{"id":75850,"date":"2026-08-18T18:55:40","date_gmt":"2026-08-18T17:55:40","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=75850"},"modified":"2026-08-18T16:41:19","modified_gmt":"2026-08-18T15:41:19","slug":"cronica-da-barquinha-por-fernando-freire-os-sinos-da-camara-municipal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/cronica-da-barquinha-por-fernando-freire-os-sinos-da-camara-municipal\/","title":{"rendered":"Cr\u00f3nica da Barquinha por Fernando Freire: \u201cOs sinos da C\u00e2mara Municipal\u201d"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-75855\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/1-551x800.jpg\" alt=\"\" width=\"551\" height=\"800\" srcset=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/1-551x800.jpg 551w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/1-696x1011.jpg 696w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/1-289x420.jpg 289w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/1.jpg 724w\" sizes=\"auto, (max-width: 551px) 100vw, 551px\" \/><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">A fachada principal da casa da c\u00e2mara e da cadeia nos prim\u00f3rdios do s\u00e9culo XX integrava o campan\u00e1rio, bem vis\u00edvel na fotografia acima onde se encontram os sinos da c\u00e2mara, uma ferramenta fundamental dos velhos concelhos portugueses, pois todos os atos camar\u00e1rios eram anunciados \u201ca som de campa tangida\u201d, isto \u00e9, convocados com toques do sino da c\u00e2mara municipal.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Certo que outrora os sinos tocaram no campan\u00e1rio do edif\u00edcio da C\u00e2mara para convocar o Executivo Municipal e para regular as horas aos pescadores, mar\u00edtimos, arrais, pastores, boieiros, maiorais, abeg\u00f5es, lavradores e tantos outros que, desde o nascer ao sol-posto, eram ass\u00edduos atores musculados pela faina no rio e pelo trabalho agr\u00edcola. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Hoje ainda tocam para chamar os fi\u00e9is para a missa e para outras cerim\u00f3nias religiosas.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">A designa\u00e7\u00e3o sino prov\u00e9m do latim, da palavra <i>signu, <\/i>que significa sinal<i>.<\/i> \u00c9 p\u00fablico e not\u00f3rio que um sino para ter boa sonoridade deve incluir um metal nobre, quase sempre em bronze, na sua fundi\u00e7\u00e3o. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">O sino pode soar, dobrar, repicar, tocar, bater e voltear. Segundo o costume e a tradi\u00e7\u00e3o oral considera-se que os sinos repicam em situa\u00e7\u00f5es festivas, dobram em casos de dor e tocam a rebate em situa\u00e7\u00f5es de perigo!<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">A mais antiga refer\u00eancia documental ao uso de sinos antes da nossa nacionalidade data do ano de 870.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Os sinos alcan\u00e7aram, em todas as civiliza\u00e7\u00f5es e desde tempos imemoriais, um lugar essencial na vida social e comunit\u00e1ria quer como modo de an\u00fancio quer em rituais sagrados como forma de liga\u00e7\u00e3o e invoca\u00e7\u00e3o do divino quer como reguladores da vida social. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">A introdu\u00e7\u00e3o do sino nos rituais crist\u00e3os ocidentais \u00e9 imputada a S\u00e3o Paulino de Nola (anos 353\u2013431). \u201cNos anos 529 a 543, a Regra de S\u00e3o Bento instituiu o sino para regular o quotidiano mon\u00e1stico, sendo, tamb\u00e9m, neste per\u00edodo e atrav\u00e9s da expans\u00e3o do movimento mon\u00e1stico pela Europa que se d\u00e1 a dissemina\u00e7\u00e3o do uso do sino, tornando-o um elemento distintivo da paisagem e do ambiente sonoro.