
Na Barquinha temos um território de matriz rural com existência de elementos naturais determinantes para o seu desenvolvimento. Possuímos boa e má vizinhança das margens do Tejo. À cautela os nossos antepassados, em Tancos, edificaram um cais capaz de resistir e sobressair de cheias até 7 metros de altura.
O Tejo após deixar o vale encaixado e granítico de Tancos, começa a correr pela lezíria na Barquinha, Golegã e Chamusca. As casas aqui afastam-se naturalmente do leito para fugir às cheias então recorrentes e sazonais.
Os locais mais afastados do leito e com maior altitude, possibilitam uma maior segurança aos povoamentos instalados, como acontece no Pedregoso e na Quinta da Lameira que possuem cotas a rondarem as máximas de cheias registadas.
Rememoro que as grandes cheias chegam à Ponte da Pedra, limite do atual concelho do Entroncamento.
O tecido urbano de Barquinha define-se para sul como uma esplanada, paralelo ao rio, num traçado urbano em forma de cone …
A zona mais densa e consolidada corresponde ao núcleo mais antigo da Vila, as denominadas “zonas baixas”, locais onde se verificavam as habituais cheias e bem perto dos antigos cais marítimos que ali foram presentes. No quarteirão da rua do Sal podemos vivificar as lajes de pedra calcária guarnecendo os pavimentos dos pisos térreos, vestígios da adaptação local à vivência das inundações que, frequentemente, e com a sua adversidade beijavam a borda da vila.
Se durante a estiagem o rio Tejo serpeia por campinas, na ocasião das grandes cheias aquelas campinas também se cobrem de água, e o vale da lezíria ostenta então o aspeto de um vasto lago desde a Barquinha, Cardiga, Chamusca, Santarém até ao Mar da Palha.
As cheias ou inundações que aconteceram no Tejo semearam desilusão, desfizeram lares, devastaram campos, caminhos, pontes e circunscreveram povoações inteiras à penúria e, muitas vezes, à fome.
Mas se provocaram estes danos também trouxeram prosperidade à agricultura, quando os nateiros fertilizadores abraçaram os campos da borda d’água para estes acolherem as sementes onde germinava o pão nosso de cada dia.
As cheias eram, em geral, proveitosas aos solos e delas derivava a abundância destes. Cheias que eram uma bênção, tal como no rio Nilo, no Egipto, pois com a fertilização dos campos nasciam os denominados “nateiros” nos quais se produziam abundantes cereais e produtos hortícolas.

Cais de Tancos – Foto de Pedro Anjo
As cheias aconteciam quase sempre entre outubro e março, período de grande pluviosidade ocasião em que engrossava e extravasava o leito do Tejo. Raramente ocorriam de março por diante. Por exemplo, das 45 cheias que tiveram lugar desde 1852 até 1885, apenas 9 sobrevieram em tempo menos oportuno, de abril a setembro, sendo ainda assim os prejuízos por estas causados largamente compensados pelos benefícios das 34 restantes. Em 33 anos, de 1852 a 1885, verificaram-se 45 cheias.1
Este número demonstra como eram recorrentes nos tempos de outrora.
No século XX as 10 maiores cheias2 foram as seguintes:

