{"id":8236,"date":"2019-06-15T21:47:39","date_gmt":"2019-06-15T20:47:39","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=8236"},"modified":"2019-06-15T21:48:04","modified_gmt":"2019-06-15T20:48:04","slug":"entroncamento-ou-o-fado-da-aldeia-que-ja-nasceu-cidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/entroncamento-ou-o-fado-da-aldeia-que-ja-nasceu-cidade\/","title":{"rendered":"MANUEL FERNANDES VICENTE | Entroncamento ou o fado da aldeia que j\u00e1 nasceu cidade"},"content":{"rendered":"<figure id=\"attachment_1176\" aria-describedby=\"caption-attachment-1176\" style=\"width: 234px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-1176\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2018\/12\/ManuelVicente.jpg\" alt=\"\" width=\"234\" height=\"228\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-1176\" class=\"wp-caption-text\">Manuel Fernandes Vicente manuelvicente@entroncamentoonline.pt<\/figcaption><\/figure>\n<p>Num per\u00edodo do ano em que as festas da cidade est\u00e3o a\u00ed, e se conjugam por uma feliz coincid\u00eancia com as celebra\u00e7\u00f5es populares em honra de S\u00e3o Jo\u00e3o Batista, h\u00e1 sempre um pretexto acrescido para refletir um pouco sobre a singular origem do Entroncamento, e tamb\u00e9m sobre a estranha forma em como se desenvolveu a partir do efeito \u00e2ncora fundado precisamente no seu nascimento.<\/p>\n<p>Numa perspetiva formal, o Entroncamento \u00e9 cidade desde 20 de junho de 1991, veste portanto a brilhante mitra urbana, que contempla as urbes com melhores fun\u00e7\u00f5es e maior prest\u00edgio, faz agora 28 anos. E foi-o numa \u00e9poca em que, presidido o executivo municipal por Jos\u00e9 Pereira da Cunha, o concelho teve uma semana <em>vintage<\/em>: com poucos dias de intervalo foi desbloqueada a cria\u00e7\u00e3o de um Museu Nacional Ferrovi\u00e1rio (que teria a sede no Entroncamento), anunciou-se publicamente que o terminal portugu\u00eas do TGV (<em>Train \u00e0 Grande Vitesse<\/em>) seria nas imedia\u00e7\u00f5es do nosso burgo e, por fim, a vila ferrovi\u00e1ria era elevada a cidade, curiosamente ap\u00f3s a aprova\u00e7\u00e3o-surpresa de uma proposta nesse sentido na Assembleia da Rep\u00fablica a que a autarquia e as for\u00e7as sociais e institucionais do munic\u00edpio foram, em absoluto, alheias.<\/p>\n<p>Mas se do ponto de vista institucional o Entroncamento \u00e9 cidade h\u00e1 menos de tr\u00eas d\u00e9cadas, a verdade \u00e9 que, de um ponto de vista demogr\u00e1fico, social e cultural, \u00e9 uma cidade h\u00e1 muitas mais d\u00e9cadas. Para ser mais preciso, \u00e9-o desde a sua funda\u00e7\u00e3o f\u00edsica numa zona que os investigadores consideraram na altura algo pantanosa, e onde D. Jos\u00e9 de Salamanca determinou que se cindisse em dois o tro\u00e7o ferrovi\u00e1rio proveniente de Lisboa: um que se dirigiria rumo ao norte e \u00e0 Cidade Invicta, e o outro em dire\u00e7\u00e3o ao leste e ao Alto Alentejo.<\/p>\n<p>O Entroncamento nasceu naturalmente \u00ednfimo, mas a sua matriz fundacional ferrovi\u00e1ria era j\u00e1 a de uma cidade. Teria de ser assim, geneticamente urbana, prolet\u00e1ria, moderna e cosmopolita (tanto quanto se poderia ser dessa forma nessa altura), e come\u00e7ava no s\u00e9culo XIX, com o \u00edmpeto da Revolu\u00e7\u00e3o Industrial e sem ter passado pelos s\u00e9culos anteriores. Em poucas d\u00e9cadas o arcaico Entroncamento da Ponte da Pedra e o Casal das Vaginhas come\u00e7aram a acolher a saga dos camponeses an\u00f3nimos que deixavam para tr\u00e1s a condena\u00e7\u00e3o lenta na lavoura das suas terras para procurar as promessas de uma vida menos m\u00e1 que descortinavam nos caminhos de ferro e entre os silvos das velhas locomotivas a vapor. E foram chegando rumo ao novo burgo. Vinham sobretudo da Beira Baixa e do Alto Alentejo, mas tamb\u00e9m da linha do Norte, das pr\u00f3prias comunidades por onde o comboio havia desbravado o caminho para facilitar a troca de pessoas, de bens e de ideias. \u00c0 nova comunidade ferrovi\u00e1ria, e para fazerem parte dela, chegaram as gentes de Tramagal, Abrantes, Bemposta, Crato, Santa Eul\u00e1lia e Elvas, de Mouriscas, Fratel, Benqueren\u00e7as, Vila Velha de R\u00f3d\u00e3o, Castelo Branco e Fund\u00e3o, e tamb\u00e9m da Lamarosa at\u00e9 Pombal. Chegaram, por outro lado, v\u00e1rios t\u00e9cnicos e quadros superiores provenientes de outros pa\u00edses da Europa (como o atestam, por exemplo, os nomes de Sozzi, Poitout, Alfaro) e lavradores transformados em prolet\u00e1rios das povoa\u00e7\u00f5es mais pr\u00f3ximas. O Entroncamento