{"id":76905,"date":"2026-09-28T18:53:11","date_gmt":"2026-09-28T17:53:11","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=76905"},"modified":"2026-09-28T18:53:11","modified_gmt":"2026-09-28T17:53:11","slug":"cronica-da-barquinha-por-fernando-freire-os-caminhos-da-neve-ate-lisboa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/cronica-da-barquinha-por-fernando-freire-os-caminhos-da-neve-ate-lisboa\/","title":{"rendered":"Cr\u00f3nica da Barquinha por Fernando Freire &#8211; &#8220;Os Caminhos da Neve at\u00e9 Lisboa&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-76910\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/1-2-800x533.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"533\" srcset=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/1-2-800x533.jpg 800w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/1-2-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/1-2-630x420.jpg 630w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/1-2-696x464.jpg 696w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/1-2-1068x712.jpg 1068w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/1-2.jpg 1326w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"center\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: small;\"><b>Po\u00e7o de neve do Coentral<\/b><\/span><\/span><b style=\"font-size: small; font-family: 'Times New Roman', serif;\">Fotografia de Jo\u00e3o Almeida Fotografia &#8211; @joaoalmeidaphoto<\/b><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Os Filipes (de Espanha), que tanto nos levaram, deixaram pelo menos c\u00e1 tr\u00eas modas: a dos trajes negros, a dos coches e a da neve. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Versa a presente cr\u00f3nica sobre esta \u00faltima moda, \u201ca neve\u201d. Parece ser muito antiga, devendo-se possivelmente aos \u00e1rabes a iniciativa de a comercializar.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">\u201cA neve vendia-se, ent\u00e3o, nas ruas da capital \u00e0 cabe\u00e7a dos vendedores, homens ou mulheres. Apitos ou assobios anunciavam aos encalmados a refrescante mercadoria&#8230; o gosto de tomar neve fez-se moda. \u00c1gua gelada, chiando nos pucarinhos de barro, era uma gulodice cortes\u00e3 das tendas dos doceiros da Rua Nova da Confeitaria, da Rua do Saco, das antec\u00e2maras do Pa\u00e7o e dos sal\u00f5es fidalgos. O fornecimento fazia-se de maio a setembro, mas os contratadores faltavam ami\u00fade \u00e0s obriga\u00e7\u00f5es tomadas. &#8230; Em 1671, o neveiro, Ant\u00f3nio Correia deixou de a vender. Era tanta gente que lhe assaltava a loja, que teve de vir um soldado guardar-lhe a porta para manter os compradores a respeito\u2026 desconfio que foi a neve que iniciou em Portugal a institui\u00e7\u00e3o da \u201cbicha\u201d. J\u00e1 nesse tempo se usava gelo para tratamento de doentes com obriga\u00e7\u00e3o de fornec\u00ea-lo para o Hospital de Todos os Santos.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">O sorvete, que foi uma gl\u00f3ria do velho Martinho da Arcada, j\u00e1 se apreciava igualmente! Os sorvetes vendiam-se nem em copos ou ta\u00e7as de vidro como hoje, mas em x\u00edcaras. O lim\u00e3o era mais barato o de alm\u00edscar era caro, o de coral era car\u00edssimo.\u201d <\/span><sup><span style=\"font-size: medium;\">1<\/span><\/sup><\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Em Portugal, o of\u00edcio dos neveiros ter\u00e1 conhecido o apogeu durante o s\u00e9culo XVIII, mas h\u00e1 not\u00edcia da atividade dos contratadores da neve desde os princ\u00edpios do s\u00e9culo XVII certamente devido \u00e0 visita do monarca Filipe III de Espanha. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Outrossim, Tirso de Molina, autor dram\u00e1tico espanhol, que viveu de 1583 a 1648, referindo-se a Lisboa, comp\u00f4s no &#8220;Burlador de Sevilha&#8221;: <\/span><span style=\"font-size: medium;\"><i>nieve da serra da estrela que por las calles apitos puesta sobre las cabazas la vendem<\/i><\/span><span style=\"font-size: medium;\"> \u2026\u201d<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Certo \u00e9 que com a chegada dos Reis espanh\u00f3is ao trono de Portugal a moda de consumir neve pegou na capital do reino. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">A neve era a designa\u00e7\u00e3o corrente para sorvetes, carapinhadas e outras iguarias do g\u00e9nero. Mas tamb\u00e9m, decerto, para a conserva\u00e7\u00e3o e refrescamento de outros bens de consumo do ser humano e utiliza\u00e7\u00e3o na sa\u00fade p\u00fablica.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">As Serras da Estrela e da Lous\u00e3, devido \u00e0 sua localiza\u00e7\u00e3o, eram territ\u00f3rios de grandes nev\u00f5es. Esta circunst\u00e2ncia foi aproveitada no final do S\u00e9c. XVII e no S\u00e9c. XVIII, para no local proceder \u00e0 sua recolha e armazenagem, com o objetivo de chegar ao consumidor final, \u00e0 capital do Reino.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Depois da sua apanha, a neve, era comprimida em po\u00e7os cobertos de xisto, cov\u00f5es abertos em fraguedos serranos, com uma porta voltada a nascente para que o efeito dos raios solares fosse diminuto sobre o designado neveiro. Toda a \u00e1rea de armazenamento era coberta com palha.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">O respons\u00e1vel pelas infraestruturas locais de dep\u00f3sito da neve, conserva\u00e7\u00e3o, manuten\u00e7\u00e3o e transporte da serra at\u00e9 aos portos do tejo, de Barquinha at\u00e9 Lisboa, era o Neveiro Real.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-76908\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/2-1.png\" alt=\"\" width=\"172\" height=\"288\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"center\"><em><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: small;\"><b>Lanches, Cerveja e Neve &#8211; Rua da Prata, Lisboa, na Pastelaria Pomona<\/b><\/span><\/span><\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\" align=\"center\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">O gelo produzido na serra da Lous\u00e3 (Coentral e em Santo Ant\u00f3nio da Neve), era transportado, por via terrestre, em cavalgaduras ou carros de bois, e em barcos di\u00e1rios, os designados \u201cbarcos da neve\u201d que saiam do porto da Barquinha, em descenso, at\u00e9 \u00e0 capital.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Lembro que os transportadores tinham prorrogativas reais nas v\u00e1rias portagens e, inclusive, prefer\u00eancia nas travessias fluviais entre o porto da Barquinha e de Lisboa.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Na altura do calor a neve era fendida em grandes blocos, muito bem embrulhada em palha e isolada do calor exterior para que n\u00e3o derretesse pelo caminho. \u201cO gelo &#8211; amontoada em pequenos mont\u00edculos ser\u00e1 depois acartada em cestas, \u00e0s costas, at\u00e9 ao po\u00e7o de gelo mais pr\u00f3ximo. Nada \u00e9 deixado ao acaso, para que o gelo resultante seja da melhor qualidade. Limpo, cristalino e sem impurezas. Liberto de gostos e dissabores\u2026 H\u00e1 que arrebanhar a maior quantidade poss\u00edvel de neve enquanto se mant\u00e9m solta e l\u00edmpida, e depois guard\u00e1-la naquelas cavidades profundas, onde ser\u00e1 compactada at\u00e9 se transformar em gelo. Tapado por palha e fetos, o gelo permanecer\u00e1 ali at\u00e9 ao final da primavera, in\u00edcio do ver\u00e3o, altura em que ser\u00e1 ent\u00e3o cortado em grandes blocos e transportado em carros de bois, pela serra, at\u00e9 Const\u00e2ncia e Barquinha de onde embarcar\u00e1, rio abaixo, desta feita at\u00e9 Lisboa, aos armaz\u00e9ns do Martinho da Arcada, e outros de menor nomeada, para deleite de senhores e senhoras\u201d.<\/span><sup><span style=\"font-size: medium;\">2<\/span><\/sup><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-76909\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/3-1-800x542.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"542\" srcset=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/3-1-800x542.jpg 800w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/3-1-768x520.jpg 768w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/3-1-620x420.jpg 620w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/3-1-696x471.jpg 696w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/3-1-1068x723.jpg 1068w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/3-1.jpg 1091w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\" align=\"center\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: small;\"><b>Fotografia