Maria da Guia Asseiceiro teve uma coluna no jornal “O Entroncamento” de seu nome “Janela sobre a cidade”, cujos textos voltamos a publicar.
“Retrospetiva”
Rever o passado para reativar o futuro
Antes do desenvolvimento urbano se tornar notado, quando o Entroncamento tinha apenas como ponto de referência um apeadeiro, nada fazia prever que 100 anos depois, fosse cidade.
Só tinha a água que corria nas suas ribeiras e a que brotava dos poços e das nascentes. Era escassa a população de tão inóspito local. Os mais pobres viviam à luz da candeia e os remediados com o candeeiro a petróleo.
Abasteciam-se das hortas, sem praça nem escolas, dependiam em quase tudo da Atalaia e da Barquinha:
– Água fresca! Água da Moita!… – O pregão ecoava longe… A carroça e o carroceiro com as suas vermelhinhas bilhas de barro cheias de água lá as ia vendendo.
Sem raízes culturais e sem força política, o lugarejo parecia trazer consigo a marca do êxito em relação aos concelhos vizinhos com alguns séculos de história. Abandonara o apeadeiro e junto aos cruzamentos de linhas erguera, ao tempo, uma das maiores estações de toda a rede, pois aqui se cruzavam comboios e destinos.
A passos largos e bem ritmados, estenderam-se quilómetros e quilómetros de via-férrea. Ao pequeno aglomerado populacional juntaram-se muitas famílias vindas das províncias para dar o seu contributo ao desenvolvimento da Empresa de Caminhos-de-Ferro (CP) que aqui instala oficinas e escritórios. Quase em simultâneo, pela facilidade dos transportes, importantes unidades militares vêm valorizar de forma ativa uma população heterogénea.
Junto ao primeiro sinal de fé e cultura (a Capela de S. João Baptista) desenvolveu-se a urbe. Criaram-se estruturas: sobre a linha férrea ergueu-se uma ponte, do lado sul a escola velha, do lado norte a do Bairro de Camões. Abrem-se estradas, constroem-se bairros: a Vila Verde, o Boneco e o Altinho. Com uma população ainda reduzida, a passagem de nível estava superprotegida pelo zelo dos respetivos guardas…
Numa singela homenagem, recordo o Ti’Ramos que, excedendo o seu profissionalismo, atravessava pela própria mão as crianças da escola.
Junto à estação, as várias bancas ainda rudimentares, apresentavam ar de festa: fruta, pevides e tremoços. No ar, aquele cheiro característico da castanha assada: – Quentes e boas!… Apregoava-se… – Caramelos e Castanha pilada!
Era a força apelativa entre os que vendiam e os que compravam.
A CP tinha uma forma muito sagaz de proteger a sua estação e os passageiros que a utilizavam. Ninguém entrava nela sem o bilhete previamente comprado, bilhete de destino ou de gare. O controlo de saída também tinha rigor…
Nesta zona os primeiros taxistas, as pensões e as tabernas. A travessa do Zé dos fósforos, as vaginhas e a penitenciária. Ainda deste lado, num barracão da CP, o 1º armazém de víveres e as primeiras lojas de comércio.
As casas de 1º andar eram novidade, o prédio Paris com a sua majestosa arquitetura, um espanto.
Na 3ª terça-feira do mês, com a feira mensal de gado e ainda sob o signo do dia 13 (altura em que a CP pagava aos seus empregados) porque mesmo sendo dia “aziado”, era para os ferroviários o mais desejado. Todos os meses por esta altura tudo chegava ao Entroncamento. Sentiam dinheiro fresco!… Trupes de saltimbancos estendiam uma esteira no chão, prendiam um cão rafeiro e um macaco ao pé de uma mesa desdobrável. Um homem de aspeto pouco saudável rodeado da mulher e muitos filhos, pegava no trompete, ou clarinete, e tocava a melodia mais em voga. Em poucos minutos formava-se um círculo humano e desde a magia ao contorcionismo, das habilidades do cão às macaquices do macaco, tudo era circo.
Aparecia o homem das gravatas, o reclame à banha da cobra, os ourives ambulantes, o homem das faturas… Ouviam-se vozes cantando pelas ruas um fado chorado, contando a quem passava as desgraças, infelicidades, ciúmes e traição.
Os comerciantes locais aproveitavam-se da euforia coletiva tornando-se conhecidos e respeitados.
As infraestruturas tomaram forma, e o Entroncamento adquiriu condições de vida superiores às vilas das quais dependia.
Poucas são as cidades que evoluíram no espaço de duas gerações! O fenómeno que tornou esta realidade possível, facilmente escapa a quem não a viveu…
Maria da Guia Asseiceiro
(1994)




















