{"id":69015,"date":"2025-08-06T15:30:14","date_gmt":"2025-08-06T14:30:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/?p=69015"},"modified":"2025-08-06T12:15:34","modified_gmt":"2025-08-06T11:15:34","slug":"a-cronica-de-manuel-fernandes-vicente-alegremente-a-reboque-das-novas-tecnologias","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/a-cronica-de-manuel-fernandes-vicente-alegremente-a-reboque-das-novas-tecnologias\/","title":{"rendered":"A Cr\u00f3nica de Manuel Fernandes Vicente: &#8220;Alegremente, a reboque das novas tecnologias&#8221;"},"content":{"rendered":"<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Independentemente do que cada um de n\u00f3s possa pensar delas, uma coisa \u00e9 certa, a import\u00e2ncia das novas tecnologias e da realidade digital, incluindo nelas o que surgiu no planeta do <i>Homo sapiens<\/i> sobretudo ap\u00f3s o advento dos computadores, da <i>Internet<\/i>, dos dispositivos de \u00e9cran, das redes sociais e, mais recentemente, da Intelig\u00eancia Artificial (IA), \u00e9 substantiva, dominante e incontorn\u00e1vel. Mas n\u00e3o \u00e9 un\u00edvoca, e est\u00e1 muito longe de ser consensual. Conhe\u00e7o pessoas que, fundamentadamente, t\u00eam at\u00e9 posi\u00e7\u00f5es opostas na simpatia ou na avers\u00e3o que lhes dedicam, indo da devo\u00e7\u00e3o quase religiosa a uma oposi\u00e7\u00e3o praticamente ludita, o que longe de me deixar confuso, desperta um pouco o desejo de ir mais al\u00e9m do que de ficar pelos estere\u00f3tipos estabelecidos.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Mas se s\u00e3o as novas tecnologias, na mir\u00edade das suas manifesta\u00e7\u00f5es, obedecem aos des\u00edgnios do ser humano (se ainda podemos considerar humanos certos seres que j\u00e1 entregaram a alma ao dem\u00f3nio digital e se deixam comandar por uns enigm\u00e1ticos algoritmos) ou se j\u00e1 s\u00e3o elas que definem o rumo, e somos n\u00f3s que vamos a reboque, sem qualquer controlo, como um carro sem trav\u00f5es a descer por uma ladeira bastante desca\u00edda \u23bc isso j\u00e1 \u00e9 outra conversa. E este \u00e9 o n\u00f3 g\u00f3rdio do debate da presen\u00e7a das novas tecnologias na sociedade e no mundo atual, e tamb\u00e9m na influ\u00eancia perniciosa que est\u00e3o a exercer sobre as pessoas, em particular sobre os mais vulner\u00e1veis, os jovens que ainda frequentam as escolas, ou nela ainda nem sequer entraram, ou mesmo os jovens adultos <i>millennials<\/i> ou, com mais abrang\u00eancia, das gera\u00e7\u00f5es Y ou Z. E ser\u00e1 este aspeto, bastante sens\u00edvel sobre o ser humano, que eu gostaria de examinar de uma forma mais pr\u00f3xima e anal\u00edtica. H\u00e1 pessoas que p\u00f5em as novas tecnologias no p\u00falpito dos qualificativos e lhes dedicam uma f\u00e9 imensa. Mas \u00e9 uma f\u00e9 melindrosa&#8230;<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Desde a \u00e9poca das nov\u00edssimas (e hoje consideradas j\u00e1 primitiv\u00edssimas) m\u00e1quinas de calcular que me apercebi (e qualquer pessoa atenta deve ter chegado \u00e0 mesma conclus\u00e3o) que o abuso da pr\u00e1tica lit\u00fargica destes magn\u00edficos mecanismos tinham o efeito f\u00fanebre de ir fazendo claudicar gradualmente o jeito para o c\u00e1lculo mental e, a longo prazo, causar mesmo a sua sinistra extin\u00e7\u00e3o. Foi um pouco deprimente at\u00e9 ver gente em nada destitu\u00edda, era at\u00e9 mesmo apta e culta, a recorrer por tudo e por nada aos servi\u00e7os m\u00e1gicos de uma <i>texas<\/i> ou de uma <i>casio<\/i>, j\u00e1 n\u00e3o falo naturalmente da determina\u00e7\u00e3o de uma raiz c\u00fabica ou de um logaritmo qualquer. Mesma para uma opera\u00e7\u00e3o mais elementar era preciso ir a teclar os dispositivos para obter um resultado que uma simples observa\u00e7\u00e3o logo oferecia intuitivamente. Dizia-se que se poupava tempo, e isso \u00e9 verdade, mas tamb\u00e9m se poupava no c\u00f3rtex, que por isso come\u00e7ou a escassear&#8230; E claro que a capacidade de c\u00e1lculo pessoal foi decaindo e atrofiando cada vez mais \u00e0 medida que as calculadoras evolu\u00edam e se desenvolviam para as novas vers\u00f5es cient\u00edficas, gr\u00e1ficas, digitais e outras com recursos cada vez mais<i> plus<\/i>. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">A verdade \u00e9 que quanto mais <i>plus<\/i> eram os dispositivos, mais <i>minus<\/i>, para n\u00e3o dizer ocos, ficavam os c\u00e9rebros de quem a elas recorria abusivamente e por sistema. Como ficou inscrito no Templo de Delfos, \u201cnada em excesso\u201d, tudo deve ser tomado com modera\u00e7\u00e3o. Em termos mec\u00e2nicos podemos simplificar dizendo que estamos em presen\u00e7a de um puro fen\u00f3meno de transfer\u00eancia de capacidades. Se certas aptid\u00f5es pr\u00f3prias da mente humana existem mas n\u00e3o s\u00e3o exercitadas nem cultivadas pelos seus propriet\u00e1rios, h\u00e1 que os lamentar. Preferiram transferir o esfor\u00e7o (e o exerc\u00edcio) para a m\u00e1quina e atingir um objetivo de forma mais f\u00e1cil e com menos cansa\u00e7o. \u00c9 uma tenta\u00e7\u00e3o que se tornou lei, e esta at\u00e9 tem um nome: \u00e9 a lei do esfor\u00e7o m\u00ednimo, consagrada na Antropologia, e seguida como uma religi\u00e3o por muitos jovens (e menos jovens), que nela depositam uma f\u00e9 inquebr\u00e1vel, insens\u00edvel mesmo face a qualquer cr\u00edtica desfavor\u00e1vel que se lhe aponte.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">O pior de tudo \u00e9 que esta lei tamb\u00e9m se transferiu h\u00e1 uns bastos anos para a gigante e bizarra m\u00e1quina ministerial que dirige o ensino em Portugal e que, n\u00e3o obstante a pondera\u00e7\u00e3o j\u00e1 revelada pelo atual ministro Fernando Alexandre, continua a conspurcar a Educa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds e eiva como erva daninha nas escolas. A m\u00e1quina comunga, investe e propaga com engenho (e protegida pelos decretos pontif\u00edcios desta congrega\u00e7\u00e3o eclesi\u00e1stica publicada no DR) este apoio ao facilitismo e aos seus efeitos nefandos \u2212 que o bom senso prev\u00ea e o princ\u00edpio das consequ\u00eancias naturais j\u00e1 antecipa. De resto, a saga facilitista come\u00e7ou h\u00e1 muito, talvez desde a abomina\u00e7\u00e3o secular do papel da mem\u00f3ria e das suas fun\u00e7\u00f5es, como se ela n\u00e3o fosse uma parte essencial da nossa identidade e da cultura a que pertencemos (que se baseia numa ac\u00famulo f\u00e9rtil de mem\u00f3rias), at\u00e9 \u00e0 pr\u00e1tica escolar mais recente de acabar com os trabalhos de casa.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Hoje, nestes longos dias de uma can\u00edcula que j\u00e1 anuncia o que \u00e9 muito prov\u00e1vel que sejam os longos ver\u00f5es futuros, e numa esplanada mais apraz\u00edvel, uma mesa ao lado povoada por seguidores desta seita (e provavelmente as maiores v\u00edtimas do seu credo) d\u00e1 mostras fartas do seu mundo. Passando adiante sobre o rico vern\u00e1culo, mas impublic\u00e1vel (de \u201corvalhos\u201d e \u201c\u00f3scares\u201d a afins\u2026), que decora profusamente o seu escasso gloss\u00e1rio, e onde o <i>delas<\/i> (que compensam esta abund\u00e2ncia no asneir\u00e1rio com a escassez no vestu\u00e1rio) consegue suplantar o dos mancebos, todo o audit\u00f3rio em torno fica a conhecer \u00e0 for\u00e7a alguns dos seus detalhes existenciais mais reveladores. Peixes n\u00e3o comem porque t\u00eam espinhas, n\u00easperas nem tocar-lhes porque h\u00e1 coro\u00e7os, uvas s\u00f3 das variedades sem grainhas (que j\u00e1 ter\u00e3o sido geneticamente modificadas para agradar a suas excel\u00eancias), quanto \u00e0 carne tem de ser desossada, se n\u00e3o, nada feito. At\u00e9 ao d\u00e9cimo ano os pais (ou at\u00e9 os pobres av\u00f3s) tiveram de tirar ao descanso para levar de carro a pobre criatura at\u00e9 \u00e0 escola a 400 metros de casa. Desenvolveram, portanto, uma enorme autonomia. Na leitura cansam-se depressa, a escrita h\u00e1 de ser para o dia seguinte, s\u00e3o adversos e reagem mal a qualquer contrariedade, e pior ainda se algum tipo de contratempo persiste mais de cinco minutos, o que os obriga quase compulsivamente a recorrer \u00e0 caixinha calmante dos <i>xanaxes<\/i> ou