{"id":74147,"date":"2026-05-05T12:38:19","date_gmt":"2026-05-05T11:38:19","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=74147"},"modified":"2026-05-05T10:45:41","modified_gmt":"2026-05-05T09:45:41","slug":"a-cronica-de-arnaldo-marques-entroncamento-a-cidade-e-o-filme","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/a-cronica-de-arnaldo-marques-entroncamento-a-cidade-e-o-filme\/","title":{"rendered":"A Cr\u00f3nica de Arnaldo Marques: &#8220;Entroncamento, a cidade e o filme&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Diz-se com justeza que cada um v\u00ea o mundo que est\u00e1 \u00e0 altura dos seus olhos. \u00c9, pois, de esperar que muitos espetadores do filme, que conhecem a cidade e nela vivem, concluam que o Entroncamento do filme n\u00e3o \u00e9, apesar de tudo, a cidade que eles conhecem, n\u00e3o \u00e9 a cidade onde vivem. Para um espetador n\u00e3o entroncamentense, esse ju\u00edzo de valor n\u00e3o tem import\u00e2ncia nenhuma, nem sequer existir\u00e1. Mas, para um habitante do Entroncamento, o filme, associando-se \u00e0 cidade nos seus cen\u00e1rios mais desoladores, e fixando-se exclusivamente num grupo de jovens marginais desenraizados que a\u00ed vivem, n\u00e3o pode evitar o confronto entre o lugar realmente existente, que se conhece, e o lugar da fic\u00e7\u00e3o realisticamente localizado, que s\u00f3 parcialmente se reconhece. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Porque, justamente, o filme mostra uma realidade que est\u00e1 longe de ser exclusiva do Entroncamento. Mostra uma cidade pobre que \u201cmora\u201d nos bairros \u201csociais\u201d mais ou menos perif\u00e9ricos, mais ou menos degradados, de qualquer centro urbano. Desde logo porque a op\u00e7\u00e3o do realizador foi quase despojar do filme outros habitantes \u2013 digamos, simplificando, as pessoas comuns e as suas vidas \u2013, centrando a trama num grupo de jovens do \u201cbas-fond\u201d ligado ao consumo e pequeno tr\u00e1fico de droga, existindo sobretudo de noite, imbu\u00eddos de uma cultura racista e mis\u00f3gina, socialmente ressentida, cujos esfor\u00e7os para se integrarem nunca s\u00e3o bastantes perante uma sociedade hostil, que lhes falhou no contexto familiar (h\u00e1 no filme apenas, e fugazmente, um vago pai e uma silenciada e sofrida m\u00e3e cigana), na escola, em toda a parte. E por isso recorrem a expedientes criminosos para, como diz uma personagem antes de um assalto violento e totalmente amador, \u201ctirar o p\u00e9 da merda\u201d. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">O realismo cru das rela\u00e7\u00f5es entre as personagens n\u00e3o \u201csalva\u201d nenhuma delas de uma exist\u00eancia dura, \u00e1spera, \u201csem pecado e sem culpa\u201d, sendo logo evidente na cena inicial do filme, em que cinco jovens socialmente iguais na pobreza e na exclus\u00e3o entram numa escalada de viol\u00eancia (verbal, f\u00edsica, moral&#8230;) que marca o filme at\u00e9 ao fim.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Laura, a personagem protagonista, \u00e9 uma esp\u00e9cie de passante solit\u00e1ria, que chega ao Entroncamento, vinda de um bairro degradado do Porto (o Cerco, \u00e9 sintom\u00e1tico), para tentar mudar de vida num lugar \u201cmais calmo\u201d, como ela pr\u00f3pria diz, e esquecer um passado violento, que lhe deixou marcas f\u00edsicas (o plano em que se olha ao espelho e se contorce sobre si pr\u00f3pria para fitar o estado das n\u00f3doas negras que tem nas costas \u00e9 particularmente tocante). Paradoxalmente, \u00e9 esse pesado passado que a torna friamente escudada num universo onde as mulheres s\u00e3o o elo mais fraco. \u00c9 acolhida em casa de um primo vagamente meliante, vagamente pregui\u00e7oso, com uma vida desancorada de qualquer refer\u00eancia ou projeto, uma vida de ganzas e de pequenos atos criminosos. Laura come\u00e7a por procurar emprego, tentativas goradas. Arranja finalmente um part-time por 450\u20ac ao m\u00eas, mas tudo se esgar\u00e7a e ela passa (volta?) a dedicar-se ao pequeno tr\u00e1fico, \u00e0 hostilidade das noites frias, aos recantos mais degradados da cidade, \u00e0s ruas cheias de carros estacionados, mas desertas de gente. No final do filme, ap\u00f3s uma dupla vingan\u00e7a sobre um homem violento e sobre o grupo onde afinal n\u00e3o se integrou durante a sua estada no Entroncamento (n\u00e3o se despede, furta uma pesada embalagem de droga ao \u201cdealer\u201d do grupo), Laura parte de novo de comboio e, como j\u00e1 fizera \u00e0 chegada, olha demoradamente para a c\u00e2mara, fitando-nos, e o seu olhar tem tanto de \u00f3dio como de desesperada s\u00faplica.