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Não raro a memória dos homens comuns também é feita de acontecimentos marcantes que fogem às rotinas do quotidiano. A nossa história do século XX, pródiga em episódios da chamada guerra colonial (expressão carregada de ideologia) também é feita de expedições militares. Nos idos de 50 partiram então para o Estado Português da Índia alguns constancienses e é sobre esse destacamento (D.E.I) que vos queremos dar um breve apontamento.

Partida do Quanza de Lisboa para a Índia. 17/02/1958. O meu saudoso pai é o primeiro da direita e tem a mão direita na cara.

A viagem a bordo do navio patrulha Quanza (foto 1) durou uns imensos trinta e dois dias, tendo a alimentação sido exclusivamente confeccionada com peixe (recordo-me de sempre ter ouvido queixas cá em casa por causa da pescada congelada que se comia nas intermináveis viagens de barco). Arnaldo Corda Caxias era à data Cabo e estava sob as ordens directas do meu saudoso pai, Acácio Alves luz (então Furriel e depois 2º Sargento, ainda na Índia). À conversa com este nosso conterrâneo Caxias, antigo sargento da EPE, pude cruzar alguns dados de memória que retinha e daí este pequeno texto.

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O regresso da Índia foi feito num barco de minério, o Rovuma tendo a tripulação passado por momentos de verdadeira tormenta em alto mar, aterradores. As ondas de cerca de quinze metros de altura atravessavam o barco de um lado ao outro e a todo o momento faziam temer o pior, tendo os tripulantes entregado a sua alma a Deus. Foi um verdadeiro milagre terem escapado. Desses momentos de quase terror sempre ouvi falar com muito respeito. Caxias quase que se transfigura ao rever as ondas assassinas que se ligavam de bombordo e estibordo, ficando-se por uma ou outra afirmação porque a expressão do seu rosto nos basta. Eu não conheço os desígnios divinos mas conheço uma devoção pessoal à Senhora da Boa Viagem, a do meu progenitor o qual na sua criação havia sido bastante influenciado por uma família ateia, a do comerciante Manoel dos Santos Costa (seu tio avô).. Na Índia  o meu saudoso pai viria a pertencer à Obra do Soldado. da qual guardo uma espécie de cartão de filiação Há precisamente 70 anos aconteceu a .«Augusta peregrinação de 11 de Maio de 1950.». De. Constância a Fátima (a pé).. A organização coube à Emília Fona. Dessa peregrinação resta um relato escrito pelo meu pai, a «reportagem» que carinhosamente sempre citava nas nossas conversas.. Fez ontem precisamente sete anos que nos deixou. Lá no etéreo assento, junto à Virgem Mãe, que vele por nós e por este mundo perdido de valores e de gente valorosa.

Vista geral do quartel do Destacamento de Engenharia da Índia. Pondá, 06/12/1959.

No regresso da Índia e – prosseguindo – chegados ao canal de Suez, tiveram de aguardar seis dias por ordem de Salazar. Motivo? A União Indiana tinha invadido o território não-autónomo de Goa, do Estado Português da Índia, sob administração portuguesa (a Constituição Portuguesa havia integrado os territórios no Estado, mas isso é outra história) A todo o momento se aguardava ordem de regresso à Índia. A história acabou por revelar a falta de apoio do Velho Aliado (e nem as decisões do tribunal internacional a nosso favor fizeram mudar os ventos da política dos interesses comuns…). Sobre a invasão militar ouvi histórias na primeira pessoa de um velho amigo, à data sargento, e que vim a conhecer nos anos 90, o capitão Horácio de saudosa memória. Enquanto prisioneiros de guerra os portugueses não terão sofrido grandes represálias dada a sua posição de inferioridade militar e de incapacidade de reacção. A este propósito revelo que o meu saudoso pai era para ter renovado a missão na Índia mas fez uma permuta com outro militar e, assim, já estava ao largo em alto mar quando a invasão acabou por ocorrer.

