{"id":75811,"date":"2026-08-17T17:45:57","date_gmt":"2026-08-17T16:45:57","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=75811"},"modified":"2026-08-17T13:54:00","modified_gmt":"2026-08-17T12:54:00","slug":"a-cronica-de-goncalo-serras-ei-los-que-partem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/a-cronica-de-goncalo-serras-ei-los-que-partem\/","title":{"rendered":"A cr\u00f3nica de Gon\u00e7alo Serras: \u201cEi-los que partem\u201d"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\">Da parte que me coube, em 1994, ningu\u00e9m quis ficar. Toda a gente queria a faculdade. Lisboa, Coimbra, Porto. Tudo era melhor do que ficar no Entroncamento, onde nada acontecia. As minhas m\u00e9dias acad\u00e9micas eram paup\u00e9rrimas. Tive de estudar muito para as provas espec\u00edficas de Portugu\u00eas e Geografia, onde tive 95% e 89%, respetivamente. Salvei-me do abandono e do ex\u00edlio na minha pr\u00f3pria terra e fui \u00e0 aventura com o Pedro Casaleiro e o Filipe P\u00e1scoa, morar na mesma casa em Lisboa, no Campo Grande.<\/p>\n<p>Foi a\u00ed que come\u00e7aram as ins\u00f3nias e come\u00e7ou tamb\u00e9m a desenhar-se uma instabilidade interior que me acompanharia o resto da vida. Sa\u00edmos de casa, sa\u00edmos da terra. Cada um foi \u00e0 procura da sua vida. Hoje n\u00e3o sei o que aconteceu a muitos dos colegas daquela comunidade de jovens do Entroncamento. Sei, e lembro-me, que a ningu\u00e9m passou pela cabe\u00e7a ficar. Ningu\u00e9m nos expulsou. Ningu\u00e9m nos obrigou. Partimos porque quer\u00edamos partir. Quer\u00edamos mundo, universidade, cidades grandes, empregos, futuro. Ficar parecia quase uma falta de ambi\u00e7\u00e3o. Era como se o Entroncamento servisse para nascer e crescer, mas n\u00e3o para realizar a vida.<\/p>\n<p>Hoje gostaria de ter ficado. Se os meus amigos tivessem ficado, era o que eu faria. E esta frase, aos cinquenta anos, j\u00e1 n\u00e3o me parece t\u00e3o infantil como me pareceria aos vinte. Talvez tenhamos dado pouca import\u00e2ncia a uma coisa muito simples: querer permanecer perto das pessoas de quem gostamos.<\/p>\n<p>Perderam-se os dias de S\u00e3o Martinho na Goleg\u00e3, ainda sem ASAE e cheios de tascas, onde nos embriag\u00e1vamos at\u00e9 cair, mas nos levant\u00e1vamos uns aos outros. Perdeu-se a companhia nas caminhadas para as discotecas \u00e0 sexta-feira \u00e0 noite. At\u00e9 a lua nos sorria e era c\u00famplice. Perdeu-se aquela promessa nunca enunciada, pr\u00f3pria da juventude, de que aquilo iria durar para sempre.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-75812\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/a0b22375-6955-4205-8e43-1787b9c1869c-800x536.jpg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"536\" srcset=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/a0b22375-6955-4205-8e43-1787b9c1869c-800x536.jpg 800w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/a0b22375-6955-4205-8e43-1787b9c1869c-768x514.jpg 768w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/a0b22375-6955-4205-8e43-1787b9c1869c-1536x1028.jpg 1536w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/a0b22375-6955-4205-8e43-1787b9c1869c-696x466.jpg 696w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/a0b22375-6955-4205-8e43-1787b9c1869c-1068x715.jpg 1068w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/a0b22375-6955-4205-8e43-1787b9c1869c-1920x1285.jpg 1920w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/a0b22375-6955-4205-8e43-1787b9c1869c-627x420.jpg 627w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/a0b22375-6955-4205-8e43-1787b9c1869c.jpg 1936w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><\/p>\n<p>Claro que n\u00e3o durou. Talvez nunca pudesse durar. As pessoas crescem, casam, t\u00eam filhos, mudam de trabalho, mudam de cidade e mudam tamb\u00e9m umas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s outras. Mas continuo a pensar que houve um patrim\u00f3nio de afectos que se perdeu pelo caminho e ao qual, na altura, ningu\u00e9m dava grande valor.