{"id":70478,"date":"2025-11-03T11:50:30","date_gmt":"2025-11-03T11:50:30","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=70478"},"modified":"2025-11-03T12:40:01","modified_gmt":"2025-11-03T12:40:01","slug":"a-cronica-de-manuel-fernandes-vicente-estas-ousadas-trotinetas-da-cidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/a-cronica-de-manuel-fernandes-vicente-estas-ousadas-trotinetas-da-cidade\/","title":{"rendered":"A Cr\u00f3nica de Manuel Fernandes Vicente: &#8220;Estas ousadas trotinetas da cidade&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-size: large;\">De um momento para o outro, elas passaram a circular de rompante e de modo bastante ousado e intrusivo nas ruas e ciclovias da cidade. S\u00e3o a <\/span><span style=\"font-size: large;\"><i>big thing <\/i><\/span><span style=\"font-size: large;\">de momento e, como disse, apareceram de uma forma alucinante a conspurcar a circula\u00e7\u00e3o entre pe\u00f5es e o tr\u00e2nsito mais convencional nas ruas, pra\u00e7as, ciclovias e estradas da urbe, que nasceu ferrovi\u00e1ria, mas hoje j\u00e1 est\u00e1 muito cosmopolita e modernizada. Na verdade, hoje, para se ser moderno, estar <\/span><span style=\"font-size: large;\"><i>au point<\/i><\/span><span style=\"font-size: large;\">, e conseguir despertar entre os adolescentes e na malta das tecnologias e das cenas virtuais, uns olhares de fantasia do tipo \u201cai se eu pudesse, tamb\u00e9m queria uma\u201d, \u00e9 preciso alardear uma e vaguear e exibir-se com ela de forma vistosa. \u00c9 uma vis\u00e3o de vanguarda, sustent\u00e1vel, ecol\u00f3gica quanto baste e que adota uma quantidade significativa de \u00edcones de tretas da modernidade. Na verdade, uma vers\u00e3o atualizada e<\/span><span style=\"font-size: large;\"><i> vintage <\/i><\/span><span style=\"font-size: large;\">das antigas bicicletas com um espampanante espelho retrovisor com fitas decorativas pendentes \u00e0 esquerda, que antigamente os seus benefici\u00e1rios passeavam com garbo e com os seus fatos domingueiros, com uma mola a apertar a bainha da perna direita das cal\u00e7as (por causa do \u00f3leo da corrente) e a ouvir o relato do futebol no r\u00e1dio port\u00e1til, que uma das m\u00e3os cuidadosamente segurava. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Na realidade estas novas viaturas de circula\u00e7\u00e3o urbana s\u00e3o o m\u00e1ximo, digamos assim, em mat\u00e9ria de mobilidade urbana. T\u00eam tudo para simpatizarmos com elas, pelo <\/span><span style=\"font-size: large;\"><i>design<\/i><\/span><span style=\"font-size: large;\">, pela conce\u00e7\u00e3o, pela eleg\u00e2ncia, pelo minimalismo, pela ecologia, mas na verdade s\u00e3o uma praga que invadiu a cidade, e tanto mais o \u00e9, pelo facto de o Entroncamento, pela sua planura, pela ortogonalidade ruas, pela rede consider\u00e1vel de ciclovias e por uma ou outra pra\u00e7a p\u00fablica mais ampla e acolhedora, se ter tornado num <\/span><span style=\"font-size: large;\"><i>habitat <\/i><\/span><span style=\"font-size: large;\">particularmente propicio e at\u00e9 paternal \u00e0 sua prolifera\u00e7\u00e3o sem freio nem ant\u00eddoto.