PUB

Este viver novo e exigente que estamos a atravessar, imposto pela pandemia inesperada no tempo, mas expectável à luz da ciência e da história, faz-nos viver um cenário até aqui desconhecido, sem acesso aos habituais momentos com a família, os amigos e os vizinhos. Faz-nos estar ausentes da participação nos mais variados momentos, desde os banais aos mais importantes para cada pessoa: dos religiosos aos desportivos, dos culturais aos associativos, entre tantos outros e tão importantes. Das vidas preenchidas, numa lufa-lufa desenfreada, passámos a concentrar a nossa atenção no telemóvel e no computador, para tentarmos chegar ao que pretendemos, trabalharmos como podemos, ajudarmos os filhos como sabemos, vermos, ouvirmos e falarmos com os outros da maneira inovadora que descobrimos, para vivermos para lá das janelas de casa, como conseguimos.

A realidade trouxe-me a falta do beijo e do abraço, trouxe-me a saudade, como a quase todos, creio. Mas a verdade, nua e crua, é que tenho mais medo de amanhã não ter cá aqueles a quem quero dar o beijo e o abraço que ficaram por dar, do que de ficar em casa trancado, se isso os proteger. Perante o medo, resisto. Não podendo substituir este afeto que nos é tão próprio, este tempo faz-nos reinventar e criar outras formas de dizer um simples “olá”. Hoje, o whatsapp, o messenger, o zoom e tantas outras plataformas digitais são a porta aberta – escancarada em alguns casos-, que vamos tendo para chegar ao outro. Enfim, o momento fez-nos mudar o rumo, quase do dia para a noite, alterando as prioridades e obrigando-nos a adaptarmo-nos a uma vivência desconhecida. Ortega y Gasset descreveu, na primeira metade do século passado, aquela que para mim é a mais fiel imagem do ser humano, ao afirmar: “Eu sou eu e as minhas circunstâncias, e se não as salvo, não me salvo a mim.”. Estou certo de que cada um está a encontrar formas de sobreviver, mas ninguém passou a depender só de si para o fazer; pelo contrário, passámos a depender, pelas circunstâncias, muito mais dos outros.

PUB

Não nos podemos enganar em duas coisas fulcrais: nem esta pandemia representa o fim da humanidade, para aqueles que acham que devem propagar a doutrina do medo através de patéticas correntes no facebook (alguns sem consciência dessa maldade), nem vamos ficar todos bem, porque infelizmente já muitos morreram e muitos outros vão padecer, deixando nas suas famílias a sensação única do desaparecimento sem um adeus. Tal como numa guerra, e muitas das nossas famílias sabem bem o que é ter alguém que passou por um campo de batalha no Ultramar, por exemplo, esta vivência marca e vai deixar marcas. Sejamos, portanto, honestos, sem demagogia: esta doença, desconhecida, não nos vai mudar do dia para a noite, não vamos acordar num mundo novo no dia em que terminarem as medidas de confinamento social, nem vamos ser um povo diferente do que éramos até então.

Com todas as situações que conhecemos e que estão a mudar as nossas circunstâncias de vida, com o encerramento forçado de empresas em que os empresários não têm fundos disponíveis que cheguem para os compromissos assumidos, em que o Estado lhes falha mais uma vez, em que o layoff e o desemprego dos trabalhadores originam situações dramáticas de diminuição abrupta de rendimentos, entre tantas outras circunstâncias, chegámos ao momento em que o Estado, essa Entidade que somos todos nós, tem de dar o exemplo mostrando-se próximo e acompanhando aqueles que efetivamente precisam, deixando a demagogia e o politicamente correto. Não podemos fazer-nos de esquecidos, nem tomar decisões imaginando que está tudo bem na maioria das casas dos portugueses, porque não está; nem podemos usar os mesmos métodos de sempre, porque, esses, não só já não chegam, como não resultam. As pancadinhas nas costas, tão tipicamente portuguesas, não resolvem os problemas, pelo contrário, fazem com que se agudizem. É preciso que os nossos políticos sejam líderes e não meros gestores do dia a dia, que tenham a coragem de mudar o paradigma da sua ação. É preciso que não se deixe ninguém para trás, é certo, mas não podem estes tempos continuar a perpetuar a atitude daqueles que sempre viveram de mão estendida, à sombra do assistencialismo do Estado. Este é o tempo de responder a quem precisa, longe dos tribunais das redes sociais e dos pensamentos dos líderes de opinião. Para isto é preciso que os políticos façam duas coisas: em primeiro lugar, que percebam o que se está a passar, decidindo a bem das pessoas; em segundo, que não usem desta circunstância para se autopromoverem em ações estéreis e fúteis, sem conteúdo, sem nenhum outro objetivo que o da visibilidade da sua imagem. Acima de tudo, é tempo de uma nova ordem de conduta, mas, como sabemos, essa mudança vai demorar, encontrando muita resistência num sistema vedado à mudança, só porque sim.

Por agora a palavra de ordem é esta: bem-haja aos profissionais de saúde e às forças de segurança que não nos deixam cair; aos bombeiros e proteção civil que não nos falham; às Instituições e aos grupos informais que se organizam; aos professores que reinventam a sala de aula. Bem-haja àqueles que não param para que as circunstâncias que vivemos sejam as melhores possíveis e para que quando, um dia, alguém perguntar como estávamos, enquanto vivíamos a pandemia, possamos dizer que a ultrapassámos bem, porque as circunstâncias proporcionadas por todos assim o permitiram.

No Entroncamento, sabemos como temos de o fazer: liderando e inovando nas respostas, aceitando as opiniões diferentes e remando todos para o mesmo lado, a bem das pessoas, da cidade e das empresas. A comunidade está pronta, basta que se saiba liderar.

José Baptista

Vereador e Presidente do PSD Entroncamento

Nota: um agradecimento ao EOL – Entroncamento Online, pelo convite para dirigir estas palavras aos leitores, na certeza de que são exemplos como o do Miguel, seu Diretor, que permitem diariamente criar no Entroncamento um espírito de comunidade, pelo seu jornal online que conta com tantos anos de trabalho. Obrigado!

PUB