{"id":76394,"date":"2026-09-07T18:47:36","date_gmt":"2026-09-07T17:47:36","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=76394"},"modified":"2026-09-07T11:58:05","modified_gmt":"2026-09-07T10:58:05","slug":"cronica-da-barquinha-por-fernando-freire-procissoes-e-relacoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/cronica-da-barquinha-por-fernando-freire-procissoes-e-relacoes\/","title":{"rendered":"Cr\u00f3nica da Barquinha por Fernando Freire: \u201cProciss\u00f5es e rela\u00e7\u00f5es\u201d"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-76395\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/1-800x481.png\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"481\" srcset=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/1-800x481.png 800w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/1-768x462.png 768w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/1-699x420.png 699w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/1-696x418.png 696w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/1.png 900w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Alguns estudos de etnologia portuguesa habituaram-nos a ver no lugar, e em unidades de povoamento similares apesar da sua irrelev\u00e2ncia formal em termos pol\u00edticos ou administrativos e religiosos, um quadro estruturador central da vida social nas comunidades rurais. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Assim, para Joyce Riegelhaupt<sup><b>1<\/b><\/sup>, \u201ca aldeia local \u00e9 de import\u00e2ncia fundamental nas rela\u00e7\u00f5es sociais\u201d. As aldeias n\u00e3o t\u00eam fronteiras administrativas. No entanto, \u201ccada povoa\u00e7\u00e3o (\u2026) \u00e9 vista pelos seus habitantes e pelos seus vizinhos como, de algum modo, \u00fanica e mesmo fechada sobre si pr\u00f3pria (\u2026). Pequenas diferen\u00e7as s\u00e3o cultivadas (\u2026) e (\u2026) cuidadosamente consideradas na defini\u00e7\u00e3o do \u201cn\u00f3s\u201d da aldeia versus todos os outros \u201celes\u201d. \u201cExistem rivalidades intensas entre aldeias vizinhas\u201d e \u201cpara um rapaz, fazer a corte a uma rapariga de outra aldeia \u00e9, muitas vezes, uma experi\u00eancia arriscada\u201d. Debru\u00e7ando-se sobre as festas, a autora salienta tamb\u00e9m a sua import\u00e2ncia enquanto meios de que as aldeias se socorrem \u201cpara afirmar a sua identidade e a sua unidade\u201d. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Na presente cr\u00f3nica quero relevar a identidade atalaiense em atos religiosos de 1843, de 1955 e num acontecimento recente, do ano de 1990, bem como as novidades quanto \u00e0 capela de Nosso Senhor Jesus da Ajuda. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Antigamente, as caracter\u00edsticas geogr\u00e1ficas e humanas diferenciavam as localidades da Moita e da Atalaia. Atualmente, temos um aglomerado cont\u00ednuo de resid\u00eancias que praticamente n\u00e3o permite descortinar cada povoa\u00e7\u00e3o per si. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><b>Ano de 1843. <\/b><\/span><\/span><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-76396\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/2-800x526.png\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"526\" srcset=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/2-800x526.png 800w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/2-768x505.png 768w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/2-639x420.png 639w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/2-696x457.png 696w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/2-741x486.png 741w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/2.png 855w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Na 1.