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Circulam no burgo com uma liberdade e um descontrolo invej\u00e1vel. Denotando um equil\u00edbrio apreci\u00e1vel e quase de acrobata sobre a min\u00fascula plataforma a que s\u00f3 uma enorme habilidade permite assentar os dois p\u00e9s, deixem passar os trotinistas (o termo n\u00e3o est\u00e1 ainda dicionarizado, mas entende-se, os dicion\u00e1rios andam sempre um pouco mais devagar), que deles ser\u00e1 o reino das vias p\u00fablicas. Usam as ruas e frequentam assiduamente os passeios, passando mesmo resv\u00e9s Campo de Ourique \u00e0 sa\u00edda dos moradores mal estes d\u00e3o o primeiro passo para fora das resid\u00eancias; circulam pela direita, pelo meio ou pela esquerda das estradas, e deambulam destas para as passadeiras, e vice-versa, indistintamente e, naturalmente, sempre da forma que mais lhes interessa; aos sem\u00e1foros, se o sinal n\u00e3o conv\u00e9m, apeiam, tornam-se pe\u00f5es, avan\u00e7am quatro ou cinco passos e voltam a converter-se em trotinetistas j\u00e1 sem o inc\u00f3modo de um sinal inconveniente pela frente. Nas pra\u00e7as p\u00fablicas, havendo algum espa\u00e7o dispon\u00edvel aceleram com efic\u00e1cia e depois, podem fazer um \u00e1gi<\/span><span style=\"font-size: large;\"><i>l slalom<\/i><\/span><span style=\"font-size: large;\"> em <\/span><span style=\"font-size: large;\"><i>freestyle<\/i><\/span><span style=\"font-size: large;\"> entre as esplanadas, ou mesmo entre as mesas de uma delas. E, sem complexos nem azedumes, nem que seja para simplesmente matar o t\u00e9dio, circulam com luzes LED ou sem elas, com ou sem seguros de circula\u00e7\u00e3o, com ou sem carta de condu\u00e7\u00e3o, com capacete e sem capacete, a mais ou a menos de 25 Km por hora, com motor el\u00e9trico ou movidas a impulsos com o p\u00e9, em desdobr\u00e1veis ou n\u00e3o, e conduzidas com tino ou sem ele, h\u00e1 modalidades para tudo, e regras para cada vers\u00e3o <\/span><span style=\"font-family: Cambria Math, serif;\"><span style=\"font-size: large;\">\u23bc<\/span><\/span><span style=\"font-size: large;\"> tudo funciona maravilhosamente mas s\u00f3 at\u00e9 ao momento em que alguma vez ocorra um problema mais grave e que, como j\u00e1 n\u00e3o se pode evitar, tem de se resolver.<\/span><\/p>\n<p><a name=\"_GoBack\"><\/a> <span style=\"font-size: large;\">A trotineta, no seu mundo maravilhoso, pode parecer um modo de circula\u00e7\u00e3o urbana in\u00f3cuo, inocente, ecol\u00f3gico e compagin\u00e1vel com a modernidade, n\u00e3o s\u00f3 pela taxa de carbono que envolve como pela sua adequa\u00e7\u00e3o a um mundo que privilegia a independ\u00eancia, a individualidade e o desenrascan\u00e7o. Pode parecer e tem tudo para o ser. H\u00e1 trotinetistas exemplares, fazem o que deve ser feito, e evitam o que \u00e9 para evitar, mas nem todos s\u00e3o assim, longe disso, h\u00e1 verdadeiros <\/span><span style=\"font-size: large;\"><i>cowboys<\/i><\/span><span style=\"font-size: large;\"> urbanos para quem as suas trotinetas s\u00e3o um misto de cavalo do Faroeste americano e de um objeto arriscado, a come\u00e7ar por o perigo apontar em primeiro lugar para si pr\u00f3prio. E assim, e meramente a t\u00edtulo de exemplo, j\u00e1 vi demasiadas vezes umas trotinetas conduzidas por jovens nas ciclovias que, em p\u00e9 sobre os seus veloc\u00edpedes, cruzam ruas perpendiculares num esp\u00edrito de verdadeira roleta russa, pois n\u00e3o olham nem abrandam nem querem saber. Felizmente, que eu saiba, ainda nada aconteceu, ainda bem. <\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">Num final de tarde, h\u00e1 duas ou tr\u00eas semanas, um jovem, pelos seus 13-14 anos, foi um dos exemplos que fez uma destas roletas, ali para os lados da Rua da esperan\u00e7a. Todavia dois ou tr\u00eas minutos depois, e j\u00e1 de regresso, repetiu a fa\u00e7anha, nova roleta russa, nada aconteceu, mas eu pedi-lhe, nas calmas que gostaria de falar com ele. Nestas situa\u00e7\u00f5es podemos apenas tomar duas atitudes: intervir ou ignorar. Eu, que j\u00e1 perten\u00e7o a uma estirpe mais antiga e <\/span><span style=\"font-size: large;\"><i>d\u00e9mod\u00e9<\/i><\/span><span style=\"font-size: large;\">, e nunca lidei muito bem com a indiferen\u00e7a quando algum caso me exigia algo mais, decidi intervir. Ouviu-me com respeito e agradeceu, sem mostrar qualquer agastamento ou inc\u00f3modo, depois seguiu.