{"id":75711,"date":"2026-08-11T18:00:05","date_gmt":"2026-08-11T17:00:05","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=75711"},"modified":"2026-08-11T15:51:53","modified_gmt":"2026-08-11T14:51:53","slug":"a-cronica-de-goncalo-serras-servico-militar-obrigatorio","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/a-cronica-de-goncalo-serras-servico-militar-obrigatorio\/","title":{"rendered":"A Cr\u00f3nica de Gon\u00e7alo Serras: &#8220;Servi\u00e7o Militar Obrigat\u00f3rio&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"color: #080809;\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Nunca fui \u00e0 tropa. Situa\u00e7\u00e3o militar: reserva territorial, desde que, em 1994, entrei para a Escola Superior de Comunica\u00e7\u00e3o Social.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #080809;\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">O meu pai, Adelino, foi. Esteve em Alverca, nas OGMA, e esteve em Angola. Dele recordo muitas coisas, mas uma delas era a disciplina. Pergunto-me hoje se a disciplina que dava aos filhos, a mim e \u00e0 Andreia, seria apenas consequ\u00eancia da educa\u00e7\u00e3o rigorosa que ele pr\u00f3prio recebera ou se haveria ali tamb\u00e9m alguma coisa que trouxera da vida militar. Nunca lhe perguntei.<\/p>\n<p>Em 1994, parecia-me muito mais urgente entrar para a faculdade. Havia uma vida para come\u00e7ar e o servi\u00e7o militar ficou para tr\u00e1s. As exig\u00eancias f\u00edsicas n\u00e3o me preocupavam particularmente. Era desportista de alta competi\u00e7\u00e3o, jogava h\u00f3quei em patins no Pa\u00e7o de Arcos e tinha sido vice-campe\u00e3o nacional. O que me preocupava era outra coisa: a disciplina.<\/p>\n<p>Seria eu capaz de suportar a press\u00e3o psicol\u00f3gica? Seria capaz de vergar a minha pr\u00f3pria rebeldia \u00e0s necessidades do coletivo? Nunca saberei. Talvez seja precisamente isso que me ficou do servi\u00e7o militar que n\u00e3o fiz: a curiosidade sobre o homem que teria sido dentro dele.<\/p>\n<p>Tenho amigos militares e admiro em v\u00e1rios deles uma caracter\u00edstica que tamb\u00e9m reconhecia no meu pai: a franqueza. S\u00e3o pessoas calorosas, mas habituadas a conversas diretas. Nem toda a gente gosta de conversas francas. Eu habituei-me a elas desde cedo e talvez por isso nunca tenha aprendido verdadeiramente a movimentar-me no territ\u00f3rio das indiretas, das insinua\u00e7\u00f5es e das entrelinhas. Nesse territ\u00f3rio, peco muitas vezes por tardio. Quando percebo o que me quiseram dizer, a conversa j\u00e1 acabou h\u00e1 muito.<\/p>\n<p>Talvez exista alguma rela\u00e7\u00e3o entre disciplina e linguagem. Imagino que, num contexto militar, uma ordem deva ser entendida e uma indica\u00e7\u00e3o n\u00e3o possa depender demasiado da interpreta\u00e7\u00e3o de quem a recebe. As palavras precisam de chegar ao outro com precis\u00e3o. A disciplina pode come\u00e7ar tamb\u00e9m a\u00ed: n\u00e3o necessariamente em falar menos, mas em escolher melhor as palavras, saber quando perguntar, quando responder e quando uma frase precisa simplesmente de significar aquilo que diz.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #080809;\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-75712\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/WhatsApp-Image-2026-08-08-at-06.23.34.jpeg\" alt=\"\" width=\"696\" height=\"473\" srcset=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/WhatsApp-Image-2026-08-08-at-06.23.34.jpeg 696w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/WhatsApp-Image-2026-08-08-at-06.23.34-618x420.jpeg 618w\" sizes=\"auto, (max-width: 696px) 100vw, 696px\" \/><\/p>\n<p>No mundo civil desenvolvemos uma extraordin\u00e1ria capacidade para fazer o contr\u00e1rio. Dizemos sem dizer, respondemos sem responder e insinuamos em vez de afirmar. Deixamos frequentemente uma porta aberta nas palavras para, se for necess\u00e1rio, podermos regressar por ela e garantir que afinal n\u00e3o quer\u00edamos dizer exatamente aquilo. H\u00e1 quem chame a isso diplomacia. Eu nunca fui particularmente bom nesse jogo.