{"id":73630,"date":"2026-03-31T19:11:31","date_gmt":"2026-03-31T18:11:31","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=73630"},"modified":"2026-03-31T18:43:20","modified_gmt":"2026-03-31T17:43:20","slug":"editorial-o-homem-que-caminhava-connosco-e-a-merda-que-nao-pode-fazer-parte-da-nossa-vida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/editorial-o-homem-que-caminhava-connosco-e-a-merda-que-nao-pode-fazer-parte-da-nossa-vida\/","title":{"rendered":"Editorial: O homem que caminhava connosco e a merda da nossa vida"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">H\u00e1 pessoas que n\u00e3o precisam de palco para marcar um territ\u00f3rio. O Sr. Rold\u00e3o, que nos deixou na semana passada, era uma delas.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">N\u00e3o era homem de aparecer \u2014 era homem de estar. Estava na pastelaria do Alto da Fonte, estava nos caminhos da Barquinha, estava nos livros que escrevia e que me oferecia com a generosidade de quem sabe que a cultura \u00e9 uma forma de presen\u00e7a. Estava sempre l\u00e1, como se fizesse parte da pr\u00f3pria geografia.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Um dia, nessa mesma pastelaria em Vila Nova da Barquinha, era eu diretor do Jornal Novo Almourol, disse-lhe que ia subir o percurso desde o sop\u00e9 at\u00e9 ao monte, para ver com os meus olhos o que a suinicultura tinha deixado espalhado. O ar rarefeito, as roupas a secar ficavam imundas.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Um cheiro nauseabundo havia tomado a vila ref\u00e9m. Ele, com mais de setenta anos, n\u00e3o hesitou. Perguntou apenas: <\/span><strong><span style=\"font-size: medium;\">\u201cPosso ir contigo?\u201d<\/span><\/strong><\/span><\/span><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Antonio-Roldao.tif\"><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-73638\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Antonio-Roldao.tif\" alt=\"\" \/><\/a><img decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-73638\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Antonio-Roldao.tif\" alt=\"\" \/><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-full wp-image-73640\" src=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Antonio-Roldao.jpg\" alt=\"\" width=\"768\" height=\"519\" srcset=\"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Antonio-Roldao.jpg 768w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Antonio-Roldao-696x470.jpg 696w, https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2026\/03\/Antonio-Roldao-622x420.jpg 622w\" sizes=\"auto, (max-width: 768px) 100vw, 768px\" \/><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">E fomos. Passo a passo, at\u00e9 a terra deixar de ser terra e passar a ser lama. At\u00e9 a lama deixar de ser lama e passar a ser merda de porco. At\u00e9 percebermos, os dois, que aquilo n\u00e3o era apenas um problema ambiental \u2014 era um problema de fronteiras. De limites. De quem ocupa o que n\u00e3o devia ocupar.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">A suinicultura, <\/span><span style=\"font-size: medium;\">no alto da vila,<\/span><span style=\"font-size: medium;\"> tinha lagoas de tratamento. Tinha regras. Tinha obriga\u00e7\u00f5es. Mas deixou de ter uma coisa essencial: <\/span><strong><span style=\"font-size: medium;\">cuidado<\/span><\/strong><span style=\"font-size: medium;\">. E quando algu\u00e9m deixa de cuidar, o territ\u00f3rio sofre. E quando o territ\u00f3rio sofre, as pessoas sofrem com ele.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Eu investiguei porque era jornalista. Criei uma peti\u00e7\u00e3o porque era cidad\u00e3o. Mas caminhei com o Sr. Rold\u00e3o porque ele era o tipo de homem que n\u00e3o deixava ningu\u00e9m ir sozinho quando a terra precisava de testemunhas.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Ele conhecia os montes da Barquinha como quem conhece a palma da m\u00e3o. Sabia que por baixo deles correm ribeiras e len\u00e7\u00f3is de \u00e1gua que sustentam tudo o que somos. Sabia que quando se deixa um porco crescer sem limites, ele n\u00e3o fica apenas grande \u2014 ele ocupa. E quando ocupa, contamina. E quando contamina, transforma tudo \u00e0 sua volta num lugar onde o ar deixa de ser ar e passa a ser aviso.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">E \u00e9 aqui que a met\u00e1fora se imp\u00f5e, mesmo quando n\u00e3o a queremos.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Porque os porcos nunca s\u00e3o apenas porcos. \u00c0s vezes s\u00e3o pr\u00e1ticas. \u00c0s vezes s\u00e3o discursos. \u00c0s vezes s\u00e3o ideias que prometem limpeza mas deixam rasto de lama por onde passam. Ideias que se espalham r\u00e1pido, que se infiltram no espa\u00e7o p\u00fablico, que tentam transformar o que \u00e9 de todos num curral onde s\u00f3 alguns mandam.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">O encerramento da suinicultura foi uma vit\u00f3ria do territ\u00f3rio. Mas tamb\u00e9m foi um alerta.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Porque, tal como naquela explora\u00e7\u00e3o, h\u00e1 quem ache que pode ocupar sem pedir licen\u00e7a, poluir sem consequ\u00eancia, crescer sem limites. H\u00e1 quem se apresente como solu\u00e7\u00e3o, mas traga consigo o mesmo cheiro a descuido, a agressividade, a simplifica\u00e7\u00e3o perigosa. H\u00e1 quem queira transformar a vida coletiva num terreno onde a lama \u00e9 normalizada.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">E \u00e9 por isso que escrevo isto: <\/span><strong><span style=\"font-size: medium;\">n\u00e3o podemos deixar que os porcos poluam o nosso espa\u00e7o.<\/span><\/strong><span style=\"font-size: medium;\"> Nem o ar que respiramos, nem a \u00e1gua que corre por baixo dos montes, nem a democracia que nos sustenta.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">O Sr. Rold\u00e3o sabia isto sem precisar de o dizer. Sabia porque caminhava. Sabia porque via. Sabia porque, mesmo com merda at\u00e9 \u00e0 canela, nunca deixou de acreditar que o territ\u00f3rio merecia melhor.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Hoje, quando penso nele, percebo que a sua maior li\u00e7\u00e3o n\u00e3o veio apenas dos livros que me ofereceu, mas daquela caminhada ao meu lado: <\/span><strong><span style=\"font-size: medium;\">h\u00e1 momentos em que \u00e9 preciso descer ao terreno para perceber at\u00e9 onde a lama chegou \u2014 e at\u00e9 onde estamos dispostos a deix\u00e1-la subir.<\/span><\/strong><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Porque se n\u00e3o estivermos atentos, um dia acordamos e percebemos que os porcos j\u00e1 n\u00e3o est\u00e3o no curral. Est\u00e3o no monte. Est\u00e3o no discurso. Est\u00e3o no poder.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"color: #000000;\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">E a\u00ed, j\u00e1 n\u00e3o basta caminhar. \u00c9 preciso impedir que a lama se torne paisagem.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/editorial-o-homem-que-caminhava-connosco-e-a-merda-que-nao-pode-fazer-parte-da-nossa-vida\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>H\u00e1 pessoas que n\u00e3o precisam de palco para marcar um territ\u00f3rio. 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