Maria da Guia Asseiceiro teve uma coluna no jornal “O Entroncamento” de seu nome “Janela sobre a cidade”, cujos textos voltamos a publicar.
Debruçada sobre a cidade deparo com situações que dão para pensar…
Um rapazito de 5-6 anos de idade, muito direito com um telecomando na mão fazia rodar um sofisticado carro. Virava à direita e à esquerda, circunscrevia um círculo perfeito. Voltava a rodar percorrendo alguns metros, recuava, avançava… e a criança parada de olhos fixos no brinquedo e pés colados ao chão. Apenas os pequeninos dedos se agitavam sobre o telecomando.
Instintivamente recuei no tempo e recordei o meu único boneco: o “Zé-Broa”. Era tralhado em madeira tosca, não tinha (creio que nunca teve) pernas nem braços, mas eu punha nele todo o meu enlevo!
Tinha também um engenhoso telefone feito com duas caixas de graxa ligadas por um longo fio, através do qual mantinha alegres e disparatadas conversas. Naquele momento, julguei sentir cansaço dos saltos à corda, certos, ritmados… e das correrias atrás do arco empurrado pelo ferro… E tive pena daquela criança.
Por associação de ideias veio-me à mente todas as outras que, sentadas ou deitadas num cadeirão, ficavam horas seguidas, como que hipnotizadas, diante daquela “caixa mágica” que se convencionou chamar televisão, absorviam imagens, decoravam palavras e repetiam gestos. Era a novidade da comunicação visual que as absorvia… Já alguns anos antes, à semelhança da televisão, senti a “magia” do movimento, na tela. O cinema mudo primeiro, o sonoro depois.
O Entroncamento com uma população inferior a cinco mil habitantes já possuía a sua sala de cinema. Não era grande, não era cómoda, mas tinha o fascínio das melhores salas em dias de enchente.
Ficava situada quase em frente à ponte sobre as linhas férreas, lado sul.
Ir ao cinema significava festa: luzes, castanhas e caramelos, pevides e tremoços. As vendedeiras formavam alas… e os olhos gulosos das crianças e a bolsa aberta dos pais eram o 1º documentário vivo da 7ª Arte. Depois as portas de madeira meias abertas; a escuridão da sala, a mobilidade da luz pequena a indicar o lugar. As cadeiras móveis e duras, onde com muito cuidado me sentava; os camarotes sempre cheios ou na reserva; a geral e a plateia, formavam o alicerce social que provocou o desenvolvimento explosivo desta terra.
As cenas ingénuas do cinema mudo faziam-me rir, os fundos musicais que acompanhavam os grandes dramas da época, cujo enredo eu ainda não assimilava, faziam-me chorar! Uns terminavam em morte, outros com um beijo.
O Velho Cineteatro morreu para dar lugar a uma sala de espectáculos grande, confortável, moderna: O cinema São João. Esta casa foi construída com estruturas e requisitos tais, que seria o orgulho das principais cidades deste país. No entanto… tenho conhecimento de cinéfilos que procuram noutras terras salas e filmes!
Diante dos nossos olhos, o desperdício dum investimento que é nosso, a degradar-se hora a hora.
Passaram dezenas de anos! Eis que, um novo Cinema S. João, substituiu o primeiro!
Acompanhando a evolução da ciência e da técnica, com dedos ágeis sobre computadores e telemóveis, deixemos as nossas crianças, margem à criatividade e ao sonho.
Maria da Guia Asseiceiro
(Adaptado de 1994)




















