvesse como consequência.”
A Barquinha foi um concelho indissociável de circulação de pessoas, de comércio e do rio Tejo. Foi este rio que a envolveu, lhe deu a forma nas suas ruas e moldou as suas gentes.
António Luís Roldão investigou estruturas de longa duração inscritas na natureza e nas paisagens materiais, questionou o património, relatou fatos quotidianos, analisou atos de arte, de partilha, de vida e de fé, sempre inspirado na sua enorme sensibilidade humana, uma das suas superiores características.
Com as suas pesquisas no Arquivo Municipal, agora com o seu nome, em Santarém e em Lisboa, que lhe abrasaram o olhar, e anos de vida, obtivemos testemunhos de grandíssima qualidade, investigações reconhecidas pelos seus pares.
Viu publicados vários artigos no Jornal Novo Almourol e vários artigos de revista. Tem publicados os seguintes livros de poesia; Ícaro, em 1961; Sinfonia, em 1973; Retratos em 1987; e dois livros com Crónicas Históricas; o livro I, em 2014, e o livro II, em 2020, respetivamente.
Os livros de poesia incidem sobre temas como: quotidiano, autobiografia. realismo / naturalismo, composição clássica, as vivências e os lugares, a moralidade, a critica social, a ironia, a melancolia, etc.
A investigação de estruturas de longa duração inscritas na natureza, as visitas régias, o convento do Loreto, os pelourinhos, os estrangeiros do Entroncamento, histórias e memórias da Moita e da Atalaia, figuras impares como Carlos Barral Filipe, os forais, os marcos, a estrada de neveiros, os relógios, as varandas, o chafariz, NS Reclamador, os inventários, os expostos, as ruas, os cais, as quintas, as paisagens materiais, o casal Iria Teresa; o Pedregoso, o Soveral da Lameira, os Torroais, estes dois últimos lugares, já extintos, e fora da memória do homem atual, foram sujeitos a visita obrigatória a convite indeclinável do signatário.
Em 2022 brindou-nos com o seu último livro, sobre poesia, “Ritornelo”. Trouxe-nos para quadros abaláveis e indefiníveis perto daquele Olimpo onde soe que os deuses greco-latinos moram. A sua poesia surgia tão natural como o nascer e morrer das folhas das árvores que observava no Parque, na Av. dos Plátanos, à beira do tejo e que lhe serviu de alma e de alento. Naquela obra rememorou, através do verbo emocionado e muitas vezes sarcástico, as quimeras e os desencantos, a intemporalidade dos recantos temporais, a natureza no seu esplendor, os caminhos que percorreu e o seu quotidiano de vida. Uma comunicação secreta com os encantamentos e sofrimentos deste homem a quem Vila Nova da Barquinha muito fica a dever.
A ele devemos:
– Tanto questionamento do património;
– Tanto relato de fatos quotidianos;
– Tanta análise dos atos de arte;
– Tanta partilha de vida e de fé;
– Tanta dedicação e entrega a Vila Nova da Barquinha!
O Sr. Roldão era sempre dado a uma bela e culta conversa. Estava sempre inspirado! E aliava essa inspiração à sua enorme sensibilidade humana, uma das suas superioras características.
Que conforto foi sentir esse correr de verbo e de narrativas, saindo fervilhando da sua alma, sinal genuíno deste povo, bem fraterno, resiliente e rijo, numa roda diária, anual, rítmica, incerta e finita como a nossa vida!
E, depois, e depois … momentos, pequenos e pormenores humanistas, majestosamente privados de conversa, e de dúvidas sobra as gentes barquinhenses que agora ficam mais pobres por ausência do seu ser e do seu pensar.
Em nome de todos, gratifico, encarecidamente, a sua dedicação.
Heráclito de Epheso anunciou: “O pior de todos os males seria a morte da palavra”. A sua não morreu, fica gravada a letras de oiro por esses locais de leitura, vulgo bibliotecas, e pelas ruas de ninguém!
O nosso eterno Bem-Haja, Sr. Roldão.
“Requiescat In Pace”.
1. Ritornelo, poema “Trapezistas”, pág. 89
2. Ritornelo, poema “Exodo”, pág. 17
3. Ritornelo, poema “Luar de janeiro”, pág. 58
Fernando Freire


















