{"id":71805,"date":"2026-01-06T18:49:16","date_gmt":"2026-01-06T18:49:16","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=71805"},"modified":"2026-01-06T18:49:16","modified_gmt":"2026-01-06T18:49:16","slug":"a-cronica-de-manuel-fernandes-vicente-a-criatura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/a-cronica-de-manuel-fernandes-vicente-a-criatura\/","title":{"rendered":"A cr\u00f3nica de Manuel Fernandes Vicente: \u201cA Criatura\u201d"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><span style=\"color: #050505;\">Tinha voltado a encontrar o Eleut\u00e9rio Ferraz Pereira, num daqueles col\u00f3quios sobre o estado do ensino em Portgal e, portanto, por raz\u00f5es estritamente profissionais, h\u00e1 umas boas tr\u00eas boas dezenas de anos, seguramente ainda na \u00faltima d\u00e9cada do s\u00e9culo passado, governava ent\u00e3o o pa\u00eds, se n\u00e3o erro, o primeiro-ministro Ant\u00f3nio Guterres, hoje o not\u00e1vel secret\u00e1rio-geral da ONU, a Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas. O Eleut\u00e9rio, ent\u00e3o ainda bastante jovem e voluntarioso, pensava j\u00e1 como um fil\u00f3sofo, o seu racioc\u00ednio sobre a educa\u00e7\u00e3o, a sociedade e as novas correntes pedag\u00f3gicas (que ent\u00e3o se multiplicavam como coelhos numa ilha tropical) acolhia bastante bem as <\/span><span style=\"color: #050505;\"><i>nuances<\/i><\/span><span style=\"color: #050505;\"> apresentadas por outros participantes, aceitava as cr\u00edticas (mesmo as mais mordazes \u00e0s suas ideias), enfim, a complexidade entrara no seu pensamento, longe de o considerar perfeito e definitivo, nada que o perturbasse demasiado. De resto j\u00e1 pensava assim nos nobres tempos de Coimbra, pensava j\u00e1 muito antes do seu tempo, mas sem vaidade, sem sobranceria, sem afeta\u00e7\u00f5es. Voltei a encontr\u00e1-lo h\u00e1 poucas semanas numa reuni\u00e3o, o reencontro foi assaz frio, a ro\u00e7ar o formal, j\u00e1 n\u00e3o era o L\u00e9lito Pereira, como o conhecera, mas um personagem que s\u00f3 n\u00e3o era de fic\u00e7\u00e3o porque estava ali h\u00e1 minha frente, mas comigo a pensar que se em vez de carne e osso o seu <\/span><span style=\"color: #050505;\"><i>hardware <\/i><\/span><span style=\"color: #050505;\">n\u00e3o estaria j\u00e1 bastante fornecido e impregnado de cabos, sensores, um processador e, naturalmente, uma placa gr\u00e1fica. Pelo sim e pelo n\u00e3o, preferi ficar na d\u00favida, tanto mais que, pouco depois, as ideias pedag\u00f3gicas e sociais que revelava j\u00e1 se tinham radicalizado a um grau muito dif\u00edcil de digerir. <\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><span style=\"color: #050505;\">\u00c9 claro que tenho consci\u00eancia de que n\u00e3o foi s\u00f3 o velho Eleut\u00e9rio que mudou porque, se assim n\u00e3o fosse, ningu\u00e9m sobreviveria ao sismo tecnol\u00f3gico das \u00faltimas d\u00e9cadas, mas, mesmo assim, a sua mudan\u00e7a conseguiu perturbar-me. Tornou-se uma pessoa absolutamente neutral, dotado de uma l\u00f3gica r\u00edgida e sem desordem criativa, claro, r\u00e1pido, indiferente e impessoal. Tudo cheio de certezas incontest\u00e1veis, tudo seco e sem ambiguidades, tudo a condizer com ele, com o seu fato de azul apagado, a camisa beje e gravata cinzenta, tudo incapaz de revelar o seu estado de esp\u00edrito, se \u00e9 que falar em estado de esp\u00edrito, no seu caso, ainda fosse uma coisa dotada de algum sentido. Percebi naturalmente pelo que disse e sobretudo pelo que ficou por dizer que as suas \u00faltimas d\u00e9cadas tinham sido consagradas ao planeta abrupto das novas tecnologias [Intelig\u00eancia Artificial (IA), rob\u00f3tica, <\/span><span style=\"color: #050505;\"><i>big data<\/i><\/span><span style=\"color: #050505;\">, realidade virtual, computa\u00e7\u00e3o em nuvem, etc.] e recordei o que a voz autorizada do professor e neurocientista portugu\u00eas Ant\u00f3nio Dam\u00e1sio disse ainda recentemente, notando que \u201ca tecnologia moderna menospreza a capacidade de sentir\u201d. \u00c9 claro que estava ali um caso patente, e eu sei h\u00e1 muito que todas as compara\u00e7\u00f5es s\u00e3o um pouco odiosas, e portanto a evitar, mas n\u00e3o pude deixar de notar, se \u00e9 que iato faz algum sentido, que se o seu caminho se aproximara das certezas irrevog\u00e1veis, os meus muito mais humildes trilhos me levaram para cada vez ser mais destitu\u00eddo desse tipo de convic\u00e7\u00f5es e sentimentos.