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Maria da Guia Asseiceiro teve uma coluna no jornal “O Entroncamento” de seu nome “Janela sobre a cidade”, cujos textos voltamos a publicar.

“A Quinta da Cardiga”

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À memória da Família Sommer de Andrade

Nos anos 40 do século passado, o Entroncamento crescia com tendência ao desenvolvimento urbano e tinha o privilégio de ter a seu lado a Quinta da Cardiga, com uma estrutura rural demasiadamente desenvolvida em todas as áreas. Notável pela sua extensão: da Cardiga a São Caetano e a partir dos seus portões toda a envolvência rural até às margens do tejo. A Quinta do Arrepiado era uma extensão, embora administrativamente independente da casa mãe, a Cardiga. Notável ainda pelo apoio social dado aos servidores da sua Casa.

Na estrada que liga o Entroncamento à Golegã, encontramos, dois enormes Portões, separados entre si, por 500 ou 600 metros cuja funcionalidade, ao tempo, era bem destinta: um, para todo o movimento estrutural agrícola, o outro, para que a Família Sommer de Andrade se deslocasse sem atropelos. Árvores frondosas dum e doutro lado da estrada formavam um túnel de verdura, por onde os Senhores se movimentavam.

Cada um dos portões abriam caminho às duas largas estradas de terra batida reforçadas de pedra roliça.

Atrás do portão de serviço, existia uma casa de dois pisos que dava dignidade a quem a usava, o guarda principal da Quinta da Cardiga. Manuel Constantino, não era um simples guarda-portão… Montado num belíssimo cavalo, farda de cotim cinzento e boné militar. De arma ao ombro vigiava toda a Quinta com uma dedicação incrível, parecia estar em simultâneo em todo o lado. Havia uma forma de segurança invisível e serena, para lá dos dois portões quase sempre abertos.

Entremos, então, pelo portão de serviço normal, junto à casa do guarda, a mulher ou a filha estavam atentas… Por ali passavam os rebanhos, as carroças e os animais de carga depois de cumprirem o seu dia de trabalho. Todos entravam e saíam: visitantes, clientes e trabalhadores rurais com a liberdade responsável de quem protege e guarda a “sua” Quinta.

De manhã muito cedo, ainda a maresia molhava o rosto e gotas de orvalho brilhavam sobre o prado de malmequeres brancos e amarelos, já a alegria de gente muito nova fazia coro com o chilrear dos pássaros. Carregavam com gosto, garrafas, panelas vedadas com a tampa e cafeteiras de bico a caminho da leitaria da Quinta. Recebiam leite desnatado ainda morno oferecido a quem o fosse buscar. O passeio era divertido e saudável, pouco leite chegava a casa… Bebia-se pelo caminho!

Do lado direito da estrada, o prado e os rebanhos com os seus pastores, do lado esquerdo, as sementeiras, o cheiro a terra e a gado. Um pouco mais à frente o grande choupal que se agitava ao vento. (Esperava bonacheirão, pelo passeio anual de dezenas de famílias vindas das terras em redor. Estendiam debaixo dos altos choupos, as mantas e as toalhas para a refeição campista. Havia teatro e danças de roda, poesia e convívio entre todos. Terminava com missa campal e a presença do Dr. Ruy Sommer de Andrade e a D. Mariazinha Sommer, sua filha. Eram assim os Donos desta Quinta.)

Entremos, enfim, na parte central… Depois da estrada que nos conduziu até aqui, deparamos com um largo espaço zoológico devidamente vedado e dividido conforme as espécies. Perus, patos, galos e galinhas debicavam e esgravatavam a terra. Os veados e as corças, pavões e galinhas da índia… cavalos e éguas! Até burros se rebolavam de patas no ar!… E zurravam… zurravam! Cuidadores atentos velavam por tudo isto.

Dum e do outro lado as instalações agrícolas: palheiros com gado bovino para o trabalho, a vacaria para a produção de leite. Em frente, as instalações comerciais: os escritórios, a queijaria e a manteiga fresca; daí os muitos litros de leite desnatado oferecido diariamente. As hortaliças, as batatas, produtos de época de toda a ordem. Os vastos pomares!…

Alpendre para guardar alfaias agrícolas. Garagem para proteger os carros de tração animal e com motor. Uma oficina de serralharia para reparar o material em atividade. As carruagens e os carros.

As vacarias, as cavalariças, os armazéns e os celeiros!…

Os lagares do vinho e do azeite. A moagem do trigo e do milho… Já a caminho de São Caetano.

Era uma empresa auto-suficiente em todas as áreas.

Era uma Casa generosa e benemérita também. A IGREJA PAROQUIAL DO ENTRONCAMENTO, teve ajuda desde o projeto à construção arquitetónica. A cedência do terreno para a construção da ESCOLA DO CICLO PREPARATÓRIO DR. RUY DE ANDRADE. Esta FAMÍLIA, foi uma mais-valia difícil de igualar, em tempo de Guerra. (Dentro e fora de portas)

Todos os dias colocava no Entroncamento e na Golegã muitos litros de leite em bilhas de alumínio próprias para o efeito, que eram repartidos pelos pobres.

Podemos, sem exagero, considerar que a segurança social de todos os trabalhadores da Quinta da Cardiga era exercida duma forma invulgar: Apoio na doença e na velhice. Habitação até morrer.

Pelo que atrás ficou dito, é fácil perceber a quantidade e a qualidade dos empregados desta CASA e a sabedoria de quem a dirigiu, A FAMÍLIA SOMMER DE ANDRADE.

Deixemos São Caetano e as marcas que a QUINTA DA CARDIGA DEIXOU.

Voltemos à parte central e caminhemos para a esquerda: imaginemos que é QUINTA FEIRA DE ASCENÇÃO.

Tanta gente!… Tantos sacos com farnel… Música? É de concertina! Vamos ver!…

Muitas pessoas se atropelam se empurram, mas riem e lentamente vão caminhando.

Olha o PALÁCIO, tão lindo! Tão limpo e a verdura tão cuidada!

Olha para este lado, naquele espaço onde estão as estátuas, está tudo a dançar. Vamos também!

E daquelas casas baixinhas em frente ao grande Palácio, os empregados e suas famílias usufruíam dum alegre e bonito dia de festa. Os outros, caminhavam um pouco mais, contornavam o enorme PALÁCIO e à sua sombra estendiam a manta e o farnel. Em alegria fraterna todos apanhavam a espiga nos férteis campos da QUINTA.

O RIO TEJO beijava os alicerces daquele PALÁCIO, onde tanta gente foi feliz.

 

Maria da Guia Asseiceiro

(2018)

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