\u00aa p\u00e1gina do Jornal \u201cO Moitense\u201d, em junho de 1937, sob o t\u00edtulo \u201cIntrigas\u201d vem a seguinte descri\u00e7\u00e3o: \u201c\u00c9 de lamentar certos factos que ultimamente surgiram, ali\u00e1s destitu\u00eddos de fundamento, fruto de maus elementos, de molde a provocar prejudiciais inimizades entre as duas popula\u00e7\u00f5es da Atalaia e Moita. O Moitense observa com tristeza essa perniciosa intriga, pois entende haver toda a conveni\u00eancia em que as duas povoa\u00e7\u00f5es se estimem, respeitando-se mutuamente os respetivos e leg\u00edtimos direitos. Cremos ser este o pensamento e desejo da parte s\u00e3 e boa dos habitantes das duas povoa\u00e7\u00f5es\u201d. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"> De onde vinha esta rivalidade entre Atalaia e Moita? <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">&#8211; Pelo menos, desde 1843.<sup><b>2<\/b><\/sup> <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Vejamos. \u201cEm toda a parte h\u00e1 prociss\u00e3o dos Passos. Porque n\u00e3o h\u00e1 na Moita? Assim perguntaram uma vez certos mar\u00edtimos, na taberna do Fol, que assentava na Rua Direita da Moita, na quaresma de 1843. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">&#8211; N\u00e3o h\u00e1 irmandade, nem na capela da Senhora dos Rem\u00e9dios temos essa imagem, como se sabe!&#8230;<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">&#8211; Mas arranja-se pedindo por empr\u00e9stimo \u00e0 Atalaya! &#8230; alvitrou algu\u00e9m, tanto mais que nesta quaresma n\u00e3o tencionam fazer a prociss\u00e3o.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Combinou-se quem havia de ir apresentar o pedido e assentou-se que deveriam ir como pessoas de cr\u00e9dito e bem-falantes, o Azevedo velho e o pai do Francisco Maia Falua que teve uma taberna na casa em que hoje est\u00e1 estabelecida a pens\u00e3o do Jo\u00e3o Ferreira, na Ladeira da esta\u00e7\u00e3o da vila da Barquinha. E assim se fez. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Os da Atalaya, sem dificuldade, cederam a imagem de Jesus vergando sob o madeiro da ignominia, levando o favor at\u00e9 o ponto de emprestarem sessenta capas roxas e prometendo a compar\u00eancia de v\u00e1rios irm\u00e3os residentes naquela vila.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Rejubilaram os da Moita quando ouviram o estralejar de tr\u00eas foguetes, sinal convencionado de que haviam conseguido o empr\u00e9stimo da imagem; e a alegria subiu de ponto quando os comissionados comunicaram que, sem o pedirem, tinham a promessa da cess\u00e3o das sessenta capas. Ent\u00e3o a tia Justa Maia, cheia do maior entusiasmo ing\u00e9nuo, gritou: &#8211; Viva o Senhor dos Passos da Atalaya!&#8230;<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">E o povo vivou com a maior convic\u00e7\u00e3o porquanto imaginou ser homenagem devida sem favor algum&#8230;<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"> E ent\u00e3o todo o mulherio que sabia costurar, p\u00f4s m\u00e3os \u00e0 obra fazendo mais opas de cor roxa cuja fazenda foram comprar a Torres Novas, para o que se abriu uma subscri\u00e7\u00e3o que rendeu vinte moedas. E na v\u00e9spera da prociss\u00e3o, o Capel\u00e3o da Moita, o senhor Padre Jos\u00e9, por sinal um patulea (liberal radical) dos quatro costados, de sobrepeliz e acompanhado de muita gente da Moita, concertadinhos nas suas opas, foram \u00e0 Atalaya buscar a imagem enquanto os restantes da comiss\u00e3o acabavam de erigir nas ruas Direita, das Parreiras, Outeiro do Norte, Debaixo e noutros s\u00edtios da Moita, os passos com ret\u00e1bulos, casti\u00e7ais e cruxifixos e a Maria de Beh\u00fa ensaiava para os motetes (trecho de m\u00fasica religiosa, de origem francesa, com letra). <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Eram seis da tarde quando a prociss\u00e3o entrou na Moita sendo a imagem depositada na capela e ficando a vel\u00e1-la cinco ou seis da Comiss\u00e3o e algumas mulheres piedosas que tinham feito o voto de acompanhar a velada. Dealbava quando os velantes ouviram passos que pareciam de muitas pessoas. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">&#8211; Queremos levar a imagem porque deliber\u00e1mos fazer hoje na Atalaya, a prociss\u00e3o dos Passos! disse um que vinha \u00e0 frente da malta. <\/span><\/span><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-full wp-image-76397 aligncenter\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/3.jpg\" alt=\"\" width=\"366\" height=\"312\" \/><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Protestaram os moitenses com veem\u00eancia e uma das mulheres, mais decididas, come\u00e7ou tocando a rebate na sineta da capela&#8230; e t\u00e3o desesperado foi o apelo que a Moita inteira saltou da cama afim de inquirir o motivo do alarme. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">&#8211; S\u00e3o os da Atalaya que vem buscar o Senhor dos Passos!&#8230; informou uma das mulheres que correu as ruas da povoa\u00e7\u00e3o prevenindo toda a gente, em grande berreiro. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">&#8211; Soltem os cacetes bradou uma voz, n\u00e3o o levam!! Soltem os cacetes!&#8230;<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">E os cacetes saltaram&#8230; endireitaram logo \u00e0 Capela em som de guerra, quando os da Atalaya vinham j\u00e1 com o andor \u00e0s costas, com uma guarda de honra tamb\u00e9m armada com cacetes formid\u00e1veis.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">&#8211; Arreiem o andor! ordenou o Azevedo velho; arreiem ou vai tudo com trezentos diabos! Voc\u00eas n\u00e3o t\u00eam palavra seus b\u00eabados, mas n\u00f3s obrig\u00e1-los-emos a t\u00ea-la, seus&#8230;<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">E saiu um palavr\u00e3o medonho!&#8230; Para a frente!&#8230; ordenou o maioral da Atalaya e saiam do caminho sen\u00e3o a gente derrete-vos&#8230; Z\u00e1s&#8230; z\u00e1s&#8230; E come\u00e7ou o cacete a trabalhar enquanto o mulherio da Moita, numa gritaria doida, incitava os patr\u00edcios a malhar rijo nas costelas dos contr\u00e1rios! Um dia de ju\u00edzo naquele Largo da Capela!&#8230; <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">O andor e a imagem andaram aos trambolh\u00f5es, enquanto o arrais Jo\u00e3o Maia com um compadre, o Farinha, pedia ordem! <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">A ordem era dar para baixo forte e feio, at\u00e9 que por fim os da Atalaya tiveram de fugir e os da comiss\u00e3o, ufanos, e alguns, tamb\u00e9m com as cabe\u00e7as quebradas, levantaram a imagem do solo, e, triunfantes, desandaram com ela para a capela\u2026<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">\u00c0 cautela ficou um piquete de servi\u00e7o \u00e0 porta; armado de espingardas e cacetes para o que desse e viesse\u2026 \u00c0 tarde saiu a prociss\u00e3o, vigiada pelo administrador do concelho e cabos de pol\u00edcia e nessa mesma noite foram solenemente entregar a imagem do Senhor dos Passos a Atalaia, n\u00e3o tendo havido novidade, porquanto a gente sensata daquela localidade, que reconheceu toda a raz\u00e3o nos moitenses, meteu na ordem os exaltados que queriam a desforra\u2026 <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Da\u00ed a dias, um carpinteiro de apelido Lopes, da Atalaya, mandava a seguinte conta ao Provedor da Miseric\u00f3rdia onde estava ereta a Irmandade que tinha a seu cargo o