\u201d<sup><b>1<\/b><\/sup><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-75851\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/2-640x800.jpg\" alt=\"\" width=\"640\" height=\"800\" srcset=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/2-640x800.jpg 640w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/2-768x960.jpg 768w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/2-696x870.jpg 696w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/2-336x420.jpg 336w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/2.jpg 920w\" sizes=\"auto, (max-width: 640px) 100vw, 640px\" \/><\/p>\n<p align=\"center\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: small;\">Rel\u00f3gio da torre sineira da Atalaia \u2013 Fotografia de Valter Vinagre<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Em v\u00e1rias ocasi\u00f5es tive a oportunidade de estar na torre sineira de uma igreja e \u00e9 uma sensa\u00e7\u00e3o soberba. Calcorrear aquelas escadas em espiral da torre at\u00e9 atingir o pin\u00e1culo da Igreja, bem mais perto do c\u00e9u, s\u00e3o momentos \u00fanicos da vida! A vista \u00e9 sempre deslumbrante e at\u00edpica. Traz-me recorda\u00e7\u00f5es da orquestra divina e das sinfonias que, recorrentemente, ouvia quando era menino e mo\u00e7o. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Lembro-me, perfeitamente, de estar na da minha terra natal, em Oleiros, na Barquinha, em Tancos e na torre sineira e do rel\u00f3gio da Atalaia, esta \u00faltima possuidora de um acoplado rel\u00f3gio magn\u00edfico do s\u00e9c. XIX. Sempre me recordo de ouvir os sinos a tocar e com eles a sensibilidade dos sineiros na sua nobre miss\u00e3o, ora dobrando vagarosamente movido por alavancas, ora continuados, ora com repiques ou toques de velocidade acelerada numa cantilena que diferencia um bom tocador que reproduz as emo\u00e7\u00f5es humanas de um singelo batedor de sinos. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Com as orelhas tapadas com as duas m\u00e3os ouvia os sons graves e agudos. Eram sons sineiros inc\u00f3modos e ensurdecedores que produziam uma resson\u00e2ncia colossal, sons sonoros intensos e vibra\u00e7\u00f5es que sopravam sobre os meus t\u00edmpanos. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">No in\u00edcio s\u00e9c. XIX, em 1828, no reinado de D. Miguel, Portugal estava dividido em seis prov\u00edncias; estas em comarcas; as comarcas subdividiam\u2011se em termos ou concelhos; e cada concelho possu\u00eda a sua C\u00e2mara Municipal. Este \u00f3rg\u00e3o colegial tratava dos neg\u00f3cios concertantes aos bens p\u00fablicos e reunia ordinariamente ou extraordinariamente. As reuni\u00f5es ordin\u00e1rias faziam-se duas vezes por semana e as extraordin\u00e1rias quando houvesse mat\u00e9ria relevante para o concelho. Nesta \u00faltima, para al\u00e9m do presidente, adjuntos ou vereadores, e do procurador, integravam-na os membros do clero, a nobreza e o povo do concelho, e estava estipulado que: \u201c<i>A hora para estas reuni\u00f5es he annunciada pelo sino da Camara, que chama a Auto da Camara: ent\u00e3o se dirigem os Cidad\u00e3os \u00e1 sala da Camara, e todos d\u00e3o individualmente o seu voto<\/i>.\u201d<sup><b>2<\/b><\/sup> Portanto, naqueles tempos, o som dos sinos constitu\u00eda um privilegiado meio de comunica\u00e7\u00e3o dos povos e era usado pelas entidades civis e religiosas. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-75852\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/3-800x307.png\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"307\" srcset=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/3-800x307.png 800w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/3-768x295.png 768w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/3-696x267.png 696w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/3-1068x410.png 1068w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/3-1095x420.png 1095w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/3.png 1280w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\" align=\"left\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><span style=\"font-size: small;\">Sino da Igreja da Barquinha &#8211; Sino da Igreja de Tancos<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Importa recordar que os ent\u00e3o concelhos de Atalaia, Paio de Pele e Tancos foram extintos pela Reforma de Passos Manuel, que dissolveu 498 concelhos em Portugal Continental e criou o novel concelho da Barquinha. O objeto de tal diploma seria a cria\u00e7\u00e3o de maiores circunscri\u00e7\u00f5es municipais procurando suprimir a exist\u00eancia de concelhos pobr\u00edssimos de modo a possibilitar que esta fus\u00e3o os munisse de melhores meios humanos e financeiros. As primeiras reuni\u00f5es da C\u00e2mara da Barquinha ser\u00e3o feitas na sede da C\u00e2mara da vila da Atalaia, do j\u00e1 extinto concelho da Atalaia, e at\u00e9 em casa de Manoel Henrique Pir\u00e3o, o primeiro presidente da C\u00e2mara da Barquinha. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Em 14 de junho de 1837 seria lan\u00e7ada a primeira pedra do edif\u00edcio da Casa da C\u00e2mara e Cadeia da Barquinha que incorporar\u00e1 os sinos na torre que seriam quatro, dois a norte e dois a sul. Os sinos de bronze \u201ccivis\u201d presentes no edif\u00edcio dos Pa\u00e7os de Concelho da Barquinha tinham outro desiderato que n\u00e3o o religioso. Para al\u00e9m de servirem para chamamento \u00e0s reuni\u00f5es da C\u00e2mara eram utilizados para alertar a popula\u00e7\u00e3o para evento ou novidade extraordin\u00e1ria ou de for\u00e7a maior (eram as alturas de repique ou de anormalidade), como um inc\u00eandio, uma cheia, uma altera\u00e7\u00e3o da ordem p\u00fablica, etc., ou em momentos de p\u00fablico regozijo ou visita de autoridade (toque de autoridade) ou de festa (coroa\u00e7\u00f5es, casamentos reais, etc.) ou at\u00e9 para o recolhimento noturno comunit\u00e1rio que abarcava os presos da Casa da Cadeia, na Barquinha situada no r\u00e9s-do-ch\u00e3o do edif\u00edcio dos Pa\u00e7os de Concelho. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Uma refer\u00eancia aos sinos da Igreja da Barquinha. Teriam sido colocados muito perto do ano de 1873, data da constru\u00e7\u00e3o da sua torre. Os sinos est\u00e3o gravados com o nome de \u201cMANUEL GONSALVES RATO ME FEZ\u201d fundidor que dever\u00e1 ser daquele per\u00edodo. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Outrossim, nas vilas e nas cidades, em tempos mais antigos, o sino tocava a recolher a horas certas da noite em que se limitava a mobilidade de pessoas. Era o \u201csino de correr\u201d que convidava os habitantes a recolherem-se, para repouso, nos seus domic\u00edlios. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Com a ascens\u00e3o do liberalismo procurou-se reduzir a presen\u00e7a dos sinos na vida comunit\u00e1ria e o sino da C\u00e2mara viu a sua linguagem e peso social diminuir enquanto s\u00edmbolo representativo do poder concelhio, em paralelismo com os pelourinhos, destru\u00eddos pelo camartelo civilizacional, nas palavras de Alexandre Herculano. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Por exemplo, em 1837, a Rainha D. Maria II, manda regular o toque dos sinos e a dura\u00e7\u00e3o deles e d\u00e1 ordens para que esses toques sejam prontamente reduzidos mormente os que anunciam a sauda\u00e7\u00e3o ang\u00e9lica, os que chamam os fi\u00e9is \u00e0 missa, e os que d\u00e3o sinal de inc\u00eandio.<sup><b>3<\/b><\/sup><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Todavia, logo no ano seguinte, em 1838,<sup><b>4 <\/b><\/sup>\u00e9 publicado um Decreto que determina que nas festividades por ocasi\u00e3o do feliz sucesso de Sua Majestade houvesse lumin\u00e1rias, repiques de sinos e salvas de artilharia. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-75853\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/4-800x311.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"311\" srcset=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/4-800x311.jpg 800w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/4-768x299.jpg 768w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/4-696x271.jpg 696w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/4-1068x415.jpg 1068w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/4-1080x420.jpg 1080w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/4.jpg 1173w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/p>\n<p align=\"center\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: small;\">Igreja de S. Jo\u00e3o Batista \u2013 Limeiras, com as suas duas torres sineiras <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Na Barquinha h\u00e1 relatos grandiosos do uso do som dos sinos \u2026 Em 1895 o concelho da Barquinha \u00e9 integrado no concelho da Goleg\u00e3 o que durou tr\u00eas anos. Mas os barquinhenses lutaram pela