<\/p>\n<p>Est\u00e1vamos demasiado ocupados a preparar o futuro. A minha gera\u00e7\u00e3o foi educada para a realiza\u00e7\u00e3o individual. O programa era simples: estudar, arranjar um emprego melhor, subir na vida, ter independ\u00eancia, comprar casa, constituir fam\u00edlia. Era um programa respeit\u00e1vel e, para muitos, uma conquista enorme. Eu pr\u00f3prio o segui. Mas havia pouco espa\u00e7o para outro tipo de ambi\u00e7\u00e3o, menos f\u00e1cil de medir: permanecer ligado a uma terra, a um grupo, a uma comunidade, construir alguma coisa em conjunto.<\/p>\n<p>H\u00e1 pouco espa\u00e7o para aquilo que se constr\u00f3i em conjunto. Infelizmente, o programa social \u00e9 muito pobre: cada um por si. A minha vida, o meu caminho, o meu emprego, a minha casa, os meus objetivos. N\u00e3o necessariamente contra os outros, mas separados deles. E assim fomos aprendendo a sonhar no singular.<\/p>\n<p>Aos cinquenta anos lamento que a minha gera\u00e7\u00e3o n\u00e3o tenha tido um sonho mais amplo, mais largo, do que o sonho privado de um bom emprego numa multinacional. Gostaria que tamb\u00e9m nos tivessem ensinado que ficar podia ser uma escolha v\u00e1lida, que construir alguma coisa com os outros tamb\u00e9m podia ser uma forma de sucesso e que uma vida n\u00e3o se mede apenas pelo lugar onde cheg\u00e1mos, mas tamb\u00e9m por quem permaneceu connosco no caminho.<\/p>\n<p>Seria um dever da sociedade proporcionar tamb\u00e9m esses sonhos colectivos. N\u00e3o convencer os jovens a ficar, nem impedir ningu\u00e9m de partir, mas tornar poss\u00edvel permanecer sem sentir que se desistiu de alguma coisa. Uma cidade pequena deveria conseguir oferecer aos seus jovens mais do que a mem\u00f3ria da inf\u00e2ncia e a promessa de regresso aos fins de semana. Devia ser poss\u00edvel querer ficar sem que isso parecesse falta de coragem ou de ambi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Se o P\u00e1scoa, o Casaleiro ou o Ricardo Sacadura tivessem ficado no Entroncamento, tamb\u00e9m eu teria ficado. O que eu queria eram os amigos. Queria l\u00e1 saber de trabalho ou estudo. N\u00e3o \u00e9 atitude que se tenha aos dezassete anos, nem incentivo que se d\u00ea aos jovens de agora. Mas quanto mais velho fico, mais percebo que talvez exista nessa frase uma defini\u00e7\u00e3o simples de comunidade: querer estar com os amigos.<\/p>\n<p>Hoje estou no Entroncamento. Novos amigos e novos camaradas. Talvez at\u00e9 seja mais feliz hoje. Mas n\u00e3o consigo deixar de pensar que houve um patrim\u00f3nio de afectos que se perdeu. Perdeu-se por cidades, empregos, casamentos, filhos e por todas as decis\u00f5es perfeitamente razo\u00e1veis que cada um de n\u00f3s tomou. Ningu\u00e9m fez nada de errado. E talvez seja isso que custa mais.<\/p>\n<p>E assim fomos pela vida, sozinhos. Uns com saudades, outros talvez n\u00e3o. Mas todos condenados a viver a realiza\u00e7\u00e3o, ou n\u00e3o, dos nossos sonhos. Eu trocaria os meus sonhos pelos meus amigos. Ali\u00e1s, todos os meus sonhos individuais foram sempre pretextos convictos para fazer, e estar com amigos. Falhou o meu sonho de comunidade. Resta a soma, e muitas vezes colec\u00e7\u00e3o, de vontades individuais.<\/p>\n<p><em>Escrito por Gon\u00e7alo Serras, com o apoio da Saphy, intelig\u00eancia artificial da OpenAI<\/em><\/span><\/span><\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/a-cronica-de-goncalo-serras-ei-los-que-partem\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Da parte que me coube, em 1994, ningu\u00e9m quis ficar. Toda a gente queria a faculdade. Lisboa, Coimbra, Porto. 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