{"id":75379,"date":"2026-07-20T19:10:59","date_gmt":"2026-07-20T18:10:59","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=75379"},"modified":"2026-07-20T17:01:33","modified_gmt":"2026-07-20T16:01:33","slug":"a-cronica-de-goncalo-serras-o-dia-em-que-o-rock-morreu","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/a-cronica-de-goncalo-serras-o-dia-em-que-o-rock-morreu\/","title":{"rendered":"A Cr\u00f3nica de Gon\u00e7alo Serras: &#8220;O dia em que o rock morreu&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"color: #282828;\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Entre as encruzilhadas de que a humanidade disp\u00f4s, conta-se o fim do rock. Talvez n\u00e3o o fim da m\u00fasica rock \u2014 porque essa continua modestamente viva \u2014, mas o momento em que deixou de ocupar o centro da cultura popular. Esse momento coincide, em larga medida, com o final do s\u00e9culo XX, quando bandas como Nirvana, Smashing Pumpkins, Pearl Jam ou, numa vertente mais comercial, Oasis, encerraram um ciclo iniciado quarenta anos antes.<\/p>\n<p>Billy Corgan, dos Smashing Pumpkins, nota esse fim em entrevistas recentes, constatando uma viragem da ind\u00fastria em dire\u00e7\u00e3o aos poliritmos do hip hop e da cultura urbana que dominaram o in\u00edcio do s\u00e9culo XXI. N\u00e3o se trata apenas de uma mudan\u00e7a de sonoridade. Trata-se de uma mudan\u00e7a de vis\u00e3o do mundo.<\/p>\n<p>O rock foi, durante d\u00e9cadas, uma linguagem universal, sobre a qual se erigiu toda uma atitude perante a vida, entre os anos 50 e o fim do s\u00e9culo XX. Do rock and roll de Chuck Berry, Little Richard e Elvis Presley \u00e0 revolu\u00e7\u00e3o cultural dos Beatles e dos Rolling Stones, passando por Bruce Springsteen, U2, R.E.M. ou Nirvana, construiu-se uma esp\u00e9cie de l\u00edngua franca emocional. Era poss\u00edvel encontrar, no mesmo concerto, ricos e pobres, negros e brancos, oper\u00e1rios e universit\u00e1rios. A m\u00fasica funcionava como um ponto de encontro. Sim, era exagerado. Sim, era excesso. N\u00e3o \u00e9 recomend\u00e1vel, nem pretendo fazer qualquer apologia desse modo de vida. Sex, drugs and rock and roll tornou-se um lema que destruiu demasiados talentos. Jim Morrison, Jimi Hendrix, Janis Joplin, Kurt Cobain ou Amy Winehouse lembram-nos que a liberdade sem medida tamb\u00e9m cobra um pre\u00e7o.<\/p>\n<p>Mas havia ali qualquer coisa profundamente agregadora.<br \/>\nA vida era uma festa. Era uma festa porque, nessa vida musicada, conflu\u00edam etnias, diferen\u00e7as e contrastes. O palco era muitas vezes o lugar onde as divis\u00f5es desapareciam durante duas horas.<\/p>\n<p>O historiador Eric Hobsbawm escreveu que a segunda metade do s\u00e9culo XX assistiu ao nascimento de uma verdadeira cultura juvenil global. Poucos fen\u00f3menos contribu\u00edram tanto para isso como o rock. Pela primeira vez, milh\u00f5es de jovens de continentes diferentes ouviam as mesmas can\u00e7\u00f5es, vestiam-se de forma semelhante e partilhavam refer\u00eancias culturais comuns. Havia, para usar uma express\u00e3o de Marshall McLuhan, uma esp\u00e9cie de \u00abaldeia global\u00bb alimentada pelos mesmos discos, pelas mesmas r\u00e1dios e pelos mesmos canais de televis\u00e3o.<\/p>\n<p>O hip hop trouxe outra narrativa. Trouxe a cultura das ruas, a afirma\u00e7\u00e3o da identidade, da comunidade e da perten\u00e7a. Trouxe tamb\u00e9m refer\u00eancias de grupo, de bairro, de origem e de experi\u00eancia social que o rock raramente conseguira expressar com igual autenticidade. Muitos dos seus maiores artistas denunciaram desigualdades raciais, pobreza, viol\u00eancia e exclus\u00e3o com uma for\u00e7a que marcou gera\u00e7\u00f5es. Ao mesmo tempo, parte da ind\u00fastria privilegiou uma est\u00e9tica de confronto, disputa territorial, ostenta\u00e7\u00e3o e, em alguns casos, misoginia e viol\u00eancia, transformando essas imagens em produtos globais.<\/p>\n<p>Talvez tenha sido um primeiro passo para uma ind\u00fastria cada vez mais orientada para o multiculturalismo enquanto segmenta\u00e7\u00e3o de p\u00fablicos, em vez da procura de uma linguagem comum.