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><span style=\"color: #050505;\">Esta reflex\u00e3o de ocasi\u00e3o sobre este recente reencontro (digamos assim) pode parecer um caso no singular, mas devo advertir o meu caro leitor que n\u00e3o, pode parecer ser assim, mas a verdade \u00e9 que est\u00e1 bem longe de o ser, e at\u00e9, para ser mais honesto, situa\u00e7\u00f5es como estas, t\u00eam j\u00e1 alguns anos e barbas, e replicam-se um pouco por diversas \u00e1reas. Gradualmente, mas com seguran\u00e7a garantida, esta invas\u00e3o capciosa do verme tecnol\u00f3gico nos comportamentos e nas atitudes humanas \u00e9 um pouco compar\u00e1vel (l\u00e1 estamos n\u00f3s\u2026) \u00e0 invas\u00e3o das zonas costeiras pelo mar e devida ao aquecimento global\u2026<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><span style=\"color: #050505;\">Certa vez, um familiar meu, j\u00e1 com alguma idade, sentindo-se mal, dores no peito e um cansa\u00e7o que o impedia de subir um simples lan\u00e7o de escadas sem descansar ao meio, foi a um m\u00e9dico hospitalar, e no tempo em que permaneceu (de p\u00e9) na consulta nem uma \u00fanica vez, segundo creio, o doutor se dignou retirar os olhos do monitor com uns gr\u00e1ficos e n\u00fameros na secret\u00e1ria e olhar para a pessoa que tinha \u00e0 sua frente e que estava, segundo creio tamb\u00e9m, a avaliar e diagnosticar. <\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><span style=\"color: #050505;\">Noutro caso, bastante distinto, uma jovem nos seus 14 ou 15 anos \u00e0 pala de tanto usar os conte\u00fados regurgitados pela <\/span><span style=\"color: #050505;\"><i>Internet<\/i><\/span><span style=\"color: #050505;\"> e, mais recentemente, pela IA, evoluiu para uma esp\u00e9cie de autismo social j\u00e1 incapaz de estabelecer algum di\u00e1logo, para n\u00e3o falar do pensamento cr\u00edtico, a rondar o n\u00edvel zero da respetiva escala. \u00c9 claro que a aluna, que j\u00e1 se guia mais pala IA do que pelas opini\u00f5e pr\u00f3prias, n\u00e3o tem culpa. Pertence a uma gera\u00e7\u00e3o \u00e0 qual deram telem\u00f3veis em vez de educa\u00e7\u00e3o. Ao contr\u00e1rio do copioso acne no rosto, o l\u00e9xico desta jovem \u00e9 de uma pobreza confrangedora, e se \u00e9 verdade que pensamos por palavras, \u00e9 de lastimar que ela esteja a perder capacidades por n\u00e3o ter palavras com as quais possa pensar. A verdade \u00e9 que, pela teimosia de seguirmos pelos caminhos mais f\u00e1ceis, temos falhado, e muito, com os nossos mais jovens. <\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><span style=\"color: #050505;\">Por fim, percebi que algures, numa destas famosas sociedades em que o desenvolvimento tecnol\u00f3gico irrompeu e deixou para tr\u00e1s os limites mais decentes, j\u00e1 se chegaram a aplicar senten\u00e7as a pessoas com base n\u00e3o nos factos reais e comprov\u00e1veis mas pela simples aplica\u00e7\u00e3o de um sinistro algoritmo enviesado de um sistema inform\u00e1tico que, admitindo como certo o que era apenas uma probabilidade, condena cegamente, n\u00e3o podendo ningu\u00e9m garantir que est\u00e1 ao abrigo destes excessos (que normalmente tamb\u00e9m penalizam as pessoas e os grupos j\u00e1 mais fustigados pela sociedade). <\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><a name=\"_GoBack\"><\/a> <span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><span style=\"color: #050505;\">A verdade \u00e9 que nos dois pratos da equa\u00e7\u00e3o que temos de