da Hemeroteca Municipal de Lisboa<\/b><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Face \u00e0 procura do bem comercial gelo e \u00e0s dif\u00edceis condi\u00e7\u00f5es de acesso nas Serras da Lous\u00e3 e da Estrela, os contratantes come\u00e7aram a dar privil\u00e9gio \u00e0 Serra de Montejunto, \u00e0s portas da capital. Em 1741, foi a\u00ed constru\u00edda a Real F\u00e1brica do Gelo para colmatar as falhas de fornecimento da Serra da Lous\u00e3 e da Estrela. Quando chegavam os dias mais frios enchiam-se os tanques com \u00e1gua e esperava-se que, durante a noite, o frio a congelasse, formando o gelo. Posteriormente, era embalado e transportado por animais devido ao declive da serra. Quando existiam condi\u00e7\u00f5es no relevo passava para carro\u00e7as que o levavam at\u00e9 aos \u00abbarcos da neve\u00bb, do porto da Vala do Carregado, e seguiria, via fluvial, at\u00e9 \u00e0 capital do reino. A f\u00e1brica esteve em atividade at\u00e9 finais do s\u00e9culo XIX.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">A procura era imensa e apesar do \u201crefor\u00e7o\u201d da neve da Serra de Montejunto muitas vezes, devidos \u00e0s condi\u00e7\u00f5es climat\u00e9ricas dos anos mais quentes, ela escasseava ou esgotava na cidade de Lisboa.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-76911\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/4-1-800x558.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"558\" srcset=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/4-1-800x558.jpg 800w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/4-1-768x536.jpg 768w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/4-1-602x420.jpg 602w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/4-1-696x486.jpg 696w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/4-1-100x70.jpg 100w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/4-1.jpg 963w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/p>\n<p align=\"center\"><em><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: small;\"><b>Movimento fluvial na Barquinha \u2013 Fotografia do Arquivo Municipal<\/b><\/span><\/span><\/em><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><b>A estrada entre a Barquinha e Segade \u2013 Lous\u00e3 <\/b><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">No nosso territ\u00f3rio existiu a antiga estrada romana que ligava Scalabis (Santar\u00e9m), Sellium (Tomar) e Conimbriga (Coimbra). Na cr\u00f3nica de Dom Fernando refere-se que o infante Dom Jo\u00e3o partiu um dia de Alcanh\u00f5es, teria passado pela Cardiga, a caminho de Tomar, men\u00e7\u00e3o que confirma a exist\u00eancia de uma estrada que ligava ambos os termos. Depois de chegar a Tomar parte ele para Coimbra, passando por Espinhal, onde dormiu, Foz de Arouce (a 7 Km de Segade) e Almalaguez <\/span><sup><span style=\"font-size: medium;\">3<\/span><\/sup><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Compulsando a legisla\u00e7\u00e3o r\u00e9gia encontramos relatos de 10 de setembro de 1861, p\u00e1g. 328, do Di\u00e1rio de Lisboa, onde \u00e9 refor\u00e7ada a verba para a manuten\u00e7\u00e3o da estrada Barquinha, Thomar, Miranda do Corvo e Foz de Arouce. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Em 1909, a estrada real n.\u00ba 51 ligava a Barquinha a Segade, e ali procede-se \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de um lan\u00e7o entre Semide e Pedreira, conforme imagem abaixo.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-76906\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/5.jpg\" alt=\"\" width=\"573\" height=\"577\" srcset=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/5.jpg 573w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/5-417x420.jpg 417w\" sizes=\"auto, (max-width: 573px) 100vw, 573px\" \/><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Alexandre Herculano, nomeado comiss\u00e1rio r\u00e9gio para a inventaria\u00e7\u00e3o do patrim\u00f3nio documental do Pa\u00eds, disperso, abandonado e a saque nos cart\u00f3rios dos extintos conventos, inicia a sua peregrina\u00e7\u00e3o no porto da Barquinha, no dia 14 de junho de 1853. A comitiva faz-se a caminho a cavalo, como meio de transporte convenientemente indicado para o vencimento dos escolhos e dificuldades das localidades a percorrer. A