{"id":73760,"date":"2026-04-07T19:00:49","date_gmt":"2026-04-07T18:00:49","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=73760"},"modified":"2026-04-07T16:52:48","modified_gmt":"2026-04-07T15:52:48","slug":"da-minha-janela-a-cronica-de-goncalo-serras-a-cidade-e-as-serras","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/da-minha-janela-a-cronica-de-goncalo-serras-a-cidade-e-as-serras\/","title":{"rendered":"Da minha janela &#8211; A cr\u00f3nica de Gon\u00e7alo Serras: &#8220;A cidade e as serras&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\">Pouco olhei a serra d&#8217;aire em crian\u00e7a, enquanto cresci no Entroncamento. Mas vejo-a da minha janela. Vivi sempre ocupado com os muitos deveres e responsabilidades de crian\u00e7a. A escola, o h\u00f3quei em patins, a catequese, jogar \u00e0 bola na zona verde, ler muitos livros de banda desenhada, e por a\u00ed fora. Nunca verdadeiramente levantei a cabe\u00e7a para ver esse colosso geol\u00f3gico, que tem at\u00e9 um mar &#8211; o mar de Minde &#8211; que por vezes se forma em condi\u00e7\u00f5es de especial pluviosidade. Fui assim amputado dos seus mist\u00e9rios e das suas lendas; do seu bafo animal que nos recorda que tamb\u00e9m n\u00f3s somos natureza, tamb\u00e9m n\u00f3s somos bichos. Mas a serra sempre esteve l\u00e1, assim como as estrelas que a cercam. Respirando sil\u00eancio, fazendo ch\u00e3o onde se formam as nuvens.<\/p>\n<p>Diz-se que, em noites muito escuras, sobretudo no Inverno, aparecem pequenas luzes a pairar entre as pedras e os caminhos da serra. As luzes movem-se como se tivessem vontade pr\u00f3pria. H\u00e1 quem diga que s\u00e3o almas penadas, perdidas entre o mundo dos vivos e dos mortos. Outros acreditam que s\u00e3o antigos pastores ou viajantes que morreram na serra e continuam ali, a tentar encontrar o caminho de volta.Os antigos avisavam: Se vires uma dessas luzes e a seguires, perdes-te para n\u00e3o mais voltar.<\/p>\n<p>Tamb\u00eam se conta em algumas aldeias da Se\u0155ra d&#8217;Aire a hist\u00f3ria do &#8220;Pastor que entrou na Terra&#8221;. Diz-se que, h\u00e1 muitos anos, um pastor levava o rebanho perto das encostas onde hoje ficam as Grutas de Mira de Aire. Um dia, uma das ovelhas desapareceu, ao p\u00f4r do sol. Ele foi \u00e0 procura dela e encontrou uma abertura na rocha, que n\u00e3o se lembrava de l\u00e1 estar. Chamou pela ovelha e nada. E lembrou-se de entrar no buraco. Diz-se que ele caminhou durante horas, ou minutos. N\u00e3o se sabe. O que ele disse depois \u00e9 que ouvia algo ao longe, um eco ou um murm\u00fario. O som persistia enquanto caminhava, caminhava. At\u00e9 que deixou de ouvir o som.E encontrou a ovelha. Quieta. A olhar para ele. Quando saiu da gruta, o sol ainda se punha. Para ele, tinham passado pouco mais que uns minutos. Mas quando voltou \u00e0 aldeia, estava mudado. Transfigurado. A barba estava longa. A roupa, gasta como se tivesse passado semanas fora. E o pior: Diziam que ele falava devagar, como se estivesse a ter pensamentos do Al\u00e9m. \u00c0s vezes parava a meio das frases, como se estivesse a ouvir outra coisa. Ele insistia:<br \/>\n\u201cS\u00f3 estive l\u00e1 dentro um bocadinho.\u201d<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><br \/>\nMas os outros juravam que ele tinha desaparecido durante dias. Depois disso, nunca mais foi o mesmo. Evitava a serra ao cair da noite. E, segundo contam, \u00e0s vezes olhava para o ch\u00e3o como se estivesse a falar com os mortos. H\u00e1 quem diga que entrou numa gruta qualquer. Outros dizem que entrou noutro tempo.<\/p>\n<p>A Serra guarda este e outros segredos. Mas a cidade n\u00e3o olha para l\u00e1. Os Mist\u00e9rios perderam-se na dist\u00e2ncia, no tempo e no espa\u00e7o. Nas casas e apartamentos da cidade, as pessoas v\u00eaem netflix e jogam playstation, objetivando a imagina\u00e7\u00e3o. O perigo, o temor e o desconhecido s\u00e3o assim aprisionados no ritmo da cidade. A magia perde-se, e as hist\u00f3rias acabam.<\/p>\n<p>O Entroncamento teve muitas hist\u00f3rias em comum, desde os fen\u00f3menos, o parafuso, os onze unidos. Teve o zequinha que era padeiro, que n\u00e3o gostava que lhe chamassem zequinha, e atirava pedras \u00e0s crian\u00e7as que assim o ofendiam. O Armandinho que ia sempre esperar o pai \u00e0 esta\u00e7\u00e3o, apesar dele ter falecido havia muitos anos. O T\u00f3 Garinho que rangia os dentes quando se sentia amea\u00e7ado. O Barbosa que batia em quem lhe tirasse a bola nas peladinhas da zona verde. Estas eram as nossas serras. Pessoas com hist\u00f3rias maiores que si mesmas, recortando os horizontes da nossa imagina\u00e7\u00e3o. Hoje temos desconhecidos, sombras e vultos a pairar na cidade. Pessoas cujas hist\u00f3rias n\u00e3o se contam, n\u00e3o se dizem, n\u00e3o se falam. \u00c9 o preto. O monh\u00e9. O presidente. O dono da loja. Parcas qualifica\u00e7\u00f5es para quem se esconde e se evita. Pessoas que perseguem os seus pr\u00f3prios interesses, desenraizadas, desumanizadas. As rela\u00e7\u00f5es cristalizaram como as cerejas no bolo rei &#8211; demasiado doces, demasiado hip\u00f3critas. Dados viciados em jogos combinados pelos vencedores de sempre.<\/p>\n<p>A Serra d&#8217;Aire, assim como as estrelas, l\u00e1 continuam, inc\u00f3lumes, \u00e0 espera que olhemos para l\u00e1, e as hist\u00f3rias voltem a ser livres, num tempo fora deste tempo.<\/span><\/p>\n<p><em><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\">Foto de Tyler Lastovich<\/span><\/em><\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/da-minha-janela-a-cronica-de-goncalo-serras-a-cidade-e-as-serras\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pouco olhei a serra d&#8217;aire em crian\u00e7a, enquanto cresci no Entroncamento. 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