saber gerir e equilibrar temos, por um lado, os recursos alucinantes das novas tecnologias, capazes das mais r\u00e1pidas, impressionantes e expeditas solu\u00e7\u00f5es, e por outro a natureza humana, muito mais lenta (os milh\u00f5es de anos de evolu\u00e7\u00e3o) com as suas complexidades, o seu ego\u00edsmo, os seus territ\u00f3rios, a sua \u00e9tica, as suas emo\u00e7\u00f5es. E, \u00e9 claro ainda, se colocarmos trincheiras neste universo, julgo que j\u00e1 deixou de ser pertinente estabelecer um confronto do tipo \u201cseres humanos <\/span><span style=\"color: #050505;\"><i>versus<\/i><\/span><span style=\"color: #050505;\"> novas tecnologias\u201d, associando as virtudes aos primeiros e todos os predicados mais nefastos \u00e0s segundas. J\u00e1 deixei h\u00e1 algum tempo de ir atr\u00e1s dessa simplifica\u00e7\u00e3o, se \u00e9 humano \u00e9 bom, se a tecnologia anda silenciosamente por l\u00e1, n\u00e3o vale a pena. A realidade tornou-se bastante mais amalgamada e n\u00e3o deixa de surpreender. Por um lado, as possibilidades oferecidas pelas novas tecnologias n\u00e3o p\u00e1ram de abrir mundos e caminhos para l\u00e1 chegar, e por outro, os seres humanos, com as suas vulnerabilidades (a exposi\u00e7\u00e3o \u00e0 evolu\u00e7\u00e3o teve algumas facetas que hoje parecem bizarras \u2013 mas que na altura foram necess\u00e1rias), tamb\u00e9m n\u00e3o deixam de desencantar e de desiludir. Para ser franco, j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel garantir de que lado das tricheiras poder\u00e1 estar o bem ideal e virtuoso e onde mora o mal abomin\u00e1vel e a evitar \u2013 se \u00e9 que ainda faz algum sentido perspetivar as coisas pelos c\u00e2nones da moral e da beleza. No fundo, quem poder\u00e1 ter mesmo a raz\u00e3o \u00e9 o velho Eleut\u00e9rio, j\u00e1 h\u00e1 muito rendido \u00e0 exalta\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica, que caminha sem desvios, n\u00e3o se distrai com rostos nem se emociona a ouvir Johann Sebastian Bach ou os Lewsberg (n\u00e3o, o leitor n\u00e3o tem de agradecer), das palavras usa s\u00f3 as que s\u00e3o precisas, e nos di\u00e1logos pretende apenas colher dados. Ele \u00e9 que sabe e vai j\u00e1 \u00e0 frente. \u00c9 ele a criatura do futuro, e desejo-lhe, sem cinismos, que acerte na sua l\u00f3gica nem sempre intelig\u00edvel nem generosa.<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p><em>&lt;<\/em><\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/a-cronica-de-manuel-fernandes-vicente-a-criatura\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tinha voltado a encontrar o Eleut\u00e9rio Ferraz Pereira, num daqueles col\u00f3quios sobre o estado do ensino em Portgal e, portanto, por raz\u00f5es estritamente profissionais, h\u00e1 umas boas tr\u00eas boas dezenas de anos, seguramente ainda na \u00faltima d\u00e9cada do s\u00e9culo passado, governava ent\u00e3o o pa\u00eds, se n\u00e3o erro, o primeiro-ministro Ant\u00f3nio Guterres, hoje o not\u00e1vel secret\u00e1rio-geral [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":43,"featured_media":71237,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[55,139,66],"tags":[],"class_list":["post-71805","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-cronica","category-cronica-eol","category-manuel-fernandes-vicente"],"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/71805","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/43"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=71805"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/71805\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":71806,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/71805\/revisions\/71806"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/71237"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=71805"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=71805"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=71805"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}