comitiva quando chega \u00e0 Lous\u00e3, desloca-se \u00e0 serra, provavelmente em demanda de um conventinho ali perdido e \u00e9 ent\u00e3o que depara com os po\u00e7os nas proximidades, destinados \u00e0 recolha da neve. \u201c<\/span><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><i>Dia 20 de Julho: Viagem \u00e0 serra da Lous\u00e3. Ajunta-se a caravana na aldeia do Fiscal, nas faldas da serra. Vista cortada pelo nevoeiro para o norte. Passeio at\u00e9 \u00e0 montanha da neve. Os dep\u00f3sitos \u2013 uma ermida; absurdo de um templo no cume de uma montanha. As duas montanhas est\u00e3o unidas por uma lomba de onde nascem duas ribeiras em sentido oposto para poente e nascente e que divide os tr\u00eas concelhos de Lous\u00e3 no noroeste e norte, o de G\u00f3is ao nascente e o de Figueir\u00f3 ao sul e sudoeste. As montanhas s\u00f3 de mato rasteiro. Os po\u00e7os de neve num rec\u00f4ncavo: como se vai derretendo em volta dos po\u00e7os e dando uma fonte perene: como a apanham mulheres: chegou este ano em fevereiro, a 14 p\u00e9s de altura no rec\u00f4ncavo. \u00c9 transportada em carros para a Barquinha. Modo singular de descerem os carros com mato do alto da serra: o juntar no barrac\u00e3o junto ao po\u00e7o e o sorvete preparado ali<\/i><\/span><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">.\u201d<\/span><\/span><b> <\/b><sup><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">4<\/span><\/span><\/sup><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Segundo Ant\u00f3nio Rold\u00e3o foi p\u00fablico, at\u00e9 aos anos setenta, a presen\u00e7a de um marco da estrada de neveiros entre a Barquinha e Segade (Miranda do Corvo). Mais, precisamente, o 1.\u00ba marco perto da ag\u00eancia da Caixa Geral de Dep\u00f3sito (junto do ent\u00e3o designado pr\u00e9dio do ferro de engomar) e o 2.\u00ba marco era presente antes de chegarmos \u00e0 antiga cer\u00e2mica Moinho de Vento. Em tal documento f\u00edsico estavam inscritas as dist\u00e2ncias e as designa\u00e7\u00f5es das duas localidades. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Esta estrada real ou de neveiros, era igualmente frequentada para muitas outras atividades sem ser a neve. Lembro que o porto da Barquinha, nos primeiros anos do s\u00e9culo XIX, tinha um enorme movimento comercial. Por ali passava todo o com\u00e9rcio que ia e vinha das Beiras para Lisboa e de Lisboa para as Beiras, pois as popula\u00e7\u00f5es que ficavam entre o Z\u00eazere e Mondego \u2013 por n\u00e3o haver ponte \u2013 faziam por este porto o seu com\u00e9rcio.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">As mercadorias transacionadas eram, essencialmente, neve, madeira, sal, arroz, azeite, peixe, carne e tecidos de algod\u00e3o. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Era tal o apogeu que s\u00f3 a exporta\u00e7\u00e3o do concelho de Our\u00e9m para o porto da Barquinha \u201c<\/span><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><i>de azeite, aguardente e madeiras, era em transporte de carros e cavalgaduras, e o c\u00e1lculo com respeito aos carros, \u00e0s cargas, e seu valor, foi deste modo estimado com respeito \u00e0 estrada, somente do Furadouro ou na dire\u00e7\u00e3o da Villa da Barquinha, porto da via fluvial do Tejo mais frequentado. Passavam uns 50 carros por semana levando cada um termo m\u00e9dio 4 d\u00fazias de t\u00e1buas de solho, dando resultado no ano, 2600 carros, com 10400 d\u00fazias de tabuas, sendo o pre\u00e7o da venda de cada d\u00fazia, 1$000 r\u00e9is, \u00e9 valor transportado do concelho para a Barquinha de 10\u00a0400$00 r\u00e9is. N\u00e3o \u00e9 contada a madeira conduzida por outras estradas, ou seja, em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 mesma Villa, ou para outra parte e a que \u00e9 conduzida em cavalgaduras, etc<\/i><\/span><\/span><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">.\u201d <\/span><\/span><sup><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">5<\/span><\/span><\/sup><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Naquele tempo, segundo factos hist\u00f3ricos, entravam no nosso concelho milhares de carros de bois por ano, facto demonstrativo da pujan\u00e7a comercial de Vila Nova da Barquinha. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Verificamos no relato acima que s\u00f3 do Furadouro (Our\u00e9m) chegavam \u00e0 Barquinha 2600 carros por ano. Deste movimento mercantil se socorreu o 1.\u00ba presidente da c\u00e2mara da Barquinha, Manuel Henriques Pir\u00e3o para em 1837, introduzir portagens \u00e0 entrada da Barquinha cobrando 20 r\u00e9is por carro de bois. Assim, equilibrou as finan\u00e7as municipais e, com essa receita, construiu os Pa\u00e7os de Concelho e Casas da cadeia da novel Vila. Certamente muitas das pedras daquele edif\u00edcio s\u00e3o resultado do esfor\u00e7o de muitos trabalhadores neveiros das povoa\u00e7\u00f5es de montanha, bem como, de almocreves, arrais e mar\u00edtimos. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Com a introdu\u00e7\u00e3o da refrigera\u00e7\u00e3o artificial, em meados do S\u00e9c. XIX, pararam as mem\u00f3rias e os movimentos regulares no tocante a t\u00e3o frescas mat\u00e9rias naturais, entre outras, de sorvete de leite e de morango feitos \u00e0 base de neve. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">O passado ficou para tr\u00e1s. A estrada real n.\u00ba 51 Barquinha-Segade deixou de ser a de neveiros, mas qu\u00e3o agrad\u00e1vel foi descobrir num marco de estrada \u00e0 sa\u00edda da Barquinha o testemunho dos nossos antepassados e a alma deste lugar que por for\u00e7a das circunst\u00e2ncias me acolheu. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-76907\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/6-800x292.png\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"292\" srcset=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/6-800x292.png 800w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/6-768x280.png 768w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/6-1152x420.png 1152w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/6-696x254.png 696w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/6-1068x389.png 1068w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/6.png 1171w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/p>\n<p align=\"center\"><em><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"><span style=\"font-size: small;\"><b>Po\u00e7os de neve em Espanha e It\u00e1lia<\/b><\/span><\/span><\/em><\/p>\n<p>Fernando Freire<\/p>\n<p><em><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\">Bibliografia <\/span><\/em><\/p>\n<p><em><sup><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\">1<\/span><\/sup><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"> Matos Sequeira, da Academia das Sci\u00eancias. Feira da Ladra, n.\u00ba 1, 1931.<\/span><\/em><\/p>\n<p><em><sup><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\">2<\/span><\/sup><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"> Miranda, Em\u00edlio Gouveia. Os Autos da Barquinha &#8211; Gelo por sal, Edi\u00e7\u00f5es Mahatma, janeiro de 2014<\/span><\/em><\/p>\n<p align=\"justify\"><em><sup><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\">3<\/span><\/sup><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"> LOPES, F. Chronica de El-Rei D. Fernando, vol. II. Lisboa: Bibliotheca de Classicos Portuguezes, 1895<\/span><\/em><\/p>\n<p align=\"justify\"><em><sup><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\">4<\/span><\/sup><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"> Rold\u00e3o, Ant\u00f3nio. A neve e o porto da Barquinha, Jornal Novo Almourol, n.\u00ba 389, Setembro, 2013 <\/span><\/em><\/p>\n<p align=\"justify\"><em><sup><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\">5<\/span><\/sup><span style=\"font-family: Times New Roman, serif;\"> Elyseu, Jos\u00e9 das Neves Gomes. Esbo\u00e7o hist\u00f3rico do concelho de Vila Nova de Our\u00e9m, Typografia Universal, Lisboa, 1868<\/span><\/em><\/p>\n<p align=\"justify\">\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/cronica-da-barquinha-por-fernando-freire-os-caminhos-da-neve-ate-lisboa\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Po\u00e7o de neve do CoentralFotografia de Jo\u00e3o Almeida Fotografia &#8211; @joaoalmeidaphoto Os Filipes (de Espanha), que tanto nos levaram, deixaram pelo menos c\u00e1 tr\u00eas modas: a dos trajes negros, a dos coches e a da neve. Versa a presente cr\u00f3nica sobre esta \u00faltima moda, \u201ca neve\u201d. 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