dos <i>cipralexes<\/i>, o que contribuiu para tornar Portugal num dos primeiros pa\u00edses (da Organiza\u00e7\u00e3o para a Coopera\u00e7\u00e3o e Desenvolvimento Econ\u00f3mico) no consumo <i>per capita<\/i> de subst\u00e2ncias deste g\u00e9nero. Amigos verdadeiros s\u00f3 t\u00eam um \u2013 o seu computador pessoal com as aplica\u00e7\u00f5es e servi\u00e7os anexos \u2013 e h\u00e1 um <i>flirt<\/i> recente que j\u00e1 n\u00e3o dispensem e sem o qual, suspeito eu, j\u00e1 n\u00e3o sobreviveriam, a IA. <\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Destitu\u00eddos de quaisquer virtudes espec\u00edficas, assumem a platitude existencial como uma forma de vida. Quando entram num comboio, tratam de imediato em tornar-se invis\u00edveis aos demais, uma pala do bon\u00e9 sobre a testa e at\u00e9 ao nariz, \u00f3culos escuros para encovar o olhar, auscultadores grandiosos nos ouvidos e de <i>smartphone<\/i> em punho at\u00e9 ao fim da viagem num recanto da carruagem, o contacto humano \u00e9-lhes bastante dif\u00edcil e cada vez o ser\u00e1 mais. Hiperativos, s\u00f3 mesmo no dedilhar prof\u00edcuo e nervoso das teclas dos queridos \u00e9crans t\u00e1teis ou no teclado quase gasto do computador, perante os quais s\u00f3 n\u00e3o fletem os joelhos por ser impr\u00f3prio ou isso dar muito trabalho.<\/span><\/span><\/p>\n<p><span style=\"font-family: Arial, sans-serif;\"><span style=\"font-size: medium;\">Pobres criaturas. Caminham mecanicamente, quase n\u00e3o falam, tornaram-se insens\u00edveis a tudo o que na realidade os rodeia e incensam mundos imagin\u00e1rios, e tornaram a vida num rascunho pensando que ser\u00e1 deles o reino de Deus. E somos todos n\u00f3s, os mais velhos, os pais e os av\u00f3s, os professores e amigos mais experientes, e essa fauna de inimput\u00e1veis pol\u00edticos e legisladores compulsivos que legislam sobre o que nada entendem a reboque de modas, os principais respons\u00e1veis do estado a que isto chegou, e do que mais se ver\u00e1\u2026 <\/span><\/span><\/p>\n<div class=\"fb-background-color\">\n\t\t\t  <div \n\t\t\t  \tclass = \"fb-comments\" \n\t\t\t  \tdata-href = \"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/a-cronica-de-manuel-fernandes-vicente-alegremente-a-reboque-das-novas-tecnologias\/\"\n\t\t\t  \tdata-numposts = \"10\"\n\t\t\t  \tdata-lazy = \"true\"\n\t\t\t\tdata-colorscheme = \"light\"\n\t\t\t\tdata-order-by = \"social\"\n\t\t\t\tdata-mobile=true>\n\t\t\t  <\/div><\/div>\n\t\t  <style>\n\t\t    .fb-background-color {\n\t\t\t\tbackground:  !important;\n\t\t\t}\n\t\t\t.fb_iframe_widget_fluid_desktop iframe {\n\t\t\t    width: 100% !important;\n\t\t\t}\n\t\t  <\/style>\n\t\t  ","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Independentemente do que cada um de n\u00f3s possa pensar delas, uma coisa \u00e9 certa, a import\u00e2ncia das novas tecnologias e da realidade digital, incluindo nelas o que surgiu no planeta do Homo sapiens sobretudo ap\u00f3s o advento dos computadores, da Internet, dos dispositivos de \u00e9cran, das redes sociais e, mais recentemente, da Intelig\u00eancia Artificial (IA), [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":21,"featured_media":69016,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"footnotes":""},"categories":[55,139,66],"tags":[],"class_list":{"0":"post-69015","1":"post","2":"type-post","3":"status-publish","4":"format-standard","5":"has-post-thumbnail","7":"category-cronica","8":"category-cronica-eol","9":"category-manuel-fernandes-vicente"},"acf":[],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/69015","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/21"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=69015"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/69015\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/69016"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=69015"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=69015"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/www.entroncamentoonline.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=69015"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}