A cheia de 1979, a maior do século XX, e muito falada pela geração atual, decorreu essencialmente nos dias 10 a 13 de fevereiro: “Só ultrapassada pela de 1876. Rebentamento dos diques de Valada, do Mouchão do Inglês e dos Vinte. Afetadas as captações e a estação de bombagem da água destinada a Lisboa dado a destruição do dique de Valada. Seis mil desalojados no concelho de Abrantes. A gare dos caminhos de ferro ficou completamente alagada, atingindo os dez metros na sala de espera. Colapso no abastecimento de água a Lisboa e cortes na luz. Forças militares e militarizadas foram mobilizadas na sua totalidade. Dez mil pessoas evacuadas, povoações isoladas e gado e culturas perdidos no balanço da catástrofe no dia 13. A Barragem do Fratel debitava 11.042 m3/s (pico) na madrugada do dia 11. Os desalojados de Valada que seguiam de comboio para Santarém tiveram que nele pernoitar pois a via-férrea estava alagada. O Dique dos Vinte teve cinco rombos, dos quais um de cerca de 100 metros. Autotanques dos bombeiros distribuíram água à população de Lisboa. O Caudal de cheia estimado em Santarém é de 15.000 m3/s.” 3
“Bombeiros, forças militares e militarizadas foram mobilizadas na sua totalidade. Na Freguesia de S. Miguel do Rio Torto a água chegou a entrar no cemitério. Os valores das águas em Abrantes chegam próximo dos 16 metros. O ministro da Administração Interna, Dr. António Gonçalves Ribeiro, visitou oficialmente nos dias 12 e 13 de fevereiro a região para se inteirar dos prejuízos causados pela cheia. No dia 17 de fevereiro, pelo mesmo motivo, o ministro da Indústria e Tecnologia, Eng.º António Batista Cardoso e Cunha visita o concelho. No dia 4 de março o Presidente da República, general António Ramalho Eanes e os ministros da das Obras Publicas e da Indústria e Tecnologia, Dr. Orlindo Almeida Pina e Eng.º Álvaro Roque de Pinto Bissaia Barreto, visitam oficialmente o Rossio ao Sul do Tejo para se inteiraram dos prejuízos causados pela cheia. Em Rio de Moinhos, militares retiram os moradores das suas casas”4
Com cerca de 6000 desalojados para o concelho de Abrantes. As areias acabaram com as culturas da época e com as vinha.
O Correio do Ribatejo, na edição de 16/2/1979, conta-nos: “O Presidente da República dirigiu operações de socorro em Valada…O drama atingiu proporções incalculáveis…Gigantesca operação de salvamento …Dez mil pessoas evacuadas para Santarém, Abrantes, Cartaxo e outros locais. Nas operações de socorro participaram helicópteros das Forças Armadas, unidades de Tancos, de Abrantes, da Marinha, das Forças de Segurança e da Escola Pratica de Cavalaria de Santarém … não foi apenas “o cavalo branco”, nome que os homens da Borda d’água dão à enxurrada, quando a enchente galopa desenfreada pelas terras ribeirinhas. Foi manada em tropel, demolidora e bravia, tudo arrasando e desfazendo na mais dramática emergência. Valha-nos a certeza de que a solidariedade não é uma palavra vã, de que por toda a parte os homens deram as mãos, acudindo aos que a tragédia maltratou, ameaçando, quando não fazendo perder, vidas e haveres.”
Podemos ver reportagens da RTP sobre a grande cheia de 1979 em https://arquivos.rtp.pt/conteudos/cheias-no-ribatejo-3/ e
https://arquivos.rtp.pt/conteudos/cheias-no-ribatejo-2/

Rua do Sal – Foto de Pedro Pimenta
No papel de aposentado foi olhar a cheia do rio…
A cheia começou a castigar o Parque de Escultura da Barquinha no dia 5 de fevereiro de 2026, a seguir ao almoço. Era visível que em breve deixaria as suas margens para se aproximar das ruas da vila. Tinha compulsado as descargas da barragem de Alcântara, a mãe de todas as barragens, e a de Cedillo, em Espanha. Os valores largados eram de muitos hm3/s. Portanto, possuía-mos um grande nível de pluviosidade, quer em Portugal quer em Espanha, as barragens estavam em alerta e a fazer descargas de grande dimensão. Alcântara, a barragem mãe da Península estava com 96% da sua capacidade e a fazer descargas significativas. A barragem de Cedillo, na entrada do Tejo em Portugal, estava em alerta vermelho, com descargas de 4.345.07 m3/s e com 89% de capacidade de armazenamento.
As notícias não eram boas. As tempestades e o tempo que lhe seguiu trouxe grande pluviosidade. Os terrenos encharcados não conseguiam absorver e reter mais água. As ribeiras laterais e os ribeiros iam bastos.
Todos fitavam as águas como que a medir o tempo…
Ali no meio da traseuntes ia ouvindo estórias de outras cheias. Umas que faziam bem, outras que faziam mal.
A estação de Almourol marcava em 5 de fevereiro, pelas 20h00, 11,40 metros (8.695,30m3) e a 6 de fevereiro, pelas 01H00 11,62 metros (9057,12m3). Valores bem altos! A cheia de 1979, obteve 15.53, a altura máxima em 1979.
A estação hidrométrica de Almourol é a medida mais usada para avaliar o caudal do rio no distrito de Santarém, e um dos principais indicadores da dureza do tempo das cheias e da sua evolução ao longo das próximas horas e dias.
A quantidade de água crescia, desmuseradamente. O rua do Sal, o largo Manuel Henrique Pirão, a rua do Tejo, o largo das Festas e a avenida dos Plátanos, começam a alagar.
Imponência assustadora, água por todo o lado que corre sem dó nem piedade. No redemoinho da corrente vislumbramos a espuma, lenhos, troncos, tudo o que a cheia encontrou no seu apressado caminhar que agora movia-se, ali, ao pé de nós. A água barrenta, revolta e imunda, alaga cada vez mais o verde Parque, cobre a levada lateral, galga as paredes, banha os quisoques, as esculturas contemporâneas, os salgueiros, os amieiros e a pequena vegetação. Deixa a descoberto, apenas, as cúpulas das árvores e algumas árvores arrancadas pela raiz como fósforos, pela tempestade kristin.
– Está a subir?
– Sim. Respondo.
A população da baixa da Barquinha entrou em corropio.
Há muitos anos que o Tejo não atingia o nível da estrada do Tejo, e as notícias não eram boas!
Havia a tendência para subir ainda mais. A água no Parque que em primeiro lugar entra pelo lado poente, começou a entrar, outrossim, pela parte nascente, junto do antigo cais da hidráulica.
Nas ruas pessoas questionam se devem mudar os seus haveres para o 1.º andar para tentar escapar ao flagelo.
– Se fosse eu a si, fazia isso. Invocava por uma razão de imprevisibilidade das descargas das barragens e de segurança de pessoas e bens.

