{"id":69640,"date":"2025-09-13T20:50:59","date_gmt":"2025-09-13T19:50:59","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=69640"},"modified":"2025-09-13T19:21:15","modified_gmt":"2025-09-13T18:21:15","slug":"a-cronica-de-manuela-poitout-manuel-rosa-valerio-um-cidadao-que-foi-esquecido-e-nao-merecia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/a-cronica-de-manuela-poitout-manuel-rosa-valerio-um-cidadao-que-foi-esquecido-e-nao-merecia\/","title":{"rendered":"A Cr\u00f3nica de Manuela Poitout: &#8220;Manuel Rosa Val\u00e9rio, um Cidad\u00e3o que foi esquecido e n\u00e3o merecia&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Vivemos no tempo do esquecimento e do momento que passa. As pessoas est\u00e3o muito focadas em si mesmas, e valores que foram transmitidos de gera\u00e7\u00e3o em gera\u00e7\u00e3o, como o culto da mem\u00f3ria, ou seja, lembrar quem merece ser lembrado, come\u00e7am a ficar para tr\u00e1s.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Esta introdu\u00e7\u00e3o vem a prop\u00f3sito de uma dessas pessoas esquecidas, Manuel Rosa Val\u00e9rio, que fez parte da <i>Santa Casa da Miseric\u00f3rdia<\/i>, desde o tempo inicial desta, quando ela tinha, como obra \u00fanica, o <i>Posto Hospitalar<\/i>, hoje <i>Hospital de S\u00e3o Jo\u00e3o Baptista<\/i>.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Nesse tempo em que n\u00e3o havia grandes ajudas financeiras, em que os subs\u00eddios eram escassos, e a pobreza no Entroncamento era muita, vivia o <i>Posto Hospitalar<\/i> das ajudas dos benfeitores, n\u00e3o s\u00f3 em dinheiro, mas em g\u00e9neros, ou outros artigos necess\u00e1rios. O trabalho dos tr\u00eas m\u00e9dicos de servi\u00e7o era gratuito, gratuitas eram as consultas para os mais pobres, era a miseric\u00f3rdia da Miseric\u00f3rdia.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Foi num tempo assim, em 5 fevereiro de 1964, quando j\u00e1 exercia interinamente o trabalho de Provedor, que Manuel Rosa Val\u00e9rio assumiu, oficialmente, essa fun\u00e7\u00e3o. E nesse lugar cumpriu trinta e cinco anos ininterruptos de trabalho, e mais aqueles em que foi Provedor interino. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">O Sr. Val\u00e9rio foi Provedor de 1964 a 1999. E foi ele, como Provedor, que sofreu os tempos mais duros da vida desta institui\u00e7\u00e3o, quando fez a sua entrega ao Estado, em 1975, com a nacionaliza\u00e7\u00e3o determinada pelas circunst\u00e2ncias e legisla\u00e7\u00f5es do novo regime, e depois, quando recebeu o patrim\u00f3nio degradado, patrim\u00f3nio que reergueu, obra que ampliou.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Foi Manuel Rosa Val\u00e9rio o primeiro a pensar num Lar para os idosos, o Lar Fernando Eir\u00f3 veio depois. E n\u00e3o s\u00f3 pensou, como passou \u00e0 fase do projeto, posteriormente entravado por incompatibilidades legais, hist\u00f3ria que \u00e9 contada no seman\u00e1rio local <i>O Entroncamento<\/i>, numa conversa entre o professor Francisco Corujo e o pr\u00f3prio Val\u00e9rio. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">O professor j\u00e1 estava aposentado e idoso, e, por isso, preocupava-o a sorte dos idosos no Entroncamento, isto em 1969, o que o levou junto do Provedor, para saber se ele teria projetos nesta \u00e1rea. A conversa que decorreu entre ambos, est\u00e1 registada assim:<\/span><\/span><\/p>\n<p>\u201c<span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Logo nas nossas primeiras perguntas verific\u00e1mos que a Santa Casa da Miseric\u00f3rdia j\u00e1 h\u00e1 muito que est\u00e1 tratando do assunto, informando-nos o sr. Provedor da preocupa\u00e7\u00e3o em que se encontra com o n\u00famero sempre crescente de pessoas idosas que procuram o nosso Hospital, para internamento, mais pela sua idade e desamparo do que, propriamente, por doen\u00e7a. Como a fun\u00e7\u00e3o do Hospital n\u00e3o \u00e9 a de assist\u00eancia \u00e0 velhice v\u00e1lida, n\u00e3o podemos receber estas pessoas, o que bastante nos penaliza, e por isso, continua o senhor Provedor, a Santa Casa pensou construir quatro lares para casais idosos nos terrenos anexos ao Hospital.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Por isso fez o necess\u00e1rio pedido \u00e0 Dire\u00e7\u00e3o Geral de Assist\u00eancia, que elaborou o respetivo projeto, o qual mereceu parecer favor\u00e1vel dos servi\u00e7os T\u00e9cnicos da nossa C\u00e2mara. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Quando tudo parecia estar bem encaminhado para um breve princ\u00edpio de execu\u00e7\u00e3o dos trabalhos, a Dire\u00e7\u00e3o Geral dos Hospitais informou a Santa Casa de que n\u00e3o permitia a constru\u00e7\u00e3o dos referidos lares nos terrenos anexos ao Hospital, em virtude de os mesmos se destinarem \u00fanica e exclusivamente a instala\u00e7\u00f5es hospitalares que, num prazo que poder\u00e1 ser muito breve, ter\u00e3o de ser ampliadas, dado o alargamento da assist\u00eancia j\u00e1 verificado no nosso Hospital.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">N\u00e3o obstante, diz ainda o sr. Provedor, o assunto continua a ser a sua preocupa\u00e7\u00e3o, pelo que est\u00e1 trabalhando no sentido de adquirir terreno tanto quanto poss\u00edvel pr\u00f3ximo do Hospital, onde os referidos lares possam vir a ser constru\u00eddos, para que a sua manuten\u00e7\u00e3o seja assegurada pela Santa Casa da Miseric\u00f3rdia.