<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">H\u00e1 um caso que, todavia, e por o ter protagonizado em nome pr\u00f3prio, me incumbe relat\u00e1-lo, mais pelo que pode ilustrar do que propriamente pelo que sucedeu. Ainda recentemente, ao sair de uma farm\u00e1cia da cidade<\/span><span style=\"font-size: large;\">, e vindo ainda a acomodar os medicamentos no pequeno saco que os guardava, vem disparado na cal\u00e7ada do passeio, sob as arcadas dos pr\u00e9dios e passa mesmo rente \u00e0 porta uma dessas vertiginosas trotinetas com o respetivo condutor a orient\u00e1-la e a uma velocidade de algu\u00e9m que est\u00e1 cheio de pressa, mas \u00e9 incapaz de fazer a m\u00ednima perspetiva do que pode acontecer (inclusive a si pr\u00f3prio). A trotineta passou como um b\u00f3lide, eu at\u00e9 presumi que fosse um pequeno asteroide desgovernado desses que passam de mil\u00e9nio a mil\u00e9nio, mas n\u00e3o, porque ainda o pude descortinar no cruzamento a seguir a contornar um poste, a transpor o sinal vermelho (entretanto tinha transitado para a estrada) e seguir o seu rumo. Mesmo sem emiss\u00f5es de carbono, n\u00e3o pude deixar de olhar para ele sem alguma desconfian\u00e7a. O que eu posso garantir, caros leitores, \u00e9 que se o caso tivesse ocorrido poucas d\u00e9cimas de segundo depois, n\u00e3o tenho d\u00favidas que ambos ficar\u00edamos bastante maltratados e prontos para reparar os danos<\/span><span style=\"font-size: large;\">&#8230; Para um veloc\u00edpede que se diz ser t\u00e3o sustent\u00e1vel e amigo n\u00e3o estou a ver bem como \u00e9 que \u00e9\u2026<\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-size: large;\">O que \u00e9 certo \u00e9 que, face \u00e0 invas\u00e3o a galope, e at\u00e9 mesmo \u00e0 intrus\u00e3o, de centenas de trotinetas nas art\u00e9rias (todas) do Entroncamento, h\u00e1 que esperar que os \u00f3rg\u00e3os municipais possam (e t\u00eam compet\u00eancias para tal) em curto espa\u00e7o de tempo intervir e estabelecer normas e regras neste setor t\u00e3o liberal e ecol\u00f3gico, mas com um grau de seguran\u00e7a bastante duvidoso, a que muitas vezes o pr\u00f3prio sil\u00eancio em que as trotinetas se movem s\u00f3 ajuda a aumentar. As trotinetas n\u00e3o s\u00e3o nem brinquedos nem para n\u00fameros de circo nem para pistas de F\u00f3rmula Um, por vezes com tantos pe\u00f5es a circular em redor. N\u00e3o \u00e9 nada que, com normas, civismo, educa\u00e7\u00e3o, cortesia (termo que desconhe\u00e7o se ainda estar\u00e1 presente no dicion\u00e1rio, pois das ruas e pra\u00e7as j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 avistado h\u00e1 algum tempo) e algumas interven\u00e7\u00f5es nalguns lugares da cidade n\u00e3o se resolva. <\/span><span style=\"font-size: large;\"><i>Et pourtant\u2026<\/i><\/span><\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/a-cronica-de-manuel-fernandes-vicente-estas-ousadas-trotinetas-da-cidade\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>De um momento para o outro, elas passaram a circular de rompante e de modo bastante ousado e intrusivo nas ruas e ciclovias da cidade. 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