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Maria da Guia Asseiceiro teve uma coluna no jornal “O Entroncamento” de seu nome “Janela sobre a cidade”, cujos textos voltamos a publicar.

“Martinho Gonçalves Mourão, o Homem-Sacerdote”

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              Nasceu no raiar do século XX e a sua mentalidade estaria muito bem no nascer do novo século.

O plano de trabalho quinzenal desta “Janela” está dividido por temas e entre eles estão as “Personalidades”. Não haverá critérios de valor hierárquico, político ou religioso… Apenas um critério: todos os que de algum modo, dando muito de si, foram pedras basilares desta cidade.

Padre Martinho Mourão, dinâmico, arrebatado e generoso… Chegou aqui em 1935.

Trouxe para o Entroncamento a sua juventude e aqui a deixou; a sua fé contagiante espalhou-a, só Deus sabe até onde!… A sua saúde gastou-a ao serviço da Paróquia para a qual fora nomeado. O seu temperamento enérgico leva-o às escolas, às oficinas e aos quartéis. O seu poder comunicativo garante-lhe amizades incondicionais tanto dos que têm muito de seu, como dos que têm pouco ou nada.

Numa época em que a segunda grande guerra avassala o mundo e espalha por todo o lado fome e miséria… Os seus reflexos atingem (embora neutral) o nosso país. No Entroncamento, o Pe. Martinho sempre se apercebeu, que numa expressão muito sua, “a palavra de Deus não cai em estômagos vazios!”. Perspicaz e atento às necessidades espirituais e humanas dos seus paroquianos (fossem cristãos praticantes ou não) sentiu falta de uma sala de reuniões; e, a sua primeira obra é levada a efeito na Capela de S. João, onde naquela época se praticava o culto. O seu carácter batalhador leva-o a conseguir a construção da Igreja Matriz com o apoio da Casa Sommer, da Quinta da Ponte da Pedra e do povo anónimo. Seguiu-se a residência paroquial, mas no seu coração e no seu olhar profundo estavam as crianças andrajosas e com fome, que encontrava nas ruas.

Pedia… Pedia muito, dizia-se até que seria capaz de pedir “a burra a S. Paulo!…”. Dez anos depois de aqui se ter fixado, fundou uma instituição de assistência local: Centro de Assistência Social Infantil (Creche). Vinte crianças do sexo feminino recebem alimento e agasalho. Um grupo de senhoras da terra prontificaram-se a tomar o encargo.

Cerca de um ano depois entrega o trabalho do Centro à responsabilidade da Congregação das Servas de Nossa Senhora de Fátima, que a seu pedido se instalou no Entroncamento. Desde 1947 estas Religiosas, com o carisma que lhes é específico, foram dando à Creche todo o seu amor fraterno: alimento, protecção à criança e à mãe… E, acompanhamento no desenvolvimento integral da pessoa humana.

Uma cadeia de solidariedade envolveu a obra mas as dificuldades monetárias subsistiam!

O temperamento enérgico e decidido deste Padre leva-o a fundar um jornal: “O Entroncamento”, bimensário regional, cujo lucro revertia por inteiro a favor das “Florinhas da Rua” como carinhosamente apelidava aquelas crianças.

Mais tarde, o Pe. Martinho apoiado pelas Irmãs religiosas e já com outros estatutos criam uma secção de aula infantil, pré-escola e escola Primária. No Centro ensina-se costura e bordados, formação doméstica, aulas de moral, economia, puericultura, etc.

Acompanhando as necessidades de formação e emprego, o Centro de Assistência Social estende a sua actividade a uma secção masculina, onde se ensinava serralharia e marcenaria. Tudo isto, o Pe. Martinho Mourão encorajava e desenvolvia com discernimento invulgar para a época.

Atento à pobreza envergonhada, põe em movimento a Conferência de S. Vicente de Paulo.

Sacerdote de fé ardente cria o Grupo de Acólitos, apoia o movimento da Acção Católica (JOC) e estava presente em muitas sessões de Catequese. Idealizou, com a finalidade de unir os seus paroquianos, o passeio anual da Paróquia ao Choupal da Cardiga.

Motivou os jovens dos vários movimentos da Igreja a representarem, para isso criou o, ainda útil, Salão Paroquial. Ainda lhe sobrava tempo para levar mais longe a voz da Igreja no jornal por ele fundado. Os seus textos tinham sempre a marca da sua personalidade, como o atestam dois textos escritos em 1949, que têm ainda perfeita actualidade: “Há que reprimir abusos” e “Bota abaixo”.

Fica claro que não poderia, ainda que quisesse, descrever todas as marcas que o Pe. Martinho Mourão deixou no Entroncamento. Cresci ouvindo as suas palavras e fui testemunha do seu exemplo de Homem austero e fervoroso, dedicado à Igreja e à Paróquia que lhe foi confiada.

Se mais razões não houvessem, o facto da personalidade em questão ser o fundador do nosso jornal e o primeiro Pároco do Entroncamento bastariam para justificar a escolha. Pe. Martinho Mourão, um homem do passado recente, cujo exemplo de vida é da mais elementar justiça, realçar.

Maria da Guia Asseiceiro

(1994)

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