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Maria da Guia Asseiceiro teve uma coluna no jornal “O Entroncamento” de seu nome “Janela sobre a cidade”, cujos textos voltamos a publicar.

“Cantos e recantos”

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As urbanizações substituíram os olivais: o casal Saldanha, o da Galharda, os bairros floridos e as Escolas. O Forno do Grilo e a estrada da Barroca com ruas abertas à esquerda e à direita, ladeadas por lindíssimas moradias, são a parte nova do Entroncamento que cresce.

Em muitos recantos, dantes sujos e inúteis, foram construídos parques infantis onde as crianças brincam sob o olhar atento de um familiar. Jardins de Infância e Lares de Terceira Idade onde novos e velhos passam a maior parte do seu tempo, fruto de uma civilização moderna nem sempre justa!…

Aqui na zona Norte a nova Igreja da Nossa Sra. de Fátima: moderna, ampla, multifacetada para funcionar como desejável “Marco” e “Sinal” dos tempos, unir os Homens e amar o Criador.

Na Rua 1º de Maio sinais luminosos indicam a quem passa se deve avançar ou parar. É o progresso.

Junto da passagem de nível, substitui-se o guarda por sinais sonoros que avisam do perigo e responsabilizam quem a atravessa… Reparei que ao meu lado estava um deficiente motor numa cadeira de rodas, ‘velhos’ reformados e algumas crianças!… A técnica resolve com eficácia muitas situações, mas não supera o aspecto humano.

Para pôr a descoberto um prédio de vários andares, vai um operário da construção civil, forte e ágil, arrasar à martelada a bonita fachada duma das primeiras casas de alvenaria (em frente ao centro cultural) que nesta terra se construíram. Tive pena! Fui até ao Jardim Parque Pereira Caldas, o mais harmonioso e acolhedor dos jardins vedados do distrito de Santarém, esplendoroso como sempre na vegetação e no traço. Subi ao mirante, ponto mais alto de hà 50 anos, cuja paisagem me encantava. Hoje, essa mesma altura é insignificante em relação às muitas ‘gaiolas’ de cimento armado que o escondem. Desci à estufa para ver o lago e a aranha. Observei o Coreto onde tantas vezes rodeado de aplausos recebia a saudosa Banda dos Escuteiros 84. O jardim é uma relíquia do passado que o presente ainda guarda.

Atravessei pelas ruas que circundam o Jardim, pelos Bombeiros, Banco, Câmara, Caixa Geral de Depósitos e entrei na Rua Latino Coelho. Até recuei no tempo… Pareceu-me ouvir a voz do Ti’Carvalho:

– Mestre, posso ir dar uma volta com a miúda?

O meu pai acenava com a cabeça e eu pulava de contente.

Atravessávamos a passagem de nível e a minha mão tão pequenina quase se perdia na enorme mão que me segurava. Perguntava então:

– Vamos à taberna do Ti’Alfredo?

Já sabia que tinha certo, meio tostão de rebuçados. Entrava e eu recebia o prometido. O velho ferroviário que me acompanhava bebia um copo pequenino, enquanto dava dois dedos de conversa com homens vestidos de ganga e boné preto na cabeça. Depois, lá subia quase pelo ar as escadas da ponte. Era o caminho de casa. A meio da ponte, sobre aquelas linhas do Caminho de Ferro, o Ti’Carvalho puxava pela onça de tabaco e pela mortalha, fazia um cigarro e colocava-o no canto da boca. O seu olhar parecia tão vago e longo como as linhas que olhava… Eu pensava: lá longe, muito longe, se calhar está um muro muito alto que dá até ao céu… Aí é o fim do mundo… Ninguém passa, quando eu for grande hei-de ir ver aquele fim do mundo!…

A primeira parte da ponte era de cimento, a outra metade era de madeira e estava muito velha! Eu tinha muito medo porque as minhas sandálias quase cabiam no intervalo das tábuas.

Aquele bom homem, grande, feio e velho, pegava-me ao colo e punha-me no chão só no fim da ponte… Teria na altura 4 ou 5 anos.

Daquela ponte aprendi que existia um mundo mais vasto que terminava não sei onde. Aprendi a gostar das máquinas e dos homens que as faziam andar. Aprendi, em suma, a gostar da minha terra e a conhecer os seus cantos e encantos.

Maria da Guia Asseiceiro

(1994)

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