culto e conserva\u00e7\u00e3o da imagem que se depositava na capela do Senhor Jesus da Ajuda conta e recibo que por curiosidade estava, no ano de 1901 em poder do meu compadre, senhor Jo\u00e3o Soares da mesma vila: Endireitar e consertar o bra\u00e7o da imagem do Nosso Senhor dos Pa\u00e7os &#8211; 480 r\u00e9s; p\u00f4r uma cavilha no p\u00e9 &#8211; 100 r\u00e9s; reparar o andor &#8211; 160 r\u00e9s; arranjar a coroa da cabe\u00e7a &#8211; 100 r\u00e9s; Total &#8211; 840 r\u00e9s. S\u00e3o oitocentos e quarenta r\u00e9s. Recebi: J. Lopes carpinteiro. Atalaya, 11 de abril de 1843\u201d. A costureira Maria da Assun\u00e7\u00e3o da supracitada vila tamb\u00e9m teve trabalho que lhe arranjaram os da Moita e da Atalaya, \u00e0 sociedade, apresentou a sua conta: lavar, engomar e passar a t\u00fanica de Nosso Senhor dos Pa\u00e7os &#8211; 400 r\u00e9s; s\u00e3o quatrocentos r\u00e9s. Recebi. A rogo de Maria da Assun\u00e7\u00e3o, por n\u00e3o saber escrever, J. Lopes carpinteiro. Atalaya, 11 de abril de 1843\u201d. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Foi o mesmo carpinteiro que reparou a imagem que fez a conta da costureira porque a letra a ortografia e a tinta eram iguais. Quanto \u00e0 conta do \u00e1lcool e arnica (planta medicinal) para curar as cabe\u00e7as dos combatentes da Atalaya e da Moita \u00e9 que n\u00e3o conseguimos apurar.\u201d <\/span><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><b>Ano de 1955.<\/b><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Conta-nos o ent\u00e3o Di\u00e1rio Popular<b>3<\/b>: \u201cUma aldeia amotinada com receio que lhe levassem uma imagem do Senhor \u2026 A povoa\u00e7\u00e3o de Atalaia (Barquinha) esteve ontem o que se chama em \u201cestado de s\u00edtio\u201d, por motivo de uma simples prociss\u00e3o! O caso conta-se em poucas linhas: Numa capela daquela localidade existe uma enorme e antiga imagem do Senhor Jesus da Ajuda, a qual os habitantes da povoa\u00e7\u00e3o, al\u00e9m de muito a venerarem, guardam ciosamente, propalando que os povos vizinhos a vem cobi\u00e7ando&#8230; desde h\u00e1 s\u00e9culos. E, assim, nunca desejam que ela saia da capela, e, muito menos ainda, para fora da terra.Ora, h\u00e1 dias, estava anunciada uma prociss\u00e3o com a aludida imagem, a qual iria at\u00e9 \u00e1 Barquinha para depois regressar \u00e0 Atalaia. O caso \u00e9 que o povo desta ultima localidade mormente, as mulheres &#8211; por nada desta vida estavam resolvidas a consentir a realiza\u00e7\u00e3o do pr\u00e9stito (prociss\u00e3o ou acompanhamento). Mas, como as autoridades eclesi\u00e1sticas deliberassem fazer sair a prociss\u00e3o, por acharem, muito justamente, absurda tal atitude do povo da localidade, atitude, ali\u00e1s, baseada num receio inconceb\u00edvel, pelo sim, pelo n\u00e3o, requisitaram uma for\u00e7a da G.N.R. para evitar qualquer cena desagrad\u00e1vel. E devemos concordar que a medida foi acertada, pois, n\u00e3o obstante a presen\u00e7a dos guardas, a verdade \u00e9 que, mal a imagem saiu da capela, a multid\u00e3o, obstinada, com as mulheres \u00e0 frente, op\u00f4s-se por todos os meios \u00e0 sa\u00edda do andor, gerando-se, ent\u00e3o, importantes tumultos, os quais s\u00f3 n\u00e3o tiveram consequ\u00eancias funestas devido \u00e0 forma criteriosa como a for\u00e7a p\u00fablica rapidamente atuou. E, quando do regresso da imagem, novas cenas desagrad\u00e1veis se repetiram e novo burburinho se gerou. Como \u00e9 \u00f3bvio, o caso, por estranho e invulgar, tem sido o assunto de todas as conversas nesta regi\u00e3o.\u201d<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">\u00c0 data o p\u00e1roco da Barquinha era o Pe. Suzano. Segundo relatos testemunhais a palavra de ordem, antes e depois da prociss\u00e3o era: &#8220;O santo \u00e9 nosso e o padre \u00e9 vosso!