A vida, para ele, sempre foi corrida rápida e intensamente. E governada pelas paixões, era por elas que se orientava. Esta manhã o relógio parou, aos 67 anos, fruto de um acidente vascular cerebral e da contingência que um dia marca encontro com todos nós. Foi uma pessoa que marcou a vida cultural, social e desportiva do Entroncamento de modo indelével. Francisco Dias Simões, o Chico Simões, como todos o conheciam, era um homem com uma personalidade rigorosa, crítico incisivo, imbatível na argumentação, exigente, metódico, competente, criterioso no que fazia, empreendedor sempre com ideias, amigo do seu amigo, frontal no seu relacionamento, não se importando de dizer o que sentia, mesmo que soubesse que isso poderia magoar alguém, um homem com uma capacidade de raciocínio fantástico e, foi-nos dito por alguns dos seus amigos mais chegados, a pessoa mais inteligente que conheceram.
Quando se metia nas coisas, não era só para estar lá, mas sim para se envolver, porventura marcá-las com o seu carácter, o seu interesse e a sua visão. Foi assim que, com ele e mais outros apaixonados pelo futebol, surgiu em 1975 o Clube Amador de Desportos do Entroncamento (CADE), uma visão diferente do desporto e da cultura, e que ainda hoje mobiliza centenas de pessoas em torno do seu projeto. Paixões. Foi isto o que marcou a sua vida, talvez a essência delas, era movido por paixões, e eram elas que lhe davam razão para a viver. O CADE ̶ que ele sentia com o fervor de fundador, e que dirigiu ao longo de sete anos (entre 1985 e 1992), nunca se afastando, porém, do que se passava no âmago do clube ̶ , mas também o seu Sport Lisboa e Benfica, garantindo-nos, quem com ele mais privou, que não perdia um jogo de futebol do seu clube do coração no Estádio da Luz para as competições internacionais. O caso singular é que as suas paixões não lhe toldavam o seu espírito arguto e o método e o rigor que impunha àquilo em que se empenhava. Fazer coleções era outra emoção com que gostava de dar cor aos seus dias, fazendo por vezes centenas de quilómetros para chegar a uma feira de coleções promissora ou para conseguir “aquela” peça, selo ou chávena invulgares, insólitos ou mesmo únicos que iriam para as suas coleções. Coleções de selos (sobretudo os portugueses, e algumas vezes, no início, foi à lixeira de um médico recolhê-los…), cartas, postais e postais ilustrados, cromos da bola, carimbos de ambulâncias postais, história postal, cédulas, chávenas, pacotes de açúcar e outros temas. Como colecionador de selos era considerado um dos cinco mais importantes do país. Começou desde muito cedo com a filatelia e a entreter-se com todo o colecionismo, deleitava-se com as peças e unidades que conseguia, por vezes depois de percorrer grandes distâncias e pagar bom dinheiro por elas, porque, sempre bem informado, considerava que o valiam. E foi essa mesma emoção e o seu espírito de iniciativa que foram os pilares para que durante mais de uma década, como diretor da secção de colecionismo do CADE, se tenha realizado na nossa cidade, logo no início de cada mês de janeiro, a Feira de Colecionadores e exposição de colecionismo, que primavam pela diversidade dos temas colecionados e reunia no Entroncamento centenas de adeptos de todo o país para trocar os seus objetos. A casa onde sempre viveu a mãe, transformou-a num verdadeiuro museu cheio das suas variadíssimas coleções que incluem também documentos valiosos, muitos deles de índole postal e ferroviária.
Ao longo da sua vida, Francisco Simões foi ainda durante 25 anos diretor financeiro de uma importante unidade de curtumes de Alcanena, tendo tido com a sua visão um papel importante nas épocas de crise que a empresa atravessou. E muitos dos seus alunos ainda o recordam como Professor, com letra maiúscula, pela sua competência de docente na Escola Secundária do Entroncamento, missão de que se reformara há um pouco mais de dez anos, era também um pouco crítico com o rumo que a Educação do país estava a levar.
João Alberto Abreu, atual presidente da direção do CADE, não esconde a sua comoção perante a morte do amigo, e é com a voz algo embargada que conversa um pouco, percorrendo o carácter e histórias compartilhadas com o Chico. “Era uma pessoa extremamente inteligente, uma memória de elefante capaz de contar com todos os pormenores um episódio de há muitos anos, grande amigo, leal, frontal no dizer as coisas, por vezes duro, outras vezes um coração de manteiga. Para mim, era como um irmão, éramos unha com carne”, recorda João Abreu, evocando ainda a ida de ambos, “por diversas vezes, ao Brasil, e o seu benfiquismo, mesmo que por vezes parecesse zangado com algumas personagens do clube”.
Outro amigo, igualmente um dos cofundadores do CADE, recorda-o como a pessoa mais inteligente que alguma vez conheceu. E lembra-se também dos Azargalhados, uma curiosa equipa de futebol de salão, onde jogavam, entre outros, os saudosos António Carloto e Salino, além do Cristóvão, do Eduardo Barata, do João Abreu, e do Chico, que estava longe de ser um Cristiano Ronaldo, que por volta de 1974 ou 1975 fez um grande torneio que se realizava no velho ringue do União – sendo que estes mesmos Azargalhados são ainda hoje considerado como a célula de onde nasceu a ideia de criar o CADE.
“Era um benfiquista dos 20 costados, sócio desde sempre”, diz este amigo a quem demos a triste notícia do falecimento do Chico. A esposa, professora, também evoca a sua bondade e desinteresse, a quem, não tendo ela ainda carta de condução, frequentemente o Chico dava boleia até ao local de trabalho. “Com ele aprendíamosa sempre, foi um privilégio sermos amigos dele, e a verdade é que ele era também seletivo nas suas amizades, não se dava com toda a gente”, reconhecem ambos.
“Estava sempre presente, e vai fazer falta a muita gente, incluindo o próprio CADE”, admite João Abreu, “mesmo não estando nos corpos sociais, era sempre possível consultar o Chico sobre qualquer coisa”.
Vou recordar, e os leitores me perdoarão decerto, um trecho de uma conversa jornalística a propósito do lado colecionista do Chico, e que também ajuda a revelar esta sua faceta tão humana e ao mesmo tempo o método e a autodisciplina que sempre se impunha:
“Um colecionador vive de arranjar coisas novas para a sua coleção, e é também um pouco possessivo, tem um certo sentimento de posse, mas o colecionismo é sobretudo uma fonte de conhecimentos, de cooperação e de entusiasmos e grandes amizades”, sublinha, reconhecendo que “a Internet tem introduzido algum efeito no colecionismo”, embora não seja a sua praia. “Tenho medo das falsificações, principalmente quando os valores já são consideráveis, sou mais de comprar mas a ver as coisas”.
Era assim o Chico. Sempre presente!
E vai continuar a estar.
Manuel Fernandes Vicente
NR. À família e à companheira o EOL apresenta as sentidas condolências.

















