{"id":69245,"date":"2025-08-19T21:03:00","date_gmt":"2025-08-19T20:03:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=69245"},"modified":"2025-08-19T20:04:53","modified_gmt":"2025-08-19T19:04:53","slug":"a-cronica-de-sandra-may-entre-mudancas-e-conexoes-quando-o-pais-arde-a-nossa-casa-arde","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/a-cronica-de-sandra-may-entre-mudancas-e-conexoes-quando-o-pais-arde-a-nossa-casa-arde\/","title":{"rendered":"A Cr\u00f3nica de Sandra May &#8211; Entre Mudan\u00e7as e Conex\u00f5es: &#8220;Quando o pa\u00eds arde, a nossa casa arde&#8221;"},"content":{"rendered":"<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Entre cinzas e promessas que se acumularam durante anos, eis o que j\u00e1 parece n\u00e3o chocar:<b> Portugal est\u00e1 a arder<\/b>. Outra vez.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">E n\u00e3o arde h\u00e1 um, nem dois, nem tr\u00eas dias. <b>Arde h\u00e1 semanas<\/b>. E n\u00e3o \u00e9 apenas a paisagem que se desfaz em brasas. \u00c9 a paci\u00eancia de um povo inteiro que se consome com ela. As chamas devoram o interior, mas n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 \u00e1rvores que caem. Infelizmente, \u00e9 a heran\u00e7a que se desfaz, s\u00e3o as casas que deixam de ter paredes, \u00e9 a mem\u00f3ria das aldeias que se perde no fumo.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Sou uma nortenha orgulhosa que escolheu viver no interior, no centro do nosso pa\u00eds. Procurei durante tantos anos pelo lugar que me fizesse sentir completa e, quando finalmente o encontrei, numa aldeia ribeirinha do Tejo, sinto agora que o est\u00e3o a tentar apagar da forma mais desumana. As chamas ainda n\u00e3o chegaram aqui. Ainda. Mas quem me garante que amanh\u00e3 n\u00e3o chegar\u00e3o? Ou no pr\u00f3ximo ver\u00e3o? <b>Quem me garante que n\u00e3o verei a minha casa, a terra que escolhi para ser feliz, virar capa de jornal com enormes manchetes a gritar: \u201cDestrui\u00e7\u00e3o total\u201d?<\/b><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">V\u00e3o ser as promessas a proteger-nos? Aquelas que se ouvem h\u00e1 anos? Essas mesmas promessas, feitas em discursos inflamados que nunca tocam o ch\u00e3o onde a terra arde?<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><b>Todos os ver\u00f5es assistimos ao mesmo ritual:<\/b> pol\u00edticos de mangas arrega\u00e7adas a jurarem que \u201cdesta vez ser\u00e1 diferente\u201d, enquanto as televis\u00f5es nos mostram o mesmo cen\u00e1rio de sempre. <b>Bombeiros exaustos, alde\u00f5es a despejar baldes de \u00e1gua contra o imposs\u00edvel, animais a fugir sem destino, rostos negros de cinza e olhos cheios de l\u00e1grimas. A boca seca e uma sede que n\u00e3o se mata com \u00e1gua, mas com verdade. E a verdade \u00e9 que j\u00e1 n\u00e3o acreditamos.<\/b><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">O que se repete j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 trag\u00e9dia: <b>\u00e9 abandono.<\/b><\/p>\n<p>Arde o interior, porque o interior foi esquecido. Arde o interior, porque o interior foi deixado \u00e0 sorte. E quando as chamas chegam, n\u00e3o \u00e9 apenas o grande e bel\u00edssimo manto verde que se perde. <b>\u00c9 uma identidade inteira a ser reduzida a p\u00f3.<\/b><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">E pergunto: quantas vezes mais? Quantos ver\u00f5es ainda t\u00eam de queimar para que se perceba que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a mata que se perde, mas a casa comum de todos n\u00f3s? Porque n\u00e3o \u00e9 um problema \u201cl\u00e1 longe\u201d. \u00c9 aqui, \u00e9 dentro de n\u00f3s! <b>Quando uma aldeia arde, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o mapa que fica ferido: \u00e9 a alma coletiva que encolhe, que se apaga, que fica mais pequena.<\/b><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Os portugueses est\u00e3o cansados de esperar. <b>Cansados de promessas que se transformam em cinzas antes de chegarem a ser realidade. <\/b>E h\u00e1 um momento em que a fadiga se transforma em revolta. Talvez seja este o momento.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Este meu desabafo nada tem de pol\u00edtico. Porque, quando se assiste \u00e0 perda de tudo: de ra\u00edzes, de paredes, de horizontes e, ainda assim, se insiste em acreditar, n\u00e3o \u00e9 ingenuidade: <b>\u00e9 resist\u00eancia<\/b>. <b>\u00c9 a forma mais pura de humanidade<\/b>. Essa capacidade teimosa de esperar pela chuva, de replantar depois das cinzas, de acreditar que o ch\u00e3o queimado pode voltar a dar vida. Essa esperan\u00e7a n\u00e3o se decreta nem se promete em discursos: <b>vive dentro das pessoas comuns, aquelas que todos os anos reconstroem com as pr\u00f3prias m\u00e3os o que o fogo levou.<\/b><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">E talvez seja a\u00ed que ainda exista a centelha que o mundo parece ter-se esquecido:<b> a de ser humano<\/b>, apesar de tudo, contra tudo, no meio de tudo.<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">O nosso pa\u00eds pode ser pequeno, mas o sil\u00eancio que o envolve quando arde \u00e9 imenso. E, no fundo, o que est\u00e1 a ser consumido <b>n\u00e3o \u00e9 apenas territ\u00f3rio.<\/b> <b>\u00c9 futuro. \u00c9 perten\u00e7a. \u00c9 casa.<\/b><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">E se a nossa casa arde, de que serve ter ainda a chave no bolso?<\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"justify\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><span style=\"color: #222222;\">SANDRA MAY<\/span><\/span><\/span><\/p>\n<p align=\"left\"><span style=\"color: #222222;\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><i>Acompanha o trabalho da autora em:<br \/>\n<\/i><\/span><\/span><\/span><span style=\"color: #3b5e78;\"><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\"><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/saandramay\/\">https:\/\/www.instagram.com\/saandramay\/<br \/>\n<\/a><a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/saandramay\/\">https:\/\/www.facebook.com\/saandramay\/<\/a><\/span><\/span><\/span><\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/a-cronica-de-sandra-may-entre-mudancas-e-conexoes-quando-o-pais-arde-a-nossa-casa-arde\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entre cinzas e promessas que se acumularam durante anos, eis o que j\u00e1 parece n\u00e3o chocar: Portugal est\u00e1 a arder. 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