{"id":76711,"date":"2026-09-21T18:43:26","date_gmt":"2026-09-21T17:43:26","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=76711"},"modified":"2026-09-21T18:43:26","modified_gmt":"2026-09-21T17:43:26","slug":"a-cronica-de-goncalo-serras-para-tras-e-o-caminho-os-vencidos-da-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/a-cronica-de-goncalo-serras-para-tras-e-o-caminho-os-vencidos-da-vida\/","title":{"rendered":"A Cr\u00f3nica de Gon\u00e7alo Serras: Para tr\u00e1s \u00e9 o caminho: &#8220;Os vencidos da vida&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"color: #282828;\"><span style=\"font-family: Inter;\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Estamos mais tristes e os n\u00fameros parecem confirm\u00e1-lo. Desde 2006, a Gallup acompanha as emo\u00e7\u00f5es quotidianas da popula\u00e7\u00e3o mundial. Nesse ano, 18% das pessoas disseram ter sentido tristeza durante grande parte do dia anterior. Em 2024 eram 26%. No mesmo per\u00edodo, a preocupa\u00e7\u00e3o passou de 30% para 39% e o stress de 29% para 37%. O \u00faltimo estudo envolveu mais de 145 mil pessoas, em 144 pa\u00edses e territ\u00f3rios. N\u00e3o estamos, portanto, apenas perante uma sensa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>As raz\u00f5es ser\u00e3o muitas e algumas s\u00e3o inevitavelmente particulares. H\u00e1 quem esteja triste porque perdeu algu\u00e9m, porque est\u00e1 doente, porque est\u00e1 sozinho ou porque n\u00e3o consegue viver como gostaria. Mas julgo que existe tamb\u00e9m uma raz\u00e3o comum ao nosso tempo: a vida tornou-se demasiado r\u00e1pida e, sobretudo desde a introdu\u00e7\u00e3o das redes sociais, aceler\u00e1mos as pr\u00f3prias rela\u00e7\u00f5es humanas.<\/p>\n<p>O World Happiness Report 2026 analisou mais de 270 mil adolescentes de 47 pa\u00edses. Entre as raparigas, aquelas que utilizavam redes sociais menos de uma hora por dia apresentavam uma satisfa\u00e7\u00e3o m\u00e9dia com a vida de 6,71 numa escala de zero a dez. Entre as que passavam sete ou mais horas nas redes sociais, esse valor descia para 6,07. Na Europa Ocidental, as utilizadoras mais intensivas tinham uma probabilidade 63% superior de declarar uma satisfa\u00e7\u00e3o baixa com a vida. Os investigadores n\u00e3o afirmam que as redes sociais sejam, por si s\u00f3, a causa, mas a rela\u00e7\u00e3o merece ser levada a s\u00e9rio.<\/p>\n<p>Talvez o problema nem esteja apenas no n\u00famero de horas que passamos diante de um ecr\u00e3. Est\u00e1 na quantidade de vida que atravessa esse ecr\u00e3. Em poucos minutos podemos receber uma mensagem de trabalho, assistir a imagens de uma guerra, ver as f\u00e9rias de um conhecido, descobrir que algu\u00e9m morreu, receber publicidade e saber que outra pessoa gostou de uma fotografia nossa. Passamos da tristeza \u00e0 inveja, da indigna\u00e7\u00e3o ao divertimento, da preocupa\u00e7\u00e3o ao desejo, quase sem intervalo.<\/p>\n<p>Simplesmente n\u00e3o estamos preparados para aquilo em que o mundo se tornou. Somos praticamente os mesmos seres humanos que sempre fomos, mas vivemos agora no meio de uma vertigem de emo\u00e7\u00f5es, rela\u00e7\u00f5es, neg\u00f3cios, not\u00edcias e possibilidades. Falamos com muito mais pessoas, mas isso n\u00e3o significa necessariamente que estejamos mais pr\u00f3ximos delas. Podemos conhecer centenas de pessoas e continuar sozinhos. Podemos saber o que algu\u00e9m est\u00e1 a fazer sem sabermos verdadeiramente como essa pessoa est\u00e1.<\/p>\n<p>H\u00e1 mais de um s\u00e9culo, um grupo de portugueses chegou \u00e0 meia-idade com uma sensa\u00e7\u00e3o semelhante de desencanto. Ficaram conhecidos como os Vencidos da Vida. Entre eles estavam Oliveira Martins, Ramalho Ortig\u00e3o, Guerra Junqueiro e E\u00e7a de Queir\u00f3s. Tinham pertencido a uma gera\u00e7\u00e3o que, na juventude, acreditara que conseguiria transformar Portugal. Anos depois, olharam para o pa\u00eds e sentiram que a realidade ficara muito aqu\u00e9m daquilo que tinham imaginado.