Maria da Guia Asseiceiro teve uma coluna no jornal “O Entroncamento” de seu nome “Janela sobre a cidade”, cujos textos voltamos a publicar.
“FÉRIAS!”
Um direito, um privilégio ou uma necessidade?
Há cerca de cinquenta anos, para mim, ir para a praia era um privilégio. Dez anos depois, férias além da praia era a alegria do reencontro com amigos habituais, sempre na mesma época do ano: férias escolares, férias grandes! Mais uma dúzia de anos passados, as férias tinham um peso e um significado bem diferentes…
-Posso ter férias este ano? Tenho mesmo necessidade delas!… Planeava, fazia cálculos, escolhia itinerários e decidia depois de ponderados os prós e os contras. Só então me apercebi que durante muitos anos fui privilegiada em relação às minhas companheiras de escola, a maior parte delas nunca tinham visto a imensidão do mar nem brincado com as areias da praia. Até a minha Avó curvada pelo esforço do trabalho e pelo peso dos anos, nunca teve férias nunca viu o mar…!
Estas situações levaram-me a observar os vários critérios de justiça social.
No campo o trabalho era de sol a sol e a féria era o resultado desse trabalho. Férias sinónimo de descanso, sabia-se lá o que era!
No Entroncamento a C.P. dava férias aos seus empregados, mas como o ordenado auferido era curto e o mês comprido, este período de descanso tinha u- perguntava desolado, o meu filho…m destino certo: “Vou para a Terra”, diziam.
Era um êxodo! Aqui apenas ficavam os que aqui nasciam e de cá eram naturais. Todos os anos eu via o ar desolado dos meus filhos, sem amigos…
– Mãe, porque é que a gente não tem terra?! – perguntava desolado, o meu filho…m destino certo: “Vou para a Terra”, diziam.
Nas décadas de 50, 60 falava-se em subsídio de férias… Muitos riam, alguns acreditavam, quase todos duvidavam. De facto, este benefício foi consignado na lei: empresas privadas primeiro e na C.P. depois.
Do Acordo Colectivo de Trabalho entre a Companhia dos Caminhos de Ferro e os Sindicatos dos Ferroviários do ano de 1969, Capitulo II, Cláusula 107ª, pode ler-se: “… Será concedido aos agentes com mais de um ano de serviço no início das férias, um subsídio igual a cinquenta por cento da retribuição correspondente ao total dos dias de férias a que nesse ano tinham direito…”.
Só em 1975 no Acordo Colectivo de Trabalho da Empresa, na Cláusula 102ª “… Os trabalhadores receberão um subsídio não inferior à retribuição mensal a que têm direito…”.
Independentemente da ajuda que este subsídio trouxe às famílias portuguesas e ao direito que a todos assiste de fazerem uma pausa para recuperarem forças, para olharem a família com tranquilidade, ainda assim subsiste muita injustiça social!
O subsidio de férias é, como acabámos de ver, um direito, mas se analisarmos em profundidade deparamo-nos muito simplesmente com isto: muitas dezenas de milhares de desempregados; alguns milhares metidos em prisões e hospitais… e se calhar um número ainda maior de pessoas que não estando num lado nem noutro, não fazem parte da população activa. Então, temos de, muito honestamente, reconhecer que, Férias são um privilégio do qual só alguns podem usufruir.
Porque vivemos num tempo sem tempo para coisa nenhuma, porque se corre os 365 dias do ano sem reparar que os grilos ainda grilam e as cigarras ainda cantam, porque os meninos vão para os Jardins de Infância e os idosos se arrumam nos Lares, é imperioso e urgente ter férias para repensar tudo isto.
É a correr que se come, é a correr que se cumprimenta um amigo, é assim que se responde às muitas interrogações das nossas crianças… É assim que se passeia ou se reza.
Em férias é possível descansar, conviver calma e serenamente; há a possibilidade de, ao darmos um passeio, admirar o desabrochar de uma flor e contemplar o azul do céu.
Férias é dar tréguas à vida.
Férias são, além dum direito, uma necessidade de todo o ser humano.
Maria da Guia Asseiceiro
(1994)




