sua autonomia municipal e aguardaram, pacientemente, pelo retorno do Partido Progressista ao poder para poderem restaurar o concelho. Em 1898 o concelho da Barquinha era, finalmente, restaurado! Ora, estas altera\u00e7\u00f5es legislativas supervenientes, com mudan\u00e7a sucessiva de concelho para outro concelho, (a Barquinha pertenceu, ainda, em 1867 e durante 3 meses, ao concelho de Torres Novas) e ao sabor das correntes partid\u00e1rias, acarretou revoltas e tumultos nas popula\u00e7\u00f5es determinadas e com ra\u00edzes de autonomia local e identidades ac\u00e9rrimas. Por causa disso o nosso \u201carchivo do concelho\u201d andou, literalmente, aos trambolh\u00f5es, e ter\u00e1 sofrido alguns descaminhos. Isto sem preju\u00edzo dos danos que acresceram os arquivos pelas \u00e1guas das cheias recorrentes do Tejo. Curioso \u00e9 que no meu m\u00fanus aut\u00e1rquico quando questionava pela localiza\u00e7\u00e3o de algum documento mais complexo obtinha uma resposta singular: \u201cdesapareceram com as cheias do Tejo!\u201d<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Certo \u00e9 que em 1898 o concelho \u00e9 restaurado, com uma enorme festa. Atente-se neste relato \u00e0 import\u00e2ncia do arquivo municipal<sup><b>5<\/b><\/sup>: \u201cBarquinha quatro &#8211; Acaba de chegar o archivo do concelho acompanhado por um cortejo de cerca de trinta trens repletos de senhoras e cavalheiros. Qu\u00e1si todos os trens ostentam vistosas bandeiras, lendo-se em algumas, Viva Jo\u00e3o Izidro dos Reis<sup><b>6<\/b><\/sup>. Este cortejo que apresentava um aspeto deslumbrante, entrou pela rua Ivens [atual rua 25 de abril] que est\u00e1 lindamente adornada com bandeiras e bal\u00f5es \u00e1 veneziana. As janelas estavam adornadas com colgaduras, regurgitavam de damas, o que produziu bom efeito. O cortejo desfilou por defronte dos pa\u00e7os de concelho, fazendo as tr\u00eas philarm\u00f3nicas ouvir o hino da restaura\u00e7\u00e3o. Os sinos repicavam e ao ar subiram muitas girandolas de foguetes. Reina o maior entusiasmo n\u2019esta gente, ouvindo-se repetidas aclama\u00e7\u00f5es ao benquisto e honrado comerciante Jos\u00e9 Gon\u00e7alves, a quem esta terra deve relevantes servi\u00e7os.\u201d Tempos em que os sinos da C\u00e2mara repicavam \u2026<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">As invas\u00f5es francesas e os conflitos b\u00e9licos tiveram um impacto consider\u00e1vel nos sinos, j\u00e1 que muitos deles foram descidos e fundidos para uso do seu metal em materiais de guerra. Soe que em tempo de paz se fazem sinos e em tempo de guerra se fundem para canh\u00f5es.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Hoje em dia, na vida moderna, os conflitos s\u00e3o outros e est\u00e3o ligados a preocupa\u00e7\u00f5es ambientais, ao descanso e \u00e0 multiculturalidade das popula\u00e7\u00f5es que balizam, e regulam, o seu uso. E at\u00e9 o legislador criou, atrav\u00e9s do DL n.\u00ba 9\/2007, de 17 de janeiro, o Regulamento Geral de Ru\u00eddo. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">A linguagem dos sinos foi importante numa \u00e9poca onde a comunica\u00e7\u00e3o se fazia por sons, eram eles que avisavam os fundamentais acontecimentos da comunidade e o chamamento para os atos p\u00fablicos. A autoridade municipal tamb\u00e9m era feita do som do sino e coordenada por quem detinha o poder aut\u00e1rquico. <\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-75854\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/5-800x600.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"600\" srcset=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/5-800x600.jpg 800w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/5-768x576.jpg 768w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/5-696x522.jpg 696w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/5-560x420.jpg 560w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/5-80x60.jpg 80w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/5-265x198.jpg 265w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/5.jpg 815w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Hoje os sinos da C\u00e2mara permanecem silentes. Est\u00e3o, contudo, na torre dos Pa\u00e7os do Concelho como testemunhas de quase dois s\u00e9culos da hist\u00f3ria desta terra e da sua mem\u00f3ria coletiva. J\u00e1 n\u00e3o convocam o povo, j\u00e1 n\u00e3o anunciam as decis\u00f5es dos \u00f3rg\u00e3os do concelho ou os grandes acontecimentos da nossa comunidade. O seu som j\u00e1 n\u00e3o regula o quotidiano como outrora, mas continua a lembrar-nos que houve um tempo em que a vida coletiva se organizava ao ritmo do seu bronze!