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Maria da Guia Asseiceiro teve uma coluna no jornal “O Entroncamento” de seu nome “Janela sobre a cidade”, cujos textos voltamos a publicar.

“O regresso às aulas (Os modos e os tempos)”

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Mais uma vez chegou o tempo do regresso às aulas… e não virá nenhum mal ao mundo se fizermos comparações.

Com 10, 11 anos, um aluno de nível médio nos anos 40 teria sem grandes sobressaltos a escolaridade obrigatória cumprida. Hoje, um aluno com o mesmo nível de capacidade dificilmente o concluirá sem o auxílio de explicadores particulares.

Dirão porventura que era apenas a 4ª classe, mas quem a fez reconhece, sem exagero, que na prática sabe mais que um aluno do 9º ano de escolaridade.

Se tentarmos comparar as várias condições do ensino, deparamo-nos com o seguinte:

– Rapazes numa escola, raparigas noutra!

– Material didático pouco ou nulo!

– Relação professor/aluno austera e autoritária!

– Réguas e “meninas-de-cinco-olhos”… Puxão de orelhas e “orelhas de burro”!

– Salas de aula frias, desconfortáveis, e três filas de carteiras onde a classificação se fazia logo à partida: 1ª fila os bons, 2ª fila os médios e na 3ª fila os péssimos.

– Recreio enlameado no Inverno e cheio de poeira no Verão.

– À chuva ou ao vento, de mala na mão, percorria-se a pé a distância de casa à escola. Ás vezes longe!…

– Sem ginástica, sem piscinas!, sem…

Mas mesmo assim, poucos serão os alunos que esqueceram o seu Professor! Pelos melhores e pelos piores motivos. Decorridos 30, 40, 50 anos após a escolaridade obrigatória, muitos são os que se reúnem anualmente para por um ramo de flores no seu túmulo e fazer uma confraternização entre colegas evocando as qualidades e defeitos do Professor que, em condições hostis, fez de todos eles Homens e Mulheres minimamente preparados para enfrentar os obstáculos do dia-a-dia. Nos anos 70,80 do Séc. XX tudo se alterou radicalmente.

É com espanto e às vezes com mágoa, que vemos alunos que até têm uma camioneta que os coloca à porta da escola, contínuos que os encaminham nas dificuldades de posicionamento escolar, salas polivalentes que dão para tudo, “tudo”, digo bem!

Os professores passam, e muitas vezes fazem de “cegos, surdos e mudos”. Dentro da sala de aula é o professor quem mais ordena, mas não se livra a faltas de respeito, até na forma de relacionamento: “O p’ssor” ou na melhor das hipóteses, “O stôr”…

Acredito que uns e outros, professores e alunos, são vítimas de tantas reformas e contrarreformas. Acredito também que ambos têm facilidades a mais e estas a médio ou a longo prazo têm um preço… (relembro que o texto foi escrito em 1994 e a situação era esta)

Vem aí o primeiro dia de aulas onde tudo é novo e muito colorido, por cada aluno os pais gastaram em média nunca menos de 20 contos (moeda anterior ao Euro).

Com a nova reforma, quem conseguir dar o salto e terminar com aproveitamento o 9º ano, o último do ensino básico (3º ciclo), pode gabar-se de ter terminado a Escolaridade Obrigatória e ter posto fim à brincadeira, já que para o ano começa a contar a média para a Universidade.

Criar hábitos de leitura passa a ser uma necessidade primária; Gil Vicente, Camões, Virgílio Ferreira, Saint Exupéry são alguns dos autores de livros. Os Autos das Barcas, os Lusíadas, os Contos e o Principezinho, que o ensino exige. O gosto pela Leitura não se adquire de um dia para o outro!

Recordo a primeira vez que, no Largo da Estação, a carrinha da Fundação Calouste Gulbenkian pôs a sua Biblioteca itinerante, à disposição dos utentes. Semanalmente, em dia e hora certa. Ano após ano, o interesse pela leitura tornou-se hábito e este transformou-se em conhecimento. O Ensino Escolar envolve os Pais, os Professores, a População Estudantil, e a Sociedade que os acolhe, por isso a Educação não deveria estar à mercê de caprichos políticos.

Maria da Guia Asseiceiro

(1994)

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