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">\u00c9 um filme muito violento, ainda que nenhuma personagem caia baleada no ch\u00e3o. Naturalmente contra os seus pr\u00f3prios des\u00edgnios, o filme pode suscitar uma interpreta\u00e7\u00e3o equ\u00edvoca a espetadores enviesados. Num momento em que o Entroncamento \u00e9 governado por autarcas de um partido da extrema-direita, que tem nos cidad\u00e3os de etnia cigana e nos imigrantes pobres um dos seus combates mais ruidosos, o filme arrisca-se a passar uma imagem deturpada do Entroncamento: uma \u201ccidade infrequent\u00e1vel\u201d, dominada por uma criminalidade desenfreada, perpetrada por jovens marginais, perigosos, entre os quais pontuam um cigano (afinal, o mais \u201chumano\u201d de todos) e alguns afro-descendentes. Os \u201coutros\u201d, portanto. Bem sei que o filme inclui o pol\u00edcia que, no gin\u00e1sio, debita o discurso tipicamente \u201cchegano\u201d e que a professora insiste com desfa\u00e7atez e cinismo no duplo preconceito contra os ciganos e contra os imigrantes africanos (ou simplesmente portugueses afro-descendentes). Mas ser\u00e1 isso suficiente para n\u00e3o fazer esquecer a viol\u00eancia social a que a pobreza est\u00e1 sujeita em cidades como a de \u201cEntroncamento\u201d?<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">H\u00e1 um plano, um bel\u00edssimo plano, em que Laura est\u00e1 na \u201cponte do mijo\u201d, j\u00e1 noite, olhando para a esta\u00e7\u00e3o, onde se veem, em fila, vultos ao longe acabados de sair dos comboios, que atravessam a estrutura montada sobre as linhas e se dirigem para a cidade, de regresso \u00e0s suas casas, ap\u00f3s um dia de trabalho e uma cansada viagem de volta. S\u00e3o os (muitos) passageiros que vemos apearem-se no Entroncamento ao final dos dias, vindos sobretudo da regi\u00e3o de Lisboa, onde trabalham e para onde v\u00e3o manh\u00e3 bem cedo, e que hoje s\u00e3o em grande parte imigrantes oriundos do Brasil e de \u00c1frica. Aqui \u00e9 mais barato, e tamb\u00e9m \u00e9 \u201cmais calmo\u201d do que nos bairros pobres da periferia da capital. Sobre essas pessoas, que hoje fazem um Entroncamento novo e j\u00e1 sem qualquer mitologia bairrista (que pouca houve&#8230;), ferrovi\u00e1ria ou outra, sobre o seu quotidiano, os seus anseios, a sua integra\u00e7\u00e3o, a sua (in)visibilidade, o seu jovem contributo para a cidade, talvez que o cineasta Pedro Cabeleira pudesse fazer um filme que se parecesse mais com o Entroncamento de agora e propriamente dito, um filme, digamos, que fizesse mais jus ao t\u00edtulo. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Com isto, n\u00e3o se pense que achei o filme \u2013 o filme pelo filme \u2013 menos bem conseguido. Bem pelo contr\u00e1rio. \u00d3timos di\u00e1logos, uma magistral banda sonora de fundo (no seio da pobreza, n\u00e3o h\u00e1 nunca sil\u00eancio\u2026), magn\u00edfica dire\u00e7\u00e3o de magn\u00edficos atores, de que se destaca a prodigiosa Ana Vila\u00e7a. Conhecia o \u201cVer\u00e3o Danado\u201d, a primeira longa-metragem de Pedro Cabeleira, e a curta \u201cBy Fl\u00e1vio\u201d, que \u00e9 filmada \u2013 imaginem \u2013 no Torreshopping. Vejam-nos, se os n\u00e3o viram ainda. E sigamos o cineasta Pedro Cabeleira, sim.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><em><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Arnaldo Lopes Marques<\/span><\/span><\/em><\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/a-cronica-de-arnaldo-marques-entroncamento-a-cidade-e-o-filme\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Diz-se com justeza que cada um v\u00ea o mundo que est\u00e1 \u00e0 altura dos seus olhos. \u00c9, pois, de esperar que muitos espetadores do filme, que conhecem a cidade e nela vivem, concluam que o Entroncamento do filme n\u00e3o \u00e9, apesar de tudo, a cidade que eles conhecem, n\u00e3o \u00e9 a cidade onde vivem. 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