<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Fernando Freire<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><em><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: small;\">BIBLIOGRAFIA <\/span><\/span><\/em><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: small;\"><sup>1<\/sup> SEBASTIAN, L. Subs\u00eddios para a hist\u00f3ria da fundi\u00e7\u00e3o sineira em Portugal: do sino medieval da Igreja de S\u00e3o Pedro de Coruche \u00e0 atualidade. C\u00e2mara Municipal de Coruche; Museu Municipal de Coruche. 2008<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: small;\"><sup>2<\/sup> D. Miguel I. Obra &#8230; sobre a legitimidade e inaufer\u00edveis direitos do Senhor D. Miguel I. ao trono de Portugal. Traduzida do original franc\u00eas [of the Count de Bordign\u00e9]. Lisboa, Impress\u00e3o R\u00e9gia. 1828<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: small;\"><sup>3 <\/sup><span style=\"color: #000000;\">Of\u00edcio de 19 de junho de 1837. Oficio sobre o abuso no toque dos Sinos. SECRETARIA DE ESTADO DOS NEG\u00d3CIOS DO REINO, Livro 1837 &#8211; 1\u00ba Sem<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: small;\"><sup>4 <\/sup><span style=\"color: #000000;\">Decreto de 1 de setembro de 1838, determina que nas Festividades por ocasi\u00e3o do feliz sucesso de Sua Majestade haja lumin\u00e1rias, repiques de sinos e salvas de artilharia. D. MARIA II (1826-1827; 1834-1853), Livro 1838<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: small;\"><sup>5 <\/sup><span style=\"color: #000000;\">Jornal \u201cA Vanguarda\u201d de 4 e 5 de fevereiro de 1898<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><a name=\"_heading=h.yyg3tp16dwov\"><\/a> <span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: small;\"><sup>6 <\/sup><span style=\"color: #000000;\">Em 1880, foi eleito deputado pela primeira vez pelo c\u00edrculo de Tomar; em 1887, voltou a ser eleito pelo mesmo c\u00edrculo; em 1890, pelo c\u00edrculo de Santar\u00e9m; em 1897 e 1898, pelo c\u00edrculo da Goleg\u00e3; e, finalmente, em 1906, foi eleito deputado pela sexta vez, pelo c\u00edrculo de Santar\u00e9m.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/cronica-da-barquinha-por-fernando-freire-os-sinos-da-camara-municipal\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A fachada principal da casa da c\u00e2mara e da cadeia nos prim\u00f3rdios do s\u00e9culo XX integrava o campan\u00e1rio, bem vis\u00edvel na fotografia acima onde se encontram os sinos da c\u00e2mara, uma ferramenta fundamental dos velhos concelhos portugueses, pois todos os atos camar\u00e1rios eram anunciados \u201ca som de campa tangida\u201d, isto \u00e9, convocados com toques do [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":43,"featured_media":75655,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[55,139,347],"tags":[466,467,468,147],"class_list":["post-75850","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-cronica","category-cronica-eol","category-fernando-freire","tag-cronica-da-barquinha","tag-entroncamento-online","tag-eol","tag-fernando-freire"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/75850","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/43"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=75850"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/75850\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":75856,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/75850\/revisions\/75856"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/75655"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=75850"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=75850"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=75850"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}