<br \/>\nImagino que uma situa\u00e7\u00e3o de guerra leve a necessidade de clareza ao extremo. Uma hesita\u00e7\u00e3o, uma instru\u00e7\u00e3o mal compreendida ou uma interpreta\u00e7\u00e3o errada deixam de ser apenas problemas de comunica\u00e7\u00e3o. Podem ter consequ\u00eancias muito diferentes das que t\u00eam numa conversa de caf\u00e9. \u00c9 nesse ponto que a quest\u00e3o militar deixa, para mim, de ser apenas uma quest\u00e3o de disciplina e come\u00e7a a tocar noutra coisa: aquilo que estamos dispostos a defender.<\/p>\n<p>N\u00e3o morreria por Portugal. Ou, pelo menos, n\u00e3o morreria simplesmente por essa palavra. Mas talvez estivesse disposto a morrer por aquilo que essa palavra cont\u00e9m: pelos meus pais, pela minha irm\u00e3, pela minha fam\u00edlia, pelos meus amigos, pelas ruas que conhe\u00e7o, pelas vozes que reconhe\u00e7o, pelas mem\u00f3rias que n\u00e3o escolhi ter e que, no entanto, fizeram de mim aquilo que sou. E se tudo isso fosse posto em causa? Se as nossas casas, os nossos afetos, os nossos compromissos, as nossas pequenas rotinas e at\u00e9 as nossas amarguras fossem fisicamente tomadas de assalto por uma for\u00e7a estrangeira? Estaria preparado para as defender? A resposta, neste momento, \u00e9 n\u00e3o.<\/p>\n<p>\u00c9 tamb\u00e9m por isso que defendo o servi\u00e7o militar. Preferia que fosse volunt\u00e1rio, naturalmente, mas aceito que uma comunidade possa considerar obrigat\u00f3ria uma prepara\u00e7\u00e3o m\u00ednima para a sua pr\u00f3pria defesa. N\u00e3o porque devamos desejar a guerra, mas precisamente porque n\u00e3o a desejamos. Prepararmo-nos para defender alguma coisa n\u00e3o significa querer que algu\u00e9m a ataque. Talvez o servi\u00e7o militar tenha tamb\u00e9m essa fun\u00e7\u00e3o: obrigar-nos, durante algum tempo, a sair da escala individual. A confiar no camarada que est\u00e1 ao nosso lado, como tantas vezes n\u00e3o acontece na vida civil. A acreditar na organiza\u00e7\u00e3o, no sistema, e nos l\u00edderes &#8211; como tamb\u00e9m raramente acontece na vida civil. A perceber que pertencemos a algo que n\u00e3o come\u00e7ou connosco e que provavelmente continuar\u00e1 depois de n\u00f3s. Uma comunidade vive de direitos. Mas vive tamb\u00e9m da disponibilidade dos seus membros para a proteger quando aquilo que t\u00eam em comum \u00e9 amea\u00e7ado. Cabe a cada um descobrir o que merece o risco ou, no limite, o sacrif\u00edcio.<\/p>\n<p>No meu caso, penso que estaria disposto a sacrificar o corpo pelo esp\u00edrito. N\u00e3o falo de um esp\u00edrito abstrato. Falo deste, que recebi dos meus pais, da minha irm\u00e3, da fam\u00edlia e dos amigos; deste que foi sendo formado pelas pessoas que encontrei, pelas palavras que ouvi, pelos lugares onde passei, pelas alegrias e tamb\u00e9m pelas derrotas. Mais de trinta anos depois de n\u00e3o ter ido \u00e0 tropa, n\u00e3o sei se teria dado um bom militar. Mas estaria disposto a aprender, se necess\u00e1rio.<\/p>\n<p><em>Escrito por Gon\u00e7alo Serras, com apoio da Saphy, a Intelig\u00eancia Artificial da OpenAI<\/em><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/a-cronica-de-goncalo-serras-servico-militar-obrigatorio\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nunca fui \u00e0 tropa. 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