<\/p>\n<p>Percebo-os melhor hoje do que os perceberia aos vinte anos. Tamb\u00e9m perten\u00e7o a uma gera\u00e7\u00e3o que acreditou profundamente no futuro. Vi chegar os computadores pessoais, a Internet, os telem\u00f3veis e as redes sociais. Cada uma destas coisas apareceu acompanhada de uma promessa de liberdade. Ter\u00edamos mais informa\u00e7\u00e3o, comunicar\u00edamos melhor, trabalhar\u00edamos mais depressa e conhecer\u00edamos o mundo inteiro. Quase todas essas promessas foram cumpridas. O problema \u00e9 que n\u00e3o percebemos imediatamente o pre\u00e7o que pagar\u00edamos.<\/p>\n<p>N\u00e3o me considero, por\u00e9m, um Vencido da Vida. Tamb\u00e9m n\u00e3o tenho saudades de um passado idealizado, com menos conhecimento, menos conforto e menos possibilidades. N\u00e3o quero voltar atr\u00e1s. Quero apenas que consigamos avan\u00e7ar mais devagar.<\/p>\n<p>Talvez esteja a\u00ed a diferen\u00e7a entre aqueles homens do s\u00e9culo XIX e n\u00f3s. O seu desencanto nasceu porque o futuro que imaginaram demorava demasiado tempo a chegar. O nosso poder\u00e1 nascer porque o futuro chegou depressa demais.<\/span><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #282828;\"><span style=\"font-family: Inter;\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-76712\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/WhatsApp-Image-2026-09-17-at-17.14.23.jpeg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"601\" srcset=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/WhatsApp-Image-2026-09-17-at-17.14.23.jpeg 800w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/WhatsApp-Image-2026-09-17-at-17.14.23-768x577.jpeg 768w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/WhatsApp-Image-2026-09-17-at-17.14.23-559x420.jpeg 559w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/WhatsApp-Image-2026-09-17-at-17.14.23-80x60.jpeg 80w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/WhatsApp-Image-2026-09-17-at-17.14.23-696x523.jpeg 696w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/WhatsApp-Image-2026-09-17-at-17.14.23-265x198.jpeg 265w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/p>\n<p>Precisamos de abrandar, mas constru\u00edmos uma economia que recompensa precisamente quem consegue acelerar. As empresas precisam de produzir mais, vender mais e responder mais depressa. Os trabalhadores t\u00eam de acompanhar e os consumidores deixaram de querer esperar. Queremos a encomenda amanh\u00e3, a resposta hoje e a mensagem imediatamente.<\/p>\n<p>Isso tem um pre\u00e7o. Ganh\u00e1mos riqueza, conforto, informa\u00e7\u00e3o e possibilidades, mas perdemos tamb\u00e9m sil\u00eancio, espera, concentra\u00e7\u00e3o e tempo. Muitas pessoas simplesmente n\u00e3o est\u00e3o a conseguir acompanhar este ritmo. Talvez n\u00e3o haja necessariamente alguma coisa errada com elas. Talvez haja alguma coisa errada com a velocidade.<\/p>\n<p>Durante d\u00e9cadas imagin\u00e1mos que as m\u00e1quinas nos devolveriam tempo. Invent\u00e1mos m\u00e1quinas para lavar roupa, fazer c\u00e1lculos, fabricar objetos e transportar pessoas. Mas cada minuto que ganh\u00e1mos foi rapidamente ocupado por uma nova tarefa.<\/p>\n<p>Agora chegam m\u00e1quinas diferentes. A intelig\u00eancia artificial e a rob\u00f3tica poder\u00e3o executar uma parte cada vez maior do trabalho que ainda fazemos. Isso obrigar\u00e1 certamente a redefinir pap\u00e9is e a repensar o pr\u00f3prio valor do trabalho. Com certeza que muitos l\u00edderes, e muitas outras pessoas especiais, ainda preferem o mundo antigo. Mas o mundo novo promete m\u00e1quinas que nos ir\u00e3o poupar trabalho e, principalmente, dar-nos tempo para podermos abrandar.<\/p>\n<p>O valor do trabalho n\u00e3o ser\u00e1 o mesmo. Talvez possamos finalmente voltar a dar mais valor ao tempo, \u00e0 companhia, \u00e0 amizade, \u00e0 conversa e ao cuidado. E talvez possamos abrandar o suficiente para nos podermos ver uns aos outros.<\/span><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><em>Gon\u00e7alo Serras<\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/a-cronica-de-goncalo-serras-para-tras-e-o-caminho-os-vencidos-da-vida\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Estamos mais tristes e os n\u00fameros parecem confirm\u00e1-lo. 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