\u201d<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Em 1975, foi promulgado o Decreto-Lei 618\/75, determinando que os hospitais concelhios pertencentes a pessoas coletivas de utilidade p\u00fablica, e o respetivo patrim\u00f3nio, revertessem em propriedade para o Estado, passando a desempenhar as fun\u00e7\u00f5es de hospital concelhio no \u00e2mbito do servi\u00e7o nacional de sa\u00fade.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Coube a Manuel Rosa Val\u00e9rio a penosa tarefa de tudo preparar para essa entrega, desde invent\u00e1rios a preenchimento de papeladas. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Entretanto, tinha-se come\u00e7ado a pensar, novamente, num lar, desta vez por iniciativa de Fernando Eir\u00f3, em 1974, o qual teve a sua concretiza\u00e7\u00e3o em 1979, como <i>Lar Fernando Eir\u00f3<\/i>, funcionando, provisoriamente, com 13 idosos, na antiga casa de Prote\u00e7\u00e3o aos Indigentes, conhecida como a <i>Sopa dos Pobres<\/i>, cedida pela Junta de Freguesia, desde 1975, enquanto a constru\u00e7\u00e3o do Lar decorria.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">O <i>Lar Fernando Eir\u00f3<\/i> come\u00e7ou a ser constru\u00eddo em 30 de mar\u00e7o de 1977, num terreno oferecido por D. Graciete Guia Agostinho. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Em 1985, a Administra\u00e7\u00e3o Regional de Sa\u00fade de Santar\u00e9m determinou a elabora\u00e7\u00e3o de um estudo t\u00e9cnico do <i>Hospital do Entroncamento<\/i>, devido a remodela\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias, para poder funcionar, e as mesmas foram desaconselhadas, por j\u00e1 ter sido aprovado um centro de sa\u00fade, e por n\u00e3o ser conveniente a exist\u00eancia de instala\u00e7\u00f5es dispersas, devido ao aumento de custos e \u00e0 falta de funcionalidade. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Lembramos que ao tempo deste estudo, ainda o <i>Hospital do Entroncamento<\/i> estava na posse do Estado.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Na verdade, o que mais sobressa\u00eda, naquele caso, n\u00e3o era a dispers\u00e3o, mas a <i>falta de condi\u00e7\u00f5es f\u00edsicas<\/i>, o <i>estado de degrada\u00e7\u00e3o das instala\u00e7\u00f5es <\/i>do antigo <i>Hospital da Miseric\u00f3rdia<\/i>, e por isso, a mesma Administra\u00e7\u00e3o Regional de Sa\u00fade passou a articular-se com a <i>Santa Casa da Miseric\u00f3rdia do Entroncamento<\/i>, com vista \u00e0 devolu\u00e7\u00e3o daquele servi\u00e7o \u00e0 mesma institui\u00e7\u00e3o a que j\u00e1 pertencera. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">A Manuel Rosa Val\u00e9rio coubera entregar, a ele lhe coube receber. E diz um of\u00edcio do chefe de gabinete da Ministra da Sa\u00fade (Leonor Beleza), em 23 de outubro de 1986:<\/span><\/span><\/p>\n<p>\u201c<span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">No sentido de ser garantida a manuten\u00e7\u00e3o do SAP [Servi\u00e7os de Atendimento Permanente] \u00e0 popula\u00e7\u00e3o, continuar\u00e1 o Centro de Sa\u00fade do Entroncamento a utilizar parte do edif\u00edcio, a menos danificada do ex-Hospital, limitando-se a Administra\u00e7\u00e3o Regional de Sa\u00fade a suportar o pagamento de uma renda proporcional \u00e0 \u00e1rea ocupada, tendo como subjacente o valor da renda atual pelo espa\u00e7o total.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Por outro lado, atendendo aos danos causados, ao estado de degrada\u00e7\u00e3o das instala\u00e7\u00f5es e \u00e0 necessidade de as continuar a utilizar, a bem dos interesses da popula\u00e7\u00e3o, e \u00e0 responsabilidade cometida \u00e0 Administra\u00e7\u00e3o Regional de Sa\u00fade, por contrato de arrendamento existente, entendeu-se entregar \u00e0 Miseric\u00f3rdia 850.000$00.\u201d<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Durante 1985 e 1986, foi Manuel Rosa Val\u00e9rio quem manteve o di\u00e1logo com o Governo, no sentido de reaver o Edif\u00edcio Hospitalar.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Foram muitas as vicissitudes para quem teve de come\u00e7ar tudo de novo, em rela\u00e7\u00e3o ao <i>Hospital da Miseric\u00f3rdia<\/i>, no restante continuava o trabalho do<br \/>\nProvedor, que n\u00e3o se interrompera com a ced\u00eancia do Hospital ao Estado, porque havia o <i>Lar Fernando Eir\u00f3<\/i>.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Uma vida de entrega \u00e0 <i>Santa Casa da Miseric\u00f3rdia<\/i>, e n\u00e3o existe uma homenagem, uma mem\u00f3ria evocativa que recorde o seu nome e a sua dedica\u00e7\u00e3o de tantos anos. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">N\u00e3o \u00e9 justo.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">MANUELA POITOUT<\/span><\/span><\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/a-cronica-de-manuela-poitout-manuel-rosa-valerio-um-cidadao-que-foi-esquecido-e-nao-merecia\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Vivemos no tempo do esquecimento e do momento que passa. 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