Trabalhadores do Munícipio e Exército Português – Fotos do autor
Os militares do corpo de fuzileiros montam o seu posto de comando com botes junto do Centro de Estudos de Arte Contemporânea. Os militares do Exército e os trabalhadores do Município da Barquinha, numa azáfama sem cessar, colocaram sacos de areia juntos das portas como medida de proteção dos edificios e dos pertences dos barquinhenses.
Na Praia do Ribatejo, junto ao cais Pai Avô, os residentes tem que ser evacuados. Em Tancos, junto ao cais D’El Rei, o bar encontra-se submerso, tal e qual como o restaurante Loreto, na Barquinha. Ainda em Tancos o muro dos antigos armazéns das ferrarias arruinou. Os habitantes, ali, também mudam os seus pertences para o 1.º andar, onde a água poderá ou não chegar. Os barcos turísticos são arredados do rio ou amarrados às margens. O cais turístico de Almourol saltou do lugar, veio rio abaixo e imobilizou-se junto ao Arripiado.
Os bombeiros e a proteção civil municipal percorrem, dia e noite, as ruas e o rio, em alerta para poderem acudir a qualquer chamada de socorro.

Avenida dos Plátanos e Paços do concelho – Fotos do autor
Quando falava com os homens da borda de água referiam-me as grandes cheias que “tinham chegado aos degraus da Igreja Matriz da Barquinha ou às portas dos Paços de Concelho da Barquinha ou à taverna do Sr. Ferrão”. Sempre grandes histórias de dramas, desgraça, heroísmo e solidariedade.
– Acha que vai chegar aos degraus da Igreja? Se fosse você o que fazia?
Belas questões, mas eu não sabia responder.
– Julgo que não, mas há que monotorizar de 8 em 8 horas!
Impressiona as questões e a narrativa.
O tempo ido, e preciso, está na memória dos descendetes destes ribatejanos.
As inundações faziam parte do dia-a-dia dos seus pais e das suas vivências de infância pois habitavam em pleno vale do Tejo e num dos locais mais afetados pelas enxurradas desde tempos imemoriais.
Certamente, relatos que vinham dos seus ancestrais pois pelo rio, e pelo campo, fluem histórias de mortes, galgamento das margens, campos inundados, diques derrubados e impetuosas correntes de água.
O instinto criativo barquinhense nasceu nas margens do rio que lhes deu muito, mas que muitas vezes muito lhes retirava.
No meio desta tempestade e da cheia apareceu quem organizou, resolveu e improvisou. Não deixaram para trás ninguém. Não há familia nem há horários. Lado a lado militares, dirigentes e trabalhadores da autarquia, proteção civil e bombeiros não vacilaram. Colocam sacos de areia, cortam árvores, desimpedem estradas e os caminhos, expurgam a lama, partilham alimentos, confortam as almas, entram em casas deterioradas, garatem que ninguém fica esquecido.
Houve povo a cuidar do povo.
Depois da tempestade virá a bonança!

Vila Nova da Barquinha – Foto de João Alves
Para memória futura ficará gravada a cheia de 5/2/2026, numa singela placa, no cais da hidráulica, junto da cheia de 12/2/1966, da de 19/1/1936 e da de 17/12/1955.

Bibliografia
1 Revista de Obras Públicas e Minas / Associação de Engenheiros Civis Portugueses. – Lisboa, ano XIV Tomo XIV, Imprensa Nacional, pág.68, 1885.
2 MADEIRA, Cristina. Cheias e inundações do rio Tejo em Abrantes, Território, 2005
3 LOUREIRO, João Mimoso, “Rio Tejo –As Grandes Cheias – 1800-2007”, coleção Tágides, ed. ARH do Tejo, Lisboa 2009
4 VIEIRA, José Manuel d’Oliveira, Cronologia das Cheias do Rio Tejo {1550/2010}



