atra\u00eda ind\u00edgenas de muitas geografias, costumes, culturas e condi\u00e7\u00f5es econ\u00f3micas, no fundo todos os que tinham aceitado o desafio de abandonar as suas zonas de conforto das velhas tradi\u00e7\u00f5es rurais ou n\u00e3o (no Alentejo, Beira Baixa, Norte, Espanha, Fran\u00e7a ou It\u00e1lia), e procuraram um modo de vida que julgavam ser melhor para si. E \u00e9 no acolhimento que faz destas pessoas que para c\u00e1 se vazam que o burgo ferrovi\u00e1rio melhor espelha os sinais da sua urbanidade, bem demonstrada n\u00e3o s\u00f3 na sua planifica\u00e7\u00e3o urbana ortogonal como numa arquitetura funcional e sem barroquismos, onde a CP e os loteadores que se seguiram optam por criar uma arquitetura gen\u00e9rica e sem hist\u00f3ria, e um ambiente urbano com apenas dois ou tr\u00eas modelos para moradias (e, mais tarde, pr\u00e9dios de apartamentos) e uma planifica\u00e7\u00e3o que j\u00e1 se poderia considerar suburbana <em>avant la lettre<\/em>. Nada de casas personificadas (talvez s\u00f3 o Pr\u00e9dio Paris, demolido h\u00e1 cerca de tr\u00eas d\u00e9cadas, e mais dois ou tr\u00eas edif\u00edcios morgados), nem edif\u00edcios sa\u00eddos de imagina\u00e7\u00f5es criativas. Projetar habita\u00e7\u00f5es em s\u00e9rie e construir ruas de edif\u00edcios que se mimetizavam era mais barato n\u00e3o s\u00f3 a quem concebia os projetos como a quem comprava ou ganhava o direito de os habitar. Mas havia ainda um outro aspeto que estava presente nesta paisagem dominada pela uniformidade e por um certo monolitismo urbano. E \u00e9 este o ponto que melhor sustenta a minha perspetiva de o Entroncamento j\u00e1 ter nascido cidade. \u00c0 povoa\u00e7\u00e3o emergente chegavam (como, de resto, ainda hoje sucede) pessoas de todo o pa\u00eds para trabalhar, e era necess\u00e1rio construir um ambiente urbano homog\u00e9neo e sem particularidades culturais e especificidades geogr\u00e1ficas, onde ningu\u00e9m se sentisse exclu\u00eddo por preconceitos sociais, \u00e9tnicos ou pelas suas condi\u00e7\u00f5es de origem. A ideia era a de integrar toda a gente em unidades residenciais semelhantes, e isso contribuiria bastante para um ambiente urbano integrado que n\u00e3o suscitasse preno\u00e7\u00f5es, rivalidades e bairrismos at\u00e1vicos ou complexos etnogeogr\u00e1ficos. A falta de diversidade urbana, por exemplo nos bairros ferrovi\u00e1rios, era \u00f3bvia e at\u00e9 um pouco entediante. Mas o prop\u00f3sito dos loteadores era outro: criar espa\u00e7os homog\u00e9neos e impessoais, de pouco afeto e muita efic\u00e1cia, capazes de apagar as diferen\u00e7as de origem e gerar um ambiente ass\u00e9tico, indiferenciado e citadino. No fundo, uma certa vis\u00e3o de modernismo e linearidade, que mais tarde se ampliaram em bairros sem qualquer defini\u00e7\u00e3o arquitet\u00f3nica em que o talento dos construtores se esgotou invariavelmente na arte de maximizar o aproveitamento de todos os espa\u00e7os para a constru\u00e7\u00e3o (com pre\u00e7os competitivos em rela\u00e7\u00e3o a Tomar, Torres Novas e Abrantes). Toda esta realidade, conjugada com o efeito de o Entroncamento se ter tornado gradualmente numa cidade-p\u00eandulo com Lisboa, foi atraindo numerosas fam\u00edlias jovens, e foi criando para a cidade na d\u00e9cada de 1970 a m\u00e1 fama de \u201cincha\u00e7o urbano\u201d e de \u201cReboleira do Ribatejo\u201d.<\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/entroncamento-ou-o-fado-da-aldeia-que-ja-nasceu-cidade\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Num per\u00edodo do ano em que as festas da cidade est\u00e3o a\u00ed, e se conjugam por uma feliz coincid\u00eancia com as celebra\u00e7\u00f5es populares em honra de S\u00e3o Jo\u00e3o Batista, h\u00e1 sempre um pretexto acrescido para refletir um pouco sobre a singular origem do Entroncamento, e tamb\u00e9m sobre a estranha forma em como se desenvolveu a [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":21,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[55,66],"tags":[],"class_list":{"0":"post-8236","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","6":"category-cronica","7":"category-manuel-fernandes-vicente"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8236","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=8236"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/8236\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=8236"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=8236"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=8236"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}