&#8221;. Certo \u00e9 que naquele tempo quebraram-se algumas cabe\u00e7as pelo que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel quantificar as les\u00f5es. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Se a rivalidade com a Barquinha j\u00e1 vinha, pelo menos, desde as lutas liberais, a rivalidade com a Moita \u00e9 mais ancestral, at\u00e9 porque s\u00e3o localidades medievais.<\/span><\/span><\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-76398\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/4-800x533.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"533\" srcset=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/4-800x533.jpg 800w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/4-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/4-630x420.jpg 630w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/4-696x464.jpg 696w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/4.jpg 960w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/p>\n<p align=\"center\"><em><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Fotografia de J\u00falio Barata<\/span><\/span><\/em><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><b>Ano de 1990<\/b><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Na Capela de NS da Ajuda venera-se a milagrosa imagem do Sr. Jesus, com uma romagem todas as sextas feiras do ano. H\u00e1 quem defenda que foi instituidor um homem particular chamado Nuno Velho. A crer nesta hip\u00f3tese temos de colocar a possibilidade de reconstru\u00e7\u00e3o desta ermida pois ela j\u00e1 existe bem mais cedo, no ano de 1631 \u2026 <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">A Capela do Senhor Jesus da Ajuda ou do Bom Jesus da Agonia ou Nossa Senhora da Ajuda vem referenciada nos inqu\u00e9ritos paroquias de 1758: \u201cCapela N. Sra. da Ajuda, em que se venera a Milagroza Imagem do Sr. Jezus, com romagem todas as sextas feiras do anno\u201d. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Agora, segundo Rui Mesquita Mendes, \u201cH\u00e1 uma nota de \u00edndices de escrituras de Lisboa de um cart\u00f3rio notarial, entretanto desaparecido, com data de julho de 1607 que narra o seguinte: \u201cH\u00e1 uma licen\u00e7a para se dizer missa na Ermida de Nossa Senhora da Ajuda, vila da Talaya, Atalaia, Conde\u00e7a da Talaya\u00bb. No mesmo ano foi erigida a Ermida da Ajuda pela Conde\u00e7a\u201d.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">A Capela possui imagem de madeira, de boa escultura e carna\u00e7\u00e3o, numa cruz grande de madeira lisa e resplendor de metal \u00e9, presumivelmente, do S\u00e9c. XVIII e tem 1,58 cm. \u00c9, desde tempos imemoriais venerada pelos atalaienses. O tempo diluiu esse culto. Sobre esta \u201cMilagroza Imagem do Sr. Jezus\u201d h\u00e1 um acontecimento que importa relevar, tamb\u00e9m, no ano de 1990. Ent\u00e3o a comunidade levantou d\u00favidas quanto \u00e0 autenticidade da imagem que estava na Capela. Esta tinha sido entregue, em novembro de 1990, a uma casa de arte de Braga, para ser restaurada. Em 15 de agosto de 1991, aquando da realiza\u00e7\u00e3o da tradicional prociss\u00e3o que se realiza anualmente, alguns fi\u00e9is levantaram s\u00e9rias d\u00favidas quanto \u00e0 troca da imagem alegando que a imagem n\u00e3o era a mesma e que teria sido substitu\u00edda. O alvoro\u00e7o gerado em torno da imagem, e as desconfian\u00e7as quanto \u00e0 sua autenticidade, a que n\u00e3o ser\u00e1 estranha a circunst\u00e2ncia de, regularmente, existiram assaltos aos templos religiosos e com\u00e9rcio de antiguidades de artigos religiosos, levaram, para algum sossego das popula\u00e7\u00f5es, a autarquia a participar ao Minist\u00e9rio P\u00fablico os factos sempre tendo em vista o seu esclarecimento e a descoberta da verdade material. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Foram feitas as dilig\u00eancias de prova julgadas pertinentes, Nestas circunst\u00e2ncias decidiu-se a realiza\u00e7\u00e3o de um exame \u00e0 imagem feito ent\u00e3o pelo \u201cInstituto de Jos\u00e9 de Figueiredo\u201d, que retirou as seguintes conclus\u00f5es: \u201cDepois dos exames efetuados \u00e0 escultura conclui-se que sob a pintura atual, executada pela firma de Braga, existe uma policromia igual \u00e0 dos documentos fotogr\u00e1ficos sobre a imagem antes da ida a Braga, documentos que nos foram enviados por esse Tribunal. A exist\u00eancia desta camada policr\u00f3mica prova, claramente, que n\u00e3o houve troca da escultura e de que a imagem \u00e9 a mesma. Muito embora se conclua que a imagem \u00e9 a mesma n\u00e3o deixam de lamentar o seu atual estado pois \u2026 o restauro foi mal feito e a pintura efetuada deixou a imagem como nova.\u201d<sup><b>4<\/b><\/sup><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Na vila da Atalaia para al\u00e9m da atual Igreja Matriz, dedicada a NS Ascens\u00e3o, levantaram-se outros templos dedicados \u00e0 virgem Maria: a capela de Nossa Sr.\u00aa da Esperan\u00e7a, a capela de Nossa Sr.\u00aa da Ajuda ou Nosso Senhor da Ajuda e a ermida de Nossa Sr.\u00aa dos Rem\u00e9dios, na Moita, ent\u00e3o integrada na par\u00f3quia da Atalaia. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Com as novas investiga\u00e7\u00f5es, com agradecimento a Rui Mesquita Mendes, ficamos a saber que a capela de Nossa Sr.\u00aa da Ajuda ou Senhor Jesus da Ajuda \u00e9 uma capela\/ermida erigida, em 1631, pela Condessa da Atalaia que nesta data era D. Maria Filipa de T\u00e1vora de Meneses, que casou com o 3.\u00ba conde, D. Ant\u00f3nio Manoel de Ata\u00edde, segundo obra recentemente publicada pelo meu colega, e descendente dos Condes da Atalaia, Diogo Orey Manoel<sup><b>5<\/b><\/sup>. <\/span><\/span><\/p>\n<p><strong><em>Fernando Freire<\/em><\/strong><\/p>\n<p><em><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: small;\">FONTES<\/span><\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: small;\"><sup><b>1<\/b><\/sup><b> <\/b> Riegelhaupt, Joyce Firstenberg. Na Sombra da Cidade: Integra\u00e7\u00e3o de Uma Aldeia Portuguesa. 1964 <\/span><\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: small;\"><sup><b>2<\/b><\/sup> Jornal o Moitense, artigo de J\u00falio Sousa e Costa, n.\u00ba 62, de 15 de abril de 1941<\/span><\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: small;\"><sup><b>3<\/b><\/sup> Jornal \u201cDi\u00e1rio Popular\u201d, de 17 de abril de 1955<\/span><\/span><\/em><\/p>\n<p><em><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: small;\"><sup><b>4<\/b><\/sup> Proc.\u00ba Autos de Inqu\u00e9rito n.\u00ba 626\/91 \u2013 Tribunal Judicial da Comarca do Entroncamento<\/span><\/span><\/em><\/p>\n<p><em><a name=\"_GoBack\"><\/a> <span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: small;\"><sup><b>5<\/b><\/sup> MANOEL, Diogo Maria D\u2019Orey. Epitome da fam\u00edlia Manoel, Condes de Atalaya e Marqueses de Tancos.2020<\/span><\/span><\/em><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/cronica-da-barquinha-por-fernando-freire-procissoes-e-relacoes\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Alguns estudos de etnologia portuguesa habituaram-nos a ver no lugar, e em unidades de povoamento similares apesar da sua irrelev\u00e2ncia formal em termos pol\u00edticos ou administrativos e religiosos, um quadro estruturador central da vida social nas comunidades rurais. 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