De Constância, Simplício, profissão carpinteiro, muito se falava em Pondá. O seu nome estava escrito na oficina do quartel e era famoso. Quem o conheceu sabe que era um excelente artífice. Simplício Silva tinha uma casa dentro do quartel e outra fora da portas. Permaneceu por lá cerca de quatro anos. Da Praia terá partido consigo para a Índia um membro da família Parracho. Isaac Boiadas, da Roda, terá sido camarada de armas do meu pai, em Pangim. Conheci pessoalmente outro sargento do D.E.I, já como capitão, de nome Ferrão, que tinha trabalhado com o meu pai.

A estrela e o pedaço de mar ali estão perpetuados na igreja matriz no altar de Nossa Senhora da Boa Viagem. A lembrar o altar original da Boa Viagem, da Capela de São João

A camaradagem dos antigos expedicionários da Índia foi uma constante e a servir de prova temos aí os sucessivos encontros anuais de convívio.

É! A tropa moldou-nos a todos. Também a nós. Por muitos anos. A instituição castrense só tem paralelo com a Igreja. Ambas são estruturantes na Nação. O sentimento de camaradagem, na adversidade, no perigo, em tempo de paz, é uma constante.Perderam-se esses valores pátrios..

A defesa do Império exigiu sacrifícios às famílias, desde logo, a separação dos maridos das mulheres e dos filhos. Uma, duas e três vezes, ou mais. Com o 25 de Abril houve uma mudança de rumo radical na política ultramarina ( que não estava na mente do MFA).

A história da divisão física das famílias está para além das revoluções e… por escrever…

Ocorreu-me citar por instantes o célebre banquete de trovas que Camões ofereceu à pequena nobreza da velha Punhete, na sede oriental do Estado da Índia, viajada de Punhete até Goa, com quatrocentos anos a separá-los do velho Quanza.

Ocorre-me ainda citar o soneto  CCL atribuído a Camões e do qual  Faria e Sousa nos dá conta ter sido sido dedicado a Nossa Senhora dos Mártires. Esta devoção  mariana de Constância (então Punhete)  era muito famosa no tempo do poeta e do seu alegado desterro na nossa terra.

Na obra de Fernão Álvares do Oriente, Lusitânia Transformada  (haverá um Fernão Álvares de Punhete a estudar em Coimbra contemporâneo destes factos- há investigadores neste pé) publicada em 1608, parece haver eco da desta invocação local mariana. O relato dos acontecimentos atinentes à viagem do Oriente (do autor) preenche cerca de um terço de todo o universo narrativo do livro (novela). Dá-se o caso da narrativa surgir precisamente no contexto de uma romaria dos pastores. Precisamente a um templo de Nossa Senhora.

Um estudo apurado poderá trazer-nos mais luz sobre o assunto. Entre as máscaras dos pastores e o plano da história – ficção versus realidade – o poeta vai edificando a sua obra, num modelo permeável é certo, mas onde se podem sempre encontrar dados biográficos, geográficos, históricos. Esse empresa não é de subestimar. É um desafio aos eruditos ou na falta deles, é uma aventura de nós outros… Certa parece ser a identificação da personagem Urbano com… Camões (estudos de António Cirurgião).  O cenário da acção principal é a zona de Constância e do Nabão.  Estou mesmo a  ver os «pastores» regressados da Índia a cantar louvores à Senhora e a oferecer pés e mãos de cera, quais promessas da «Boa Viagem». E assim Camões terá perpetuado em versos elementos sobre estoutra devoção mariana (?). A estrela e o pedaço do mar ainda existentes no actual tempo, daquele outro sucedâneo, inspiram-nos esta conjectura. Dos «monstros do mar» e de outros «muito maiores monstros» se confessou o poeta à Senhora, pela Boas Viagens (?) É ver o soneto. Se tanto vos causar interesse…

José Luz (Constância)

PS – tenho um vídeo com uma longa conversa com o meu pai sobre tudo isto mas o mesmo não foi utilizado para este texto. Baseie-me por ora no testemunho do sargento Caxias e em factos que me contaram e de que me recordo.

Dedico este texto ao meu saudoso pai e ao Sargento Caxias e família,  bem como à família do Simplício.

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