Para quem veio viver para o Entroncamento mais recentemente o nome pouco lhe diz, e menos ainda a pessoa. Mas, para a velha guarda deste burgo nascido e crescido à beira dos caminhos de ferro, como outros o fizeram à beira de um castelo, numa baía do mar ou na berma de uma estrada, se é verdade que o nome de José Maria Simões Fernandes pouco diz, já o epíteto de Zequinha fala muito. Zequinha era o nome pelo qual toda a gente o tratava, foi uma figura popular, até mesmo típica, no Entroncamento, sobretudo na última metade do século XX. Foi ontem, aos 84 anos, a sepultar na cidade, onde sempre viveu.

José Maria Fernandes nasceu em 1935 no dia de São Martinho, 11 de novembro, e foi registado como natural de Vila Nova da Barquinha, mas o seu berço foi o Entroncamento, quando a então vila ferroviária integrava o concelho barquinhense. Sobretudo nas décadas de 1960 e 1970, o Zequinha era uma figura típica do Entroncamento, que nessa altura as tinha, porque todos se conheciam, e alguns destacavam-se pela visibilidade e exposição da sua profissão, pelo seu carácter mais vernáculo, ou apenas por serem diferente dos outros, e nessa altura ser diferente era metade do caminho para ser um estigma. Ainda me lembro de alguns, que recordo sem dificuldade, até porque eu, como a maioria dos entroncamentenses, mantínhamos naturais e profícuas relações de amizade. Havia o Silvino dos jornais, com os seus pregões cheios de estilo e de síncopes, quando ainda vendia pelas ruas, que percorria de bicicleta, os jornais Século, Diário Popular e Capital empilhados sua sacola debaixo do ombro, o Vilar do quiosque, o Capela que engraxava sapatos à frente de um café na zona da estação, mas nem sempre estava nos seus dias, o inefável Ti Maurício, que com a sua carroça atrelada à Atmosfera era o táxi da miudagem, e nunca alguém lhe conheceu um gesto áspero ou uma palavra azeda, e o agente Graça, um “terror” ambulante, sempre pronto para multas impiedosas e desgraçadas, em tudo contrário à bonomia do senhor Maurício. E havia ainda outros entroncamentenses que iam fazendo o seu tirocínio até ganhar o estatuto de figura típica, um galardão que é sobretudo um reconhecimento do povo. Uns sê-lo-iam pela sua visibilidade profissional, que executavam com relevância, outros pela galhardia física ou por aventuras e basófias incríveis que haviam protagonizado na juventude e que ficaram, com as respetivas alcunhas, tatuadas na pele. E houve ainda homens que ficaram figuras públicas apenas por serem diferentes, alvos de um mundo marialva e de machos alfa, tão impiedosos para quem não alinhava pelos padrões de masculinidade ostensiva, como o Graça era com quem na estrada conduzisse às avessas, fosse um camião TIR, fosse uma simples trotineta sem luz à retaguarda. José Maria Fernandes era Zeca Zeca (ou Tio Zeca) na família, o nome ingénuo com que uma criança um dia o chamou, e a família, por carinho adotou. Mas na rua era o Zequinha, e aí o nome já tinha a sua conotação. Zequinha era diferente, não rivalizava com os outros pela exibição de atributos másculos. Ter a mesma condição dele hoje já não é alvo para ser apontado a dedo apenas por não pertencer ao padrão e à norma. O Zequinha não era assim, tinha uma personalidade diferente, um estilo próprio, um tom de voz distinto, e há algumas décadas não ser normal tinha cicatrizes, consequências e deixava marcas (e eu tenho, aliás, ainda muitas dúvidas sobre isso em relação aos tempos atuais, adiante).
“Ele cantava muito bem, onde encontrava pessoas cantava. Admirava em especial a Madalena Iglésias, tinha um fascínio por ela”, conta-nos Manuela Vieira, a filha do seu irmão Manuel, aquele que mais o compreendia e apoiava. “Eram três rapazes, o Eduardo, o Manuel e o Zeca, o pai não entendia a sua condição e era duro com ele, mas o meu pai, pelo contrário, protegia-o”, acrescenta Manuela Vieira, sublinhando que o trabalho de José Maria foi sempre a vender pão ao domicílio, vendia porta a porta o pão que os pais fabricavam numa padaria. José Maria gostava de Madalena Iglésias, mas também do Benfica, de arroz doce, da sopa quente da mãe de Manuela (que considerava como uma irmã e uma confidente), de parar para conversar em cada esquina, da dobrada do Vila Franca, de rezar, de procissões e de juntar santinhos, de andar de bicicleta com as molas a prender as calças para que não se sujassem, de um íman de um semáforo benzido em Fátima que andava sempre com ele, e da praia da Parede, ninguém sabe porquê, mas tinha uma fixação por esta praia da costa lisboeta, todos anos passava lá as suas férias.

“O meu tio Zeca, ou Zeca Zeca como sempre ouvi a minha mãe carinhosamente tratá-lo, era sem dúvida uma personagem sem igual.
O meu avô Manuel dizia muitas vezes que o irmão tinha sido batizado com uma agulha de grafonola pelas incessantes conversas que tinha, e pelas histórias que estava sempre pronto para contar”, conta a sobrinha-neta Ana Luísa Fernandes. “Sempre que entrava no carro fazia questão de se benzer e de que todos os que com ele viajassem fizessem uma pequena oração. De todas as vezes que passava o Natal connosco adormecia, e quando o acordávamos dizia sempre que não estava a dormir. Cantava as canções da Madalena Iglesias e dizia que podia ter sido um sucesso até porque, como fazia questão de frisar, toda a gente gostava dele”.
“Acho que, no fundo, esse era o seu desejo mais profundo, que todos gostassem dele e que todos o aceitassem. Era extremamente devoto, rezava todos os dias e lembro que sempre que o terço era rezado na rádio, o som tinha de estar no máximo, ouvindo-se na casa da minha avó ali ao lado. Batalhou imenso para que a capela do cemitério estivesse arranjada, e dizia com muito orgulho que tinha contribuído para isso”, acrescenta Ana Luísa Fernandes, fazendo uma reflexão sobre o seu familiar, que sempre passava o Natal consigo. À cunhada “pedia lhe também dez euros emprestados sempre que fazíamos anos para nos dar como prenda; achávamos piada porque afinal, a prenda dele seria apenas o envelope com os dizeres de parabéns e um beijinho”, conta Ana Luísa.
O Zequinha tinha também coisas insólitas, que para o comum dos mortais não faria sentido, mas fazia para ele. Conta a irmã de Ana Luísa, Marta Isabel: “Uma vez demorámos uma hora e parámos sete vezes o carro no caminho, só para ir de uma ponta a outra do Entroncamento, pois fazia questão de cumprimentar todos com quem se cruzasse. Numa outra altura, parou o carro para conversar, sentou se no capot, não puxou o travão de mão, e tivemos de correr para conseguir parar o carro… há muitas outras peripécias assim. Vamos recordá-lo com muita saudade”.
Manuela Vieira também já o recorda com saudade: “Quando lhe falávamos de casar, mudava logo de assunto. Ajudava muito os outros e algumas fundações. Ficar solteiro tornou a sua vida num serviço para os outros. Foi sempre muito religioso e espírito alegre, compadecendo-se outros, rezava pelas suas almas”.
Talvez tivesse sido posto à margem por algumas pessoas, sobretudo depois de se ter tornado dependente e desenvolver um quadro demencial nos últimos anos. Talvez a sua extroversão e a religião fossem também uma capa, um refúgio para resistir a isso. Num dia de maio, o mês que lhe era tão especial, o coração falhou. Fica em paz, amigo.
Manuel Fernandes Vicente
