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #282828;\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-75380\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/WhatsApp-Image-2026-07-15-at-12.19.08-800x450.jpeg\" alt=\"\" width=\"800\" height=\"450\" srcset=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/WhatsApp-Image-2026-07-15-at-12.19.08-800x450.jpeg 800w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/WhatsApp-Image-2026-07-15-at-12.19.08-768x432.jpeg 768w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/WhatsApp-Image-2026-07-15-at-12.19.08-696x392.jpeg 696w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/WhatsApp-Image-2026-07-15-at-12.19.08-747x420.jpeg 747w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/WhatsApp-Image-2026-07-15-at-12.19.08.jpeg 1024w\" sizes=\"auto, (max-width: 800px) 100vw, 800px\" \/><br \/>\nA verdadeira mudan\u00e7a, por\u00e9m, n\u00e3o aconteceu apenas nos est\u00fadios de grava\u00e7\u00e3o. Aconteceu nos departamentos de marketing, nas empresas de media e, mais tarde, nos algoritmos das plataformas digitais.<\/p>\n<p>Durante grande parte do s\u00e9culo XX, a ind\u00fastria cultural vivia daquilo a que hoje chamar\u00edamos uma monocultura medi\u00e1tica. Havia poucos canais de televis\u00e3o, poucas r\u00e1dios nacionais, poucas revistas de grande circula\u00e7\u00e3o. Para recuperar o investimento de um \u00e1lbum, era necess\u00e1rio conquistar o maior n\u00famero poss\u00edvel de pessoas. O incentivo econ\u00f3mico favorecia artistas capazes de atravessar fronteiras sociais e geracionais. Os Beatles, Michael Jackson, U2 ou Madonna tornaram-se gigantes precisamente porque falavam para quase toda a gente ao mesmo tempo.<\/p>\n<p>Nos anos 90, esse mundo come\u00e7ou a fragmentar-se. A televis\u00e3o por cabo multiplicou canais. As r\u00e1dios especializaram-se. A internet, o MP3, o YouTube, o Spotify e as redes sociais dividiram a aten\u00e7\u00e3o em milhares de pequenas comunidades. A ind\u00fastria percebeu ent\u00e3o que j\u00e1 n\u00e3o precisava de produzir um artista para toda a sociedade; bastava conquistar uma comunidade suficientemente fiel.<br \/>\nE descobriu algo ainda mais importante: a identidade vende. O psic\u00f3logo social Henri Tajfel demonstrou que os seres humanos tendem a organizar-se espontaneamente em grupos, valorizando os s\u00edmbolos do grupo a que pertencem e distinguindo-se dos restantes. O mercado cultural transformou essa predisposi\u00e7\u00e3o numa estrat\u00e9gia comercial. Em vez de procurar apenas o denominador comum, passou a oferecer produtos para cada tribo urbana, cada estilo de vida, cada origem, cada gera\u00e7\u00e3o, cada nicho.<\/p>\n<p>Quanto mais espec\u00edfica fosse a identifica\u00e7\u00e3o, maior poderia ser a lealdade do p\u00fablico. A l\u00f3gica \u00e9 simples. Quem sente que uma m\u00fasica fala da sua comunidade, do seu bairro, da sua experi\u00eancia ou da sua identidade tende a consumir mais, a recomendar mais e a permanecer mais fiel. Na economia digital, essa fidelidade \u00e9 valiosa: mant\u00e9m audi\u00eancias, alimenta algoritmos e cria mercados previs\u00edveis. N\u00e3o foi necessariamente uma decis\u00e3o ideol\u00f3gica. Foi, antes de mais, uma descoberta econ\u00f3mica. Paradoxalmente, esta transforma\u00e7\u00e3o ocorreu ao mesmo tempo que a globaliza\u00e7\u00e3o tornava o mundo mais parecido no consumo. Quanto mais os centros comerciais, as marcas e as plataformas se universalizaram, maior pareceu ser a necessidade de afirmar diferen\u00e7as. A ind\u00fastria cultural respondeu multiplicando comunidades em vez de construir uma s\u00f3.<\/p>\n<p>Talvez seja essa a verdadeira mudan\u00e7a do nosso tempo. O rock procurava frequentemente aquilo que unia. A ind\u00fastria do s\u00e9culo XXI aprendeu a prosperar explorando aquilo que distingue.<br \/>\nIsso n\u00e3o torna o hip hop culpado, nem o rock inocente. Ambos produziram grande arte, excessos memor\u00e1veis e contradi\u00e7\u00f5es profundas. A quest\u00e3o \u00e9 outra: pass\u00e1mos de uma cultura de massas, imperfeita mas relativamente partilhada, para uma cultura de nichos, extraordinariamente diversa mas cada vez mais fragmentada.<\/p>\n<p>Nenhuma \u00e9poca \u00e9 inteiramente melhor do que a anterior. A hist\u00f3ria raramente funciona assim. Mas talvez valha a pena perguntar se, ao substituirmos uma cultura que aspirava ao universal por um mercado organizado em torno de identidades cada vez mais espec\u00edficas, n\u00e3o perdemos uma parte da capacidade de nos reconhecermos uns nos outros.<br \/>\nTalvez o fim do rock n\u00e3o tenha sido apenas o fim de um g\u00e9nero musical.<br \/>\nTalvez tenha sido o fim de uma ideia de comunidade. A m\u00fasica \u00e9 outra. E talvez tenhamos de a dan\u00e7ar cada vez mais sozinhos.<\/p>\n<p><em>Escrito por Gon\u00e7alo Serras, com o apoio de Saphy, a Intelig\u00eancia Artificial<\/em><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/a-cronica-de-goncalo-serras-o-dia-em-que-o-rock-morreu\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entre as encruzilhadas de que a humanidade disp